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A tradução em movimento

Figurações do traduzir entre culturas de Língua Portuguesa e culturas de Língua Alemã

by Susana Kampff Lages (Volume editor) Johannes Kretschmer (Volume editor) Kathrin Sartingen (Volume editor)
Edited Collection 268 Pages

Table Of Content

  • Cobertura / Cover
  • Título / Titel
  • Copyright
  • Sobre o autor/o editor / Autoren-/Herausgeberangaben
  • Sobre o livro / Über das Buch
  • Este eBook pode ser citado / Zitierfähigkeit des eBooks
  • Sumário / Inhalt
  • Apresentação
  • Agradecimentos
  • Einleitung
  • Danksagung
  • I Transcriação – Transkreation
  • Alles ist Samenkorn / Tudo é semente: O germanista Haroldo de Campos (Márcio Seligmann-Silva)
  • “Todo passado merece ser devorado”. Algumas reflexões sobre a antropofagia da tradução (Melanie P. Strasser)
  • II Viagens – Reisen
  • Peripécias, viagens, conhecimento: quatro versões em português de “Ítaca” (Sabrina Sedlmayer)
  • Transportar culturas, traduzir poemas: Jorge de Sena, tradutor (Fernando Miranda)
  • João Guimarães Rosa: tradutor de tradições e linguagens, gêneros e culturas (Kathrin H. Rosenfield)
  • III Exílio – Exil
  • Um exílio na linguagem. Emilio Villa, poeta e tradutor, à luz da Cabala luriânica (Andrea Lombardi)
  • Ernst Jüngers brasilianischer Korrespondent: Auf der Suche nach Otto Storch (Detlev Schöttker / Anja S. Hübner)
  • IV História – Geschichte
  • Uma questão de tradução: “drama barroco” ou “drama trágico” em Walter Benjamin? (Elcio Loureiro Cornelsen)
  • Trajetória inesperada de uma tradução – E. T. A. Hoffmann e Justiniano José da Rocha (Karin Volobuef)
  • Uma leitura de K. – Relato de uma busca, de Bernardo Kucinski, a partir do conceito da tradução cultural (Verónica Abrego)
  • V Identidade – Identität
  • Língua, cultura e identidade na tradução dos Grimm: As crianças de Hamelin em Português Brasileiro (Mônica Maria Guimarães Savedra / Marina Dupré Lobato)
  • Traduzindo o ser negro em diferentes contextos e espaços geográficos (Maria Aparecida Andrade Salgueiro)
  • Traduzir o eu. Premissas para uma tradução dos Diários de Franz Kafka para o português brasileiro (Susana Kampff Lages)
  • VI Liberdade – Freiheit
  • Übersetzung von Subjektivität in der freudschen Psychoanalyse und im Werk Vilém Flussers (Pedro Heliodoro Tavares)
  • Übersetzen als Akt der Freiheit: Vilém Flussers Übersetzungsphilosophie (Clemens van Loyen)
  • Sobre os autores
  • Über die Autoren
  • Obras publicadas na série / Reihenübersicht

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Apresentação

Em sua obra mais conhecida, Grande Sertão: Veredas, o escritor brasileiro João Guimarães Rosa reitera, pela voz do personagem Riobaldo, o caráter misturado, híbrido do sertão, essa paisagem simultaneamente geográfica e espiritual que condensa toda uma visão da língua, da literatura e da cultura brasileira e seu diálogo com outras línguas e culturas. Ora, essa mistura é correlata do extremo dinamismo que subjaz desde sempre à prática da tradução e possivelmente é um dos elementos pelos quais ela foi por tanto tempo relegada a um lugar secundário na reflexão literária e filosófica. Os trabalhos aqui reunidos são, em sua maior parte, fruto da interlocução entre pesquisadores brasileiros e alemães que se reuniram em simpósios dedicados aos Estudos da Tradução durante as 10ª e 11ª edições do tradicional Congresso dos Lusitanistas Alemães, realizados respectivamente em 2013 na Universidade de Hamburgo e em 2015 na Universidade RWTH Aachen, sob os auspícios da Associação dos Lusitanistas Alemães. Tendo como temas gerais, respectivamente, a questão da migração e do exílio e a questão das rupturas e transformações políticas nos países de língua portuguesa, nossos simpósios propunham o exame de obras de autores brasileiros, portugueses e alemães, sob o prisma das transformações operadas pela tradução em sentido próprio, mas também em sentido amplo, como operação transcultural e transdisciplinar.

Convém lembrar aqui, à guisa de introdução, que o reconhecimento e a reafirmação de uma hibridez cultural brasileira na obra de inúmeros autores, sobretudo desde o modernismo, permitiram o surgimento de um projeto ainda mais radical como aquele dos poetas concretos, que pretendiam refundar a literatura brasileira sobre as bases de uma poética sincrônica. Visceralmente ligada a um projeto de apropriação de obras de literaturas estrangeiras por meio de releituras e traduções, essa operação foi por eles cunhada de transcriação. Profundamente sintonizada com o pensamento e a literatura de um conjunto seleto de autores brasileiros e estrangeiros, o pensamento e o projeto dos concretistas e, sobretudo, a reflexão teórica empreendida por Haroldo de Campos valoriza o pensamento do filósofo, crítico e escritor alemão Walter Benjamin, que foi também tradutor de Marcel Proust e Charles Baudelaire, algo que nem sempre é devidamente lembrado. As traduções dos Quadros Parisienses feitas por Benjamin ensejaram a redação, em 1921, do famosíssimo ensaio sobre “A tarefa do tradutor”, submetido a uma original releitura de Haroldo de Campos, que o incorporou de modo sistemático a seu pensamento sobre a tradução. ← 7 | 8 →

Não será, pois, casual, que esta coletânea se abra com uma seção que intitulamos Transcriação, aquele conceito-chave cunhado pelos poetas concretistas paulistas Augusto e Haroldo de Campos e Décio Pignatari para designar sua forma radical de transposição criativa, segundo a expressão utilizada por Roman Jakobson em um texto que se tornou um clássico nos estudos de tradução e cujas ideias foram incorporadas de modo sistemático e teoricamente criativo por Haroldo de Campos. Assinado por Márcio Seligmann-Silva, o texto de abertura de nossa coletânea se dedica a examinar o modo como este poeta pós-concreto incorporou em seu poema-viagem, Galáxias, textos literários e filosóficos alemães em um diálogo marcado por leituras extremamente seletivas e por isso mesmo absolutamente originais. Formando um arco que vai de autores canônicos a não canônicos, do campo poético-literário ao filosófico e mesmo científico, a operação haroldiana de incorporação de um paidema germânico une dois gestos que na materialidade da criação poética se convertem em um: o de babelizar e o de canibalizar. Num gesto radical de canibabelização, o poeta transforma a ideia goetheana de Weltliteratur em mote e fio condutor de sua própria prática de escrita, ao mesmo tempo em que incorpora autores menos conhecidos, precursores e fautores de uma literatura de vanguarda voltada para o experimentalismo multilinguístico, passando pelo Barroco alemão lido por Walter Benjamin e pela obra dos primeiros românticos alemães, cuja alusão figura no título do artigo. O estatuto desse processo de leitura como incorporação literária será justamente discutido por Melanie Strasser em seu texto, que busca definir os limites entre o conceito de antropofagia modernista assim como proposto por Oswald de Andrade e a prática eminentemente desconstrutora da teoria da tradução de Haroldo, tributária entre outros de sua interlocução com o filósofo franco-argelino Jacques Derrida. A partir da argumentação trazida pela autora, vê-se com clareza que a proposta teórica do poeta, crítico e tradutor brasileiro supera o paradigma antropofágico do modernismo, o qual, de certa forma, ainda se inscreve numa lógica binária que apenas inverte os polos das relações de poder instauradas no âmbito de seculares práticas coloniais. Mostra que a reflexão e a prática escritural de Haroldo de Campos busca justamente sair das oposições binárias e alcançar uma circularidade complexa e aberta, labiríntica e espiralada, e com isso se inscreve numa nova lógica: uma lógica pós-moderna e pós-colonial, mais afim de fluxos e passagens do que de polarizações estanques.

É precisamente o tema das passagens literárias e culturais emblematizadas na viagem e sua relação com práticas de tradução poética que constituirá o núcleo da seção seguinte, na qual contamos com dois estudos que partem da prática tradutória do poeta português Jorge de Sena, para o qual a condição de exilado político no Brasil e nos EUA contribuiu para seu interesse pelo exercício tradutório ← 8 | 9 → como forma de refletir sobre a própria condição, ou circunstância, como indicou Fernando Miranda em seu artigo, em um contínuo movimento de aproximação e distanciamento em relação à própria poesia. Pois é sempre à própria prática e experimentação poética que remetem os exercícios tradutórios de poetas como Sena, como fica demonstrado pelas análises da tradução seniana de dois poemas de Bertolt Brecht e Günter Eich, ambos peças fundamentais da moderna poesia alemã. Já Sabrina Sedlmayer verte luz sobre as práticas poéticas modernas por meio da apresentação contígua de quatro traduções para a língua portuguesa do poema “Ítaca”, de Konstantin Kaváfis, partindo de uma reflexão sobre a tradução feita por Jorge de Sena, passando pela tradução do poeta e tradutor brasileiro, José Paulo Paes e a da tradutora Ísis da Fonseca até chegar à proposta transcriadora de Haroldo de Campos. Ao justapor as traduções e situá-las num percurso reflexivo móvel, a autora obtém interessante efeito: o de chamar a atenção para o caráter particularmente exemplar de traduções poéticas. Essa exemplaridade complexa, detectada por Giorgio Agamben, é simultaneamente inclusiva e exclusiva, ou seja, as traduções poéticas, em especial aquelas realizadas por poetas, têm o condão de se voltar ao mesmo tempo para si mesmas e para a alteridade linguística e cultural que as habita. Fecha a seção o trabalho de Kathrin Rosenfield, que examina as fontes eruditas e populares da obra de João Guimarães Rosa, a construção de sua particular dicção a partir de seus primeiros experimentos poéticos, identificando um modo muito particular de realizar transposições de certos conceitos, imagens e sensações, típicos da literatura e da cultura alemã. Plasmados nas formas da poesia popular brasileira, tais elementos são transportados para o singular espaço-tempo circunscrito pela palavra brasileira sertão e suas múltiplas determinações e referências. Nesse sentido, Rosa opera uma verdadeira metamorfose poética das impalpáveis sensações de encantamento-estranhamento, hauridas em suas leituras alemãs, em versos extraídos da mais genuína fonte popular portuguesa e brasileira.

Na terceira seção do livro o leitor encontrará dois artigos cuja articulação com processos translatícios, em senso amplo, encontra-se determinada pela circunstância do exílio. Em seu estudo, Andrea Lombardi busca apresentar, do ponto de vista da tradução, a obra do pouco conhecido escritor italiano Emilio Villa, poeta, tradutor mais conhecido como crítico de arte, que viveu um breve período de exílio voluntário no Brasil dos anos 50, em São Paulo. Identifica afinidades da obra villiana com o movimento da poesia concreta, que iniciava suas atividades públicas justo naqueles anos. Embora não tenha havido contato direto entre os poetas concretos e Villa, a ideia do exílio como estado metafísico subjacente à própria poesia, as ligações com a tradição judaica e, em particular, com a tradição cabalística, o ← 9 | 10 → interesse pela tradução de obras basilares da cultura ocidental (Villa foi tradutor da Odisseia; Haroldo de Campos traduziu a Ilíada, e conhecia o poeta e crítico italiano) são aspectos que aproximam suas respectivas poéticas. A condição do exílio promove um necessário desaparecimento do sujeito, que ao sair de seu lugar de origem deixa um vazio irremediável. Atual organizador da correspondência deixada pelo escritor Ernst Jünger, Detlev Schöttker descobriu nela registros de sua correspondência com o jornalista fotográfico, militante comunista e emigrado alemão Otto Storch, que conhecera em viagem de navio ao Brasil em 1936 e com o qual iniciou a troca de cartas que se interrompe já no início da 2ª Guerra Mundial. O artigo trata dessa correspondência que dá testemunho sobre toda uma época conturbada da história do século XX e traz um inédito relato de Storch a respeito das condições de vida no Brasil da época, fazendo observações sobre a natureza, hábitos e as enormes diferenças culturais a separar a cultura local da sua de origem e assim agregando elementos novos à visão do Brasil transmitida por Stefan Zweig, já tornada quase um chavão. Não fosse a existência da correspondência, não teríamos acesso a esse testemunho de uma vida emblemática de seu tempo e que assim como tantas outras vidas desapareceu sem deixar rastro–dele não se tem mais notícias desde o início dos anos 40.

Que os desdobramentos da História deixem marcas indeléveis nos textos, esse é um fato com o qual o tradutor tem de lidar materialmente na sua prática diária. E também é um fato recorrente que leitores e estudiosos da tradução percebam muitas vezes nas marcas de historicidade de um texto um obstáculo a ser eliminado, ou um elemento a ser enfatizado, a depender de suas próprias interpretações. Os textos que figuram na próxima seção do livro –História– mostram em que medida essa eliminação dos traços históricos afeta a interpretação de textos traduzidos. A partir da comparação entre as traduções para o português brasileiro e português da palavra Trauerspiel, utilizada no título da obra Der Ursprung des deutschen Trauerspiels, de Walter Benjamin, Elcio Cornelsen demonstra o quanto é difícil traduzir termos historicamente marcados, como a designação de um gênero literário que surgiu no contexto do Barroco alemão e que não tem equivalentes em outras literaturas. Examinando as justificativas dadas pelo tradutor brasileiro Sergio Paulo Rouanet e pelo português João Barrento para suas escolhas tradutórias, a reflexão remete à história do gênero e à etimologia das palavras e, sobretudo, aponta para a dificuldade de fazer-se um julgamento de valor sobre opções de tradução que são devidamente sustentadas por argumentos fundamentados no próprio conhecimento da obra, do autor e do tema tratado.

Os caminhos da história das traduções também podem ser rocambolescos – é o que comprova o curioso relato das vicissitudes de uma novela de E.T.A. Hoffmann ← 10 | 11 → na França e, depois, no Brasil. O estudo de Karin Volobuef revela que uma adaptação francesa da novela A senhorita de Scuderi, do autor alemão, teria sido contrabandeada por Justiniano José da Rocha para uma alegada narrativa sua, intitulada Os Assassinos Misteriosos, ou A Paixão dos Diamantes, cujo enredo remete claramente à obra de Hoffmann, mas cujo tratamento moralizante e simplificador trairia falta de domínio de técnicas narrativas. Aqui vemos com clareza a rota pela qual passavam as obras que aportavam no Brasil, provindas da Europa: no século XIX, o universo das letras europeias chegava ao Brasil a partir da cultura francesa (e também inglesa, mas em menor escala), a qual, até há muito pouco tempo, determinava o perfil do intelectual brasileiro e as modas da cultura letrada nacional. Assim aconteceu também com a maior parte das obras traduzidas no século XIX que eram transpostas para o português em tradução francesa ou inglesa e que podiam servir de substrato para reelaborações literárias mais ou menos explícitas.

Se a história humana, como também a história literária, é constituída de apagamentos, desaparecimentos, isso muitas vezes se dá de modo traumático. Os traumas da história brasileira recente são objeto da análise que faz Verónica Abrego da narrativa K. – Relato de uma busca, de autoria do escritor Bernardo Kucinski, filho de Majer Kucinski, poeta e crítico literário judeu-polonês emigrado para o Brasil, cuja filha Ana Rosa Kucinski Silva foi sequestrada pelos órgãos da repressão durante a ditadura militar brasileira. Seguindo os fios da narrativa, que associa o trauma da perseguição nazista aos traumas gerados pelos desaparecimentos forçados no Brasil e na Argentina, Abrego procura interpretar a narrativa kucinskiana a partir de uma concepção de tradução cultural como gesto instável e móvel, enraizado num contexto pós-colonial e na América Latina, pós-ditatorial. Nesse sentido, se o trauma puder ser representado, ou seja, traduzido em palavras, a narrativa K. traz, segundo a autora, o testemunho de uma falha tradutória correlata da perda, do desaparecimento da filha do narrador. História e ficção se entrecruzam e se traduzem mutuamente num espelhamento rebatido pelo jogo de vozes narrativas que não encontra sossego numa busca que não tem fim.

Summary

Para germanistas atuantes em países lusófonos ou lusitanistas em países de língua alemã, a tradução é ferramenta diária e essencial ao trabalho. Mas como tornar essa prática objeto de investigação sistemática? De que forma a tradução e seus desafios auxiliam o pesquisador que opera no campo dos estudos literários? Esta coletânea constitui uma reunião de estudos que tomam a tradução, sua prática, seus desafios e questionamentos, como ponto de partida para abordar temas caros aos estudos literários e culturais. A partir do estudo da obra de autores como Haroldo de Campos, Jorge de Sena, Vilém Flusser, Franz Kafka, Walter Benjamin, entre outros, os autores buscam refletir sobre o papel das relações entre tradução, exílio, identidade, história e filosofia.

Biographical notes

Susana Kampff Lages (Volume editor) Johannes Kretschmer (Volume editor) Kathrin Sartingen (Volume editor)

Susana Kampff Lages e Johannes Kretschmer são tradutores e professores de literatura alemã da Universidade Federal Fluminense (Brasil). Kathrin Sartingen é professora da área de Lusitanística e Hispanística na Universidade de Viena e autora de livros e artigos sobre literatura brasileira, espanhola, latino-americana e lusoafricana.

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