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Construção de Identidade(s)

Globalização e Fronteiras

by Ana Isabel Boura (Volume editor) Francisco Topa (Volume editor) Jorge Martins Ribeiro (Volume editor)
Edited Collection 200 Pages
Series: CITCEM, Volume 10

Summary

Este volume debate o tema da construção de identidade(s), numa época em que fronteiras e globalização coexistem. Ao longo de onze capítulos, a questão é discutida de um ponto de vista pluridisciplinar, com abordagens provenientes do campo da ciência política, da história, dos estudos culturais, da geo-historiografia, dos estudos literários, da teoria e da didática da literatura, bem como da sociologia. O livro inclui uma segunda parte consagrada ao 2.º centenário das invasões francesas no norte de Portugal. Focando processos, personalidades e locais relevantes da História e da Cultura, esta obra procura ser um contributo cientificamente inovador, de leitura proveitosa tanto para especialistas, como para o grande público.

Table Of Content

  • Cover
  • Título
  • Direitos autorais
  • Sobre o Editores
  • Sobre o livro
  • Este eBook pode ser citado
  • Índice
  • Nota de apresentação
  • Construção de Identidade(s): Globalização e Fronteiras
  • A Europa na vertigem de Babel
  • Identidade nacional
  • A identidade dos outros
  • ‘Le passage du troupeau’: escala e identidade no pensamento histórico de Martins Sarmento
  • Portugal perante as nações: António Ferro e a imagem do país
  • Traspasse de fronteiras e (des)construção de identidades em Das Urteil de Franz Kafka
  • Presença / ausência (Configurações da Pátria em Almada Negreiros) Excurso breve acerca da identidade nacional
  • As leituras literárias e as imagens do humano: rastos literários nas amplas esferas da sociedade e economia
  • «Os homens definem-se por um itinerário»: a viagem como possibilidade de reconfiguração identitária em Amin Maalouf
  • «Quem na pátria fica de si mesmo sai?»: a utopia da pátria na obra ficcional de Rui Nunes
  • Apropriações, identidades e oscilações em torno da música: um ensaio na primeira pessoa acerca do rock português
  • As Invasões Francesas no Norte de Portugal
  • O nosso tempo, os nacionalismos e as guerras napoleónicas
  • Napoleão Bonaparte e o romantismo francês
  • Breve testemunho dos ecos das Invasões Francesas: Percurso em itinerário livre de um corpus da coleção de gravuras do Fundo Barca-Oliveira
  • João António Frederico Ferro e a invasão francesa de 1809: O saque dos conos

← 6 | 7 → Nota de apresentação

O presente volume reflete algum do trabalho recente do grupo «Multiculturalidade e diálogo internacional» do Centro de Investigação Transdisciplinar Cultura, Espaço e Memória. Subordinado ao tema Construção de identidade(s): globalização e fronteiras, apresenta um primeiro conjunto de onze artigos onde a questão é discutida de um ponto de vista pluridisciplinar, que inclui abordagens provenientes do campo da ciência política, da história, dos estudos culturais, da geo-historiografia, dos estudos literários, da teoria e da didática da literatura, da sociologia. O primeiro ensaio, da autoria de Rui Moreira, analisa as causas do clima de pessimismo que domina a Europa e aborda soluções para o problema. Antonieta Costa questiona, em seguida, o conceito de identidade nacional, à luz da Psicologia Social e da Antropologia Cultural, ao passo que Rui Estrada, contrapondo exemplos retirados da antiguidade grega e da Améria atual, mostra que «há várias identidades, por vezes, incomensuráveis». José Ramiro Pimenta, por seu turno, estuda o tema da escala e da identidade no pensamento histórico de Martins Sarmento, enquanto Carla Ribeiro analisa o papel de António Ferro na construção identitária nacional ao longo das duas primeiras décadas do Estado Novo. No domínio da literatura, Ana Isabel Gouveia Boura explora o conto de Kafka Das Urteil, publicado em 1913 e várias vezes traduzido para português, na perspetiva do «Traspasse de fronteiras e (des)construção de identidades»; Luciana Cabral Pereira mostra as possibilidades de aplicação da literatura à formação nas áreas da economia; Celina Silva trata o tema das configurações da pátria em Almada Negreiros; Maria José Carneiro Dias analisa «a viagem como possibilidade de reconfiguração identitária em Amin Maalouf»; e Ana Catarina Oliveira Marques reflete sobre «a utopia da pátria na obra ficcional de Rui Nunes». A primeira parte do volume termina com um ensaio de Paula Guerra sobre as identidades no rock português, em que se aborda o caso de Adolfo Luxúria Canibal, vocalista dos Mão Morta.

O livro inclui uma segunda parte mais breve, consagrada ao 2.º centenário das invasões francesas no norte de Portugal, que abre com um ensaio panorâmico de Luís A. de Oliveira Ramos sobre «O nosso tempo, os nacionalismos e as guerras napoleónicas», a que se seguem três artigos sobre questões mais particulares: Maria do Nascimento Oliveira Carneiro aborda o tema «Napoleão Bonaparte ← 7 | 8 → e o romantismo francês»; Celina Silva reflete sobre um corpus de uma coleção de gravuras do Arquivo Distrital de Braga; e Francisco Topa apresenta O saque dos conos, um poema herói-cómico de circulação clandestina, da autoria de João António Frederico Ferro, precisamente sobre a invasão francesa de 1809.

Deste conjunto de contributos nascerá certamente um olhar estimulante sobre um tema maior da investigação atual.

Porto, 27 de janeiro de 2014

Ana Isabel Gouveia Boura

Francisco Topa

Jorge Martins Ribeiro

← 10 | 11 → Rui Moreira

Cons. de Representantes da FLUP / C. M. do Porto

A Europa na vertigem de Babel

Por isso, lhe foi dado o nome de Babel, visto ter sido lá que Deus confundiu a linguagem de todos os habitantes da Terra

Génesis 11:1-9

Hoje a Europa vive um clima terrível e profundo de pessimismo. Independentemente da conjuntura adversa, os europeus têm a noção de que a sua preponderância no Mundo, que durou muitos séculos, e que só no século passado partilharam com os Estados Unidos da América, pouco mais é do que uma recordação histórica. Pior do que isso, pressentem que essa outra potência, com a qual partilham valores históricos e civilizacionais, também parece condenada ao declínio. E, como se sabe, essa partilha do Mundo com o seu aliado atlântico foi muito confortável para os europeus. É certo que sempre houve, na Europa, quem contestasse o imperialismo yankee, quem se atrevesse a discutir a sua crescente hegemonia no plano económico e cultural, quem se interrogasse sobre as suas políticas internas e se indignasse com as suas aspirações externas mas, independentemente desse desconforto, a verdade é que o polícia americano garantiu sempre aos europeus um extraordinário aconchego.

De certa forma, poder-se-á dizer que os Estados Unidos da América são uma potência rival, e com interesses muitas vezes contrários aos das potências europeias, mas fazem parte da mesma civilização a que chamamos de ocidental. Por isso, e quando foram chamados a arbitrar ou a decidir conflitos na Europa, o que sucedeu várias vezes no século passado, os americanos estiveram sempre do lado desses valores civilizacionais que a Europa tanto estima, mas que muitas vezes esquece, e pelos quais tem dificuldade em combater.

Agora, os europeus pressentem que, para além das debilidades da sua Europa, há também um declínio de toda a civilização ocidental, no confronto com as outras civilizações que também elas se vão organizando em blocos económicos. E, note-se, isso é coisa que não pode admirar ou surpreender porque civilização é, por definição, um confronto.

← 11 | 12 → Ora, nas próximas décadas, o Mundo tornar-se-á seguramente mais perigoso, em virtude desse confronto de civilizações, cada vez mais próximas e mais interdependentes, e, também, pela insuficiência de recursos naturais no planeta. A elevada taxa de natalidade em muitas zonas do globo, a maior longevidade individual proporcionada pelos avanços da ciência, o esgotamento dos combustíveis fósseis que são a base da civilização humana tal como a conhecemos, a destruição do ambiente e da diversidade biológica, a rarefação da água potável e a insuficiência de terras aráveis que garantam o sustento das populações, são fatores de grande risco. Além disso, o fim da guerra fria não trouxe consigo o desarmamento. Pelo contrário, assiste-se à proliferação de estados e nações que não hesitam em apostar os seus muitas vezes parcos recursos em arsenais de destruição.

Ou seja, é lícito pensar que se a humanidade não souber contrariar estas ameaças, o Mundo que nos espera, ou que aguarda as futuras gerações, será, de novo, percorrido pelos cavaleiros do apocalipse: pela peste, pela guerra, pela fome e pela morte. E, numa perspetiva histórica, a Europa é um alvo muito vulnerável e poderá estar confrontada com uma ameaça que vai muito para além das suas querelas internas, das guerras religiosas, das guerras nacionalistas e das guerras ideológicas que dilaceraram o continente. O risco assemelha-se mais ao que se viveu com a ameaça de invasão dos otomanos de Soleimão, o Magnífico, que chegaram às portas de Viena; o cenário que nos espera pode ter contornos dramáticos, idênticos aos séculos de penumbra que se seguiram à queda do império romano.

Naturalmente há quem reclame que tudo isto sucede porque a Europa está a naufragar, atirada para os rochedos pelos ventos da globalização. De facto, a coerência das velhas trocas económicas entre nações distantes, deu lugar a uma aparente desordem, em que tudo o que sucede num canto do Mundo afeta, globalmente, todo o planeta. Os fluxos financeiros e as trocas económicas deixaram de respeitar os limites geográficos dos continentes, dos blocos económicos e das nações. As fronteiras físicas dos estados deixaram de funcionar como uma cortina protetora porque as economias se abriram ao exterior, com a aceleração das transações comerciais. Apesar de continuar a haver ricos e pobres e de haver diferentes graus de desenvolvimento social entre as nações e as diversas regiões do planeta, a economia global alterou-se. Antes havia economias pobres que produziam matérias-primas e economias ricas que as extorquiam e transformavam em produtos de consumo. Hoje as economias que há trinta anos eram das mais industrializadas do planeta terciarizaram-se. Algumas das economias que antes se dedicavam ao setor primário transformaram-se nos motores industriais da economia mundial e libertam-se, agora, da tutela tecnológica de países terceiros, ← 12 | 13 → reclamando a sua progressiva autonomia. Deixou por isso, e por via dessa interdependência, de haver economias estanques.

Enquanto a envelhecida população dos países do Primeiro Mundo continua a reclamar mais conforto, melhor ambiente e menos trabalho, deixando que seja o consumo a ditar as suas escolhas, as sociedades do velho Terceiro Mundo, que antes pareciam contentar-se com a mera subsistência, transformaram-se em gigantescos formigueiros, com gentes que não hesitam em fazer todos os sacrifícios e toleram todo o desconforto, desde que, em troca, vejam satisfeitas a sua avidez de consumo, reclamando, muito justamente, o direito à apropriação do seu quinhão dos recursos naturais do planeta.

Details

Pages
200
ISBN (PDF)
9783653049015
ISBN (ePUB)
9783653979862
ISBN (MOBI)
9783653979855
ISBN (Hardcover)
9783631655221
Language
Spanish
Publication date
2015 (January)
Published
Frankfurt am Main, Berlin, Bern, Bruxelles, New York, Oxford, Wien, 2014. 200 p., 7 il. em cores, 7 il. branco/preto

Biographical notes

Ana Isabel Boura (Volume editor) Francisco Topa (Volume editor) Jorge Martins Ribeiro (Volume editor)

Ana Isabel Boura, doutorada em Literatura Alemã, Francisco Topa, doutorado em Literatura, e Jorge Martins Ribeiro, doutorado em História Moderna e Contemporânea, são Professores da Faculdade de Letras da Universidade do Porto e têm publicações científicas em língua portuguesa, inglesa, espanhola, francesa e alemã, nas áreas dos Estudos Literários, Culturais e Históricos.

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