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Pré-História e nacional-socialismo na Alemanha

Um ensaio biográfico sobre o arqueólogo Karl Hermann Jacob-Friesen

by Wolfgang Döpcke (Author)
Monographs XVIII, 206 Pages

Table Of Content


← vi | vii → Prefácio

Durante o período do nacional-socialismo na Alemanha, a ciência da Arqueologia Pré-Histórica ou, simplesmente, a Pré-História, teve uma relação íntima com o regime de Hitler e abraçou entusiasticamente sua ideologia de superioridade “germânica”. A Pré-História virou ciência de “altíssima relevância ideológica”, fundamentando a legitimidade ideológica do regime com uma visão “heroica” do passado “germânico”. A ciência e o conhecimento sobre o passado se transformaram em armas ideológicas para a mobilização da população em prol das políticas raciais e imperiais do nacional-socialismo. Os arqueólogos e pré-historiadores, membros da elite tradicional e conservadora, ofereceram os seus serviços como intelectuais e deram, por convicção política, uma contribuição muito significativa para o alcance dos objetivos do regime.

O protagonista deste livro, o pré-historiador e diretor de museu Karl Hermann Jacob-Friesen (1886–1960), foi um dos mais conceituados arqueólogos da Alemanha entre os anos 1920 e 1940. Sua simpatia pelo regime nazista era prototípica da maioria dos representantes da Pré-História alemã durante o nacional-socialismo. Entretanto, ele achou possível harmonizar a ideologia nacional-socialista com uma Pré-História científica “séria”, empírica e positivista – uma postura que o colocou em choque com os ideólogos mais ortodoxos do NSDAP. A trajetória de Jacob-Friesen durante os anos 1930 e 1940 se dividiu, portanto, em resistência ao sequestro da ciência da Pré-História pelos ideólogos nazistas simplórios, de um lado, e apoio ao nacional-socialismo, de outro, inspirado pela profunda convicção da legitimidade do regime. No balanço final, sua contribuição ao regime chegou a ter um impacto até mais significante: sua Pré-História “germânica” séria convencia mais do que os panfletos dos ideólogos barulhentos.

Este livro desdobra a biografia de Jacob-Friesen, colocando a história da disciplina acadêmica da Pré-História na Alemanha e das suas principais ideias como pano de fundo – e vice versa. Ele conjuga perspectivas da ← vii | viii → História Política e da História das Ideias e das Ciências. É fruto do meu interesse, curtido ao longo dos anos, pela história das coleções etnológicas nos museus da Alemanha, bem como sua relação com o colonialismo, e pela história do Museu Estadual na cidade de Hanôver. A trajetória do protagonista, Jacob-Friesen, que era diretor das coleções arqueológica e etnológica do museu em Hanôver, e os múltiplos vínculos históricos e interesses epistêmicos em comum entre as ciências da Pré-História e da Etnologia abriram a perspectiva das minhas pesquisas para o campo da Arqueologia Pré-Histórica.

O livro se beneficiou do grande apoio de amigos e colegas que merecem meu sincero agradecimento. Além de tudo, foram os comentários, as críticas e as sugestões feitos por Theo Harden, Estevam de Rezende Martins e Arthur Alfaix Assis e a indispensável contribuição dada por Alessandra Ramos de Oliveira Harden, Ana Terra e Marcia Lyra Nascimento Egg com a língua portuguesa que permitiram a realização deste trabalho.

← viii | ix → Dramatis personae, instituições e terminologia alemã

Pessoas

JACOB-FRIESEN, KARL HERMANN (*1886, †1960) – Pré-historiador do Museu Provincial de Hanôver a partir de 1913 e seu diretor entre 1922 e 1953. Filiou-se ao Partido Nacional-Socialista (NSDAP) em 1933. Professor da Universidade de Göttingen desde 1928 e diretor do Instituto de Pré-História da Universidade desde 1939. Opositor de Reinerth, Wirth, Teudt e Wille. Protagonista deste ensaio.

GESSNER, LUDWIG (*1886, †1958) – Político do NSDAP e Diretor de Estado da Província de Hanôver (1933–1945). Membro do NSDAP desde 1930. Ocupou diversas funções de primeiro escalão no governo provincial de Hanôver. Em 1950, foi acusado de conivência com eutanásia, mas absolvido. Superior de Jacob-Friesen na administração provincial e seu apoiador frequente.

HIMMLER, HEINRICH (*1900, †1945) – Comandante supremo da SS (Reichsführer SS) e, a partir de 1943, Ministro do Interior. Membro do NSDAP desde 1923. Como Chefe da SS e da Polícia Alemã, responsável pelo controle do Serviço de Segurança da SS, da Gestapo e do Escritório Central de Segurança do Reich (Reichssicherheitshauptamt), foi o segundo homem mais poderoso do Estado nacional-socialista. Era devoto do ideário oculto e völkisch e adorador da Pré-História germânica. Foi fundador da Ahnenerbe em 1935, com Richard Walther Darré, Ministro de Agricultura e Abastecimento do Reich, e Herman Wirth. Inicialmente, era crítico de Jacob-Friesen. A partir de 1936, Jacob-Friesen aproximou-se da SS e de Himmler. Em 1939, Himmler concedeu-lhe apoio com uma espécie de salvo-conduto.

← ix | x → KOSSINNA, GUSTAF (*1858, †1931) – Filólogo e pré-historiador. Foi um dos mais importantes representantes da Pré-História völkisch no Império Alemão e na República de Weimar. Caracterizou a Pré-História como “ciência eminentemente nacional”. Foi criador do método da “arqueologia do povoamento” (Siedlungsarchäologie) e defensor da interpretação étnica de artefatos e sítios arqueológicos. Foi precursor ideológico do nacional-socialismo e admirado por Rosenberg, Reinerth e seus seguidores, que o chamavam de “velho mestre”. Era alvo de críticas ferrenhas por parte de Jacob-Friesen nos anos 1920.

REINERTH, HANS (*1900, †1990) – Importante arqueólogo do Amt Rosenberg, adepto da doutrina de Kossinna e, em 1934, seu sucessor na Universidade Friedrich-Wilhelm, de Berlim. Editor das revistas Germanenerbe e Mannus. A partir de 1931, foi membro da Kampfbund für Deutsche Kultur (KfdK) e do NSDAP. Em 1932, tornou-se fundador e presidente do Departamento de Pré-História Alemã (Fachgruppe für Vorgeschichte) na KfdK. Em 1934, foi representante de Alfred Rosenberg na área da Pré-História alemã e dirigente do Departamento de Pré-História no Amt Rosenberg. Dirigiu a Reichsbund für Deutsche Vorgeschichte (Associação Nacional da Pré-História Alemã). Foi expulso do NSDAP em fevereiro de 1945. Era o opositor mais ferrenho de Jacob-Friesen.

RICHTHOFEN, BOLKO FREIHERR VON (*1886, †1958) – Pré-historiador e professor universitário. Entre 1929 e 1933, foi curador no Museu Etnológico de Hamburgo; entre 1933 e 1942, foi professor catedrático de Pré-História na Universidade de Königsberg e, a partir de 1942, na Universidade de Leipzig. Membro do NSDAP desde 1933, era nacional-socialista convicto. Em 1933, substituiu Jacob-Friesen como presidente da Berufsvereinigung Deutsche Vorgeschichtsforscher (Associação Profissional dos Pré-Historiadores Alemães). Foi diretor estadual da Associação Nacional da Pré-História Alemã, de Reinerth. Inicialmente, seguiu Reinerth, de quem se distanciou até o rompimento definitivo, em 1937. Membro da Ahnenerbe. Era fiel aliado de Jacob-Friesen nas disputas com Wirth e com os cientistas leigos Teudt e Wille.

ROSENBERG, ALFRED (*1892, †1946) – Principal ideólogo do NSDAP, ministro do Reich e um dos líderes do NSDAP (Reichsleiter). Foi ← x | xi → redator-chefe e editor de várias revistas nacional-socialistas. Fundou, em 1929, a Kampfbund für Deutsche Kultur (KfdK). Foi nomeado, em 1934, para a função de Beauftragter des Führers für die Überwachung der gesamten geistigen und weltanschaulichen Schulung und Erziehung der NSDAP (Encarregado do Führer para a supervisão da instrução e educação intelectual e ideológica do NSDAP). Mais tarde, desempenhou diversas funções no NSDAP e na administração pública. Foi responsável pela designação de Hans Reinerth como diretor do Departamento de Pré-História no Amt Rosenberg. Era adversário de Jacob-Friesen.

SCHROLLER, HERMANN (*1900, †1959) – Pré-historiador e farmacêutico. Era discípulo e seguidor de Reinerth. Em 1929, tornou-se assistente científico no Museu Provincial de Hanôver e, em 1935, foi nomeado curador na mesma instituição. Em 1932, juntou-se à Associação em Defesa da Cultura Alemã. Em 1933, foi nomeado encarregado do NSDAP para Pré-História na região de Hanôver-Sul-Braunschweig. Em 1934, assumiu as posições de diretor estadual em Hanôver da Associação Nacional da Pré-História Alemã, de Reinerth, de diretor da Arbeitsgemeinschaft für die Urgeschichte Nordwestdeutschlands (Associação para a Pré-História do Noroeste da Alemanha) e de redator-chefe da revista da Associação, Die Kunde. Deixou a cidade de Hanôver em 1939 para assumir posição profissional no Sudentenland. Era adversário de Jacob-Friesen no Museu Provincial.

TACKENBERG, KURT (*1899, †1992) – Pré-historiador, filiado, desde 1937, ao NSDAP. De 1929 a 1934, foi curador no Museu Provincial de Hanôver. Em 1934, foi nomeado professor universitário em Leipzig. De 1937 a 1945, ocupou a posição de diretor do Instituto de Pré-História da Universidade de Bonn. Era membro da Kampfbund für Deutsche Kultur (KfdK). Até novembro de 1933, foi seguidor de Reinerth; depois, tornou-se seu adversário e virou apoiador de Jacob-Friesen.

TEUDT, WILHELM (*1860, †1942) – Ex-pastor e pré-historiador leigo völkisch da cidade de Detmold, com longa história de participação em grupos völkisch e de extrema-direita. Interpretava o monumento natural de Externsteine como um santuário germânico pré-cristão e como ← xi | xii → manifestação da “grandeza cultural germânica”. Era apoiado por Himmler e pela Ahnenerbe. Comandava um grande grupo de seguidores na região de Detmold. Em 1938, rompeu em definitivo com Himmler. Era adversário de Jacob-Friesen, que o descrevia como “fantasista” e “lunático”.

WILLE, HERMANN (*1881, †?) – Arquiteto e pré-historiador leigo völkisch da cidade de Oldenburg, apoiado, sobretudo, por Darré, Ministro de Agricultura e Abastecimento do Reich. Distinguiu-se com publicações que consideravam os túmulos megalíticos do norte da Alemanha “templos germânicos”. Era tido como “lunático” por Jacob-Friesen e por ele combatido.

WIRTH, HERMAN (*1885, †1981) – Acadêmico völkisch da área das ciências humanas. Tinha origem holandesa e era muito popular no ambiente völkisch, mas não reconhecido pela comunidade científica acadêmica. Suas opiniões foram repudiadas e combatidas pelas ciências convencionais. Foi cofundador da Ahnenerbe, em 1935, com Himmler e Darré. Era opositor de Jacob-Friesen.

Instituições

Ahnenerbe (1935–1945) – Instituição de pesquisa da SS. Foi fundada em 1935 por Heinrich Himmler, Richard Walther Darré e Herman Wirth sob o nome de Forschungsgemeinschaft Deutsches Ahnenerbe e.V. – Studiengesellschaft für Geistesgeschichte (Fundação Alemã para o Estudo da Herança Ancestral). Fomentava estudos fortemente influenciados pelas teorias raciais nacional-socialistas e pela Pré-História völkisch, assim como pelo ocultismo de Himmler. Disputou com o Amt Rosenberg o controle da ciência da Pré-História, conseguindo conquistar a adesão da maioria dos pré-historiadores. Durante a Segunda Guerra Mundial, a instituição realizou testes letais em seres humanos. Jacob-Friesen tornou-se “membro participante” da Ahnenerbe em 1939.

← xii | xiii → Amt Rosenberg (1928 ou 1933–1945) – Designação genérica das várias funções exercidas por Alfred Rosenberg e pelas instituições controladas por ele. Dedicou-se principalmente à doutrinação ideológica, ao Gleichschaltung e ao controle da ciência no Terceiro Reich. Seu Departamento de Pré-História (e as instituições que o sucederam) foi dirigido por Hans Reinerth.

Kampfbund für Deutsche Kultur – KfdK (Liga Militante para a Cultura Alemã) (1928–1934) – Associação cultural nacional-socialista, fundada e dirigida por Alfred Rosenberg. Seus objetivos eram antimodernistas, völkisch, antissemitas e nacionalistas. Foi extinta em 1934 e incorporada à NS-Kulturgemeinde (Comunidade Cultural Nacional-Socialista). Em 1933, a KfdK contava com cerca de 38.000 membros, distribuídos em cerca de 450 repartições regionais. Em 1932, fundou-se o Departamento de Pré-História da KfdK, sob a direção de Hans Reinerth.

NSDAP (Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei) (Partido Nacional-Socialista Alemão dos Trabalhadores) (1920–1945) – Partido do nacional-socialismo alemão. Entre 1933 e 1945, foi o único partido no regime ditatorial da Alemanha.

Provinzialmuseum Hannover (Museu Provincial de Hanôver), a partir de 1933: Museu Estadual (1856 até hoje) – Originou-se do Museu de Ciência e Arte, fundado em 1856, que abrigava acervos históricos, etnográficos, arqueológicos e de ciências naturais, além de coleções de arte de sociedades culturais civis de Hanôver. Sua coleção de Pré-História era (e ainda é) uma das mais importantes da Europa. Foi palco de atuação de Jacob-Friesen como arqueólogo e, depois, como diretor entre 1913 e 1953.

Reichsbund für Deutsche Vorgeschichte (Associação Nacional de Pré-História Alemã) (1933–1945) – Originou-se da Deutsche Gesellschaft für Vorgeschichte (Sociedade Alemã de Pré-História), fundada por Kossinna em 1909. Por iniciativa de Reinerth, essa sociedade foi transformada na Reichsbund. Depois de 1933, tornou-se, sob a presidência de Reinerth e com apoio de Rosenberg, instrumento da política do (malfadado) Gleichschaltung das instituições da Pré-História da Alemanha.

← xiii | xiv → SS (Schutzstaffel) (Tropa de Proteção) (1923–1945) – Tropa paramilitar chefiada por Heinrich Himmler, fundada inicialmente como parte da SA para dar proteção aos altos dirigentes do NSDAP em comícios públicos. Tornou-se, depois de 1934, o principal instrumento de terror do regime nacional-socialista e de execução do Holocausto. Profundamente influenciada pelas doutrinas raciais nacional-socialistas, ampliou a sua atuação para diversos campos da sociedade, entre eles a Pré-História alemã. Aparentemente, não contou com a filiação de Jacob-Friesen, que, ao contrário de muitos de seus colegas, nunca assumiu qualquer ligação formal com a SS, embora tenha conseguido sua proteção em 1939.

Terminologia alemã

Völkisch (nacionalismo racial e étnico) – Ideologia e movimento político da direita nacionalista no Império Alemão e na República de Weimar, heterogêneo e fragmentado. A ideologia era profundamente antissemita, antieslávica e anticatólica, e surgiu com a adoção de visão social-darwinista simplória como estratégia de “salvação da raça germânica”. Era antimodernista e defendeu uma concepção retrógrada do passado, que glorificava a pré-história germânica romantizada como contraproposta ao presente considerado “decadente”.

Gleichschaltung (alinhamento, sincronização) – Reorganização à força e subjugação, sob o controle nacional-socialista, das instituições do Estado, da economia e da sociedade civil alemãs, tirando-lhes sua autonomia. O processo de Gleichschaltung atingiu todos os níveis da vida social, desde pequenos clubes esportivos até os Estados federados e suas prerrogativas constitucionais. No campo da Pré-História, o Gleichschaltung manifestou-se na tentativa feita pelo Amt Rosenberg e por Hans Reinerth de unir, à força, todas as associações acadêmicas da Pré-História alemã e associações leigas, ← xiv | xv → ligadas à área, sob o controle e o comando da Reichsbund für deutsche Vorgeschichte, encabeçada pelo próprio Reinerth.

Urgeschichte (História originária, História muito antiga, História mais antiga) – Ciência histórica que pesquisa, com métodos arqueológicos, o passado, principalmente o da Europa Central e do Norte, nos períodos desde o Paleolítico até a Idade de Ferro pré-romana. Seu interesse está, portanto, em um período sobre o qual quase não existem fontes escritas.

Frühgeschichte (Proto-História) – Período histórico sobre o qual (poucas) fontes escritas coexistem com fontes arqueológicas. Na Europa Central e do Norte, abrange o período da Idade de Ferro romana (Império Romano) e o período das migrações dos povos germânicos até a Idade Média Arcaica.

Ur- und Frühgeschichte – Termo usado por Jacob-Friesen e sua escola de pensamento para delimitar a sua área científica e o correspondente período histórico. Integra os dois períodos da arqueologia da Europa Central e do Norte. É traduzido no texto como Pré-História (ver capítulo 2).← xv | xvi →

← xvi | 1 → Introdução

Infelizmente, somos obrigados a constatar que a Pré-História contribuiu de forma crucial para que se forjasse a arma que custou, sem dúvida, a vida de 4,5 milhões de pessoas.1

Por duas vezes em sua vida, Karl Hermann Jacob-Friesen, pré-historiador e diretor do Museu Provincial de Hanôver, no norte da Alemanha, esteve com a corda no pescoço.

A primeira vez ocorreu entre 1933 e 1939, quando representantes poderosos do Partido Nacional-Socialista (NSDAP) o acusaram de rejeitar os dogmas desse partido a respeito da pré-história germânica e, pior, o nacional-socialismo como um todo. As acusações desdobravam-se em duas, cada qual com complicações próprias. A primeira tinha relação com as críticas feitas por Jacob-Friesen aos ensinamentos do arqueólogo nacionalista e völkisch Gustaf Kossinna, à doutrina racial nacional-socialista e aos estudos ideográficos germânicos. A segunda acusação, embora Jacob-Friesen fosse membro do NSDAP desde maio de 1933, colocava em dúvida a seriedade de suas convicções nacional-socialistas no campo político.

O segundo período difícil de sua vida chegou depois da Segunda Guerra Mundial, entre 1947 e 1948. Nessa ocasião, Jacob-Friesen encarou, perante a Comissão de Desnazificação do Distrito de Hanôver, acusações contrárias às anteriores. Ele foi acusado de ter apoiado o regime nacional-socialista com “publicações tendenciosas sobre Arqueologia”, ou seja, de ter sido cúmplice no processo de forjamento da arma ideológica do ← 1 | 2 → nacional-socialismo referida na epígrafe.2 Nas duas ocasiões, seu cargo de diretor do Museu e sua carreira profissional ficaram ameaçados.

Jacob-Friesen rechaçou veementemente todas as acusações que lhe foram imputadas, justificando sua conduta, nos dois casos, com o mesmo argumento: ele teria defendido os princípios de uma ciência pura e verdadeira contra dogmas insustentáveis. Perante o NSDAP, reafirmou sua profunda convicção e “lealdade ideológica” em relação ao nacional-socialismo. Declarou que não rejeitava a “ideia nórdica”, nem a doutrina racial nacional-socialista, nem os estudos ideográficos, nem a doutrina de Gustaf Kossinna. Segundo ele, seu intuito era tão somente proteger o cerne da ciência da Pré-História nacional-socialista – um dos pilares ideológicos do Estado nacional-socialista – contra exageros levianos e carentes de base científica, que “iam longe demais” e, portanto, expunham ao ridículo tanto a própria ciência quanto as ideias nacional-socialistas.

Dez anos mais tarde, contudo, perante a Comissão de Desnazificação, que atuava já em uma Alemanha derrotada e ocupada pelos Aliados, Jacob-Friesen apresentou-se como opositor ao regime nazista e destacou sua insurgência contra os ideólogos radicais, que chamou de “lunáticos” e “videntes”, e, sobretudo, contra Hans Reinerth e o Amt Rosenberg, defensores de uma Pré-História nacional-socialista dogmática. Jacob-Friesen atribuiu suas posturas críticas e rebeldes à sua luta em defesa de uma ciência neutra e não ideológica e a sua oposição ao regime nacional-socialista em si.3 Os questionamentos públicos dos axiomas centrais da Pré-História de orientação nacional-socialista e a oposição à política de alinhamento (Gleichschaltung) das instituições acadêmicas da Pré-História alemã ter-lhe-iam rendido calúnias, perseguições e ameaças.4 O combate que ← 2 | 3 → Jacob-Friesen travou com os “lunáticos” germanófilos (especialmente os pré-
historiadores leigos
völkisch Herman Wirth, Wilhelm Teudt e Hermann Wille), Rosenberg e seus “satélites”, e até mesmo contra Himmler, teria prejudicado profundamente sua vida profissional. Entretanto, essa luta foi, segundo Jacob-Friesen, uma contribuição essencial que prestou para impedir que o Estado nazista submetesse os estudos arqueológicos alemães à ideologia nacional-socialista:

No exterior e na Alemanha pós-1945, diziam que a comunidade científica alemã tinha se rendido aos fanáticos ideológicos. Isso não aconteceu porque homens comprometidos com a verdade levantaram reiteradamente sua voz contra os desvarios.5

Jacob-Friesen certamente se colocava entre esses “homens comprometidos com a verdade”. Ele não negou suas convicções nacionalistas conservadoras, nem antes nem depois de 1945. Porém, considerava-as compatíveis com sua ética científica positivista: “Nós, alemães, temos todo o direito de nos orgulhar da cultura de nossos antepassados, mas precisamos nos resguardar do perigo de nos perdermos em devaneios anticientíficos”.6 Esse mantra de orgulho do passado alemão, fundamentado cientificamente, marcou suas publicações mais importantes durante a República de Weimar, no período do nacional-socialismo e também no pós-guerra.

Essa combinação de patriotismo nacional-conservador e ciência “neutra”, de um lado, e a rejeição dos “devaneios” nacional-socialistas, de outro, convenceram a sociedade alemã depois da Segunda Guerra Mundial e garantiram tanto a absolvição de Jacob-Friesen quanto seu meteórico ressurgimento público e acadêmico depois de 1945. Em 1952, um ano antes de se aposentar de suas atividades no Museu Estadual de Hanôver (Landesmuseum), ele chegou a ser condecorado com a Grã-Cruz do Mérito Nacional.

A literatura especializada em história da ciência da Pré-História também salienta as divergências entre Jacob-Friesen e o regime nacional-socialista, sem, no entanto, chegar a um consenso sobre a sua atuação e a ← 3 | 4 → sua pessoa. Bettina Arnold inclui Jacob-Friesen, com Ernst Wahle e Carl Schuchhardt, no grupo dos chamados “opositores cautelosos” ao regime. Embora não concordassem com certas políticas acadêmicas, esses “opositores cautelosos” não teriam perdido seus empregos.7 Reinhard Bollmus, por sua vez, em seu trabalho pioneiro sobre o conglomerado institucional que agia sob o comando de Alfred Rosenberg, o chamado Amt Rosenberg, referiu-se ao risco pessoal que Jacob-Friesen correu em decorrência de suas brigas com o regime.8 Marion Bertram apresenta-o de forma semelhante, pois, para ela, Jacob-Friesen foi realmente alvo dos ataques de Reinerth e Rosenberg e vítima da política de alinhamento (Gleichschaltung). Bertram, contudo, não enxergou, nos confrontos entre Jacob-Friesen e Reinerth, uma oposição aberta do arqueólogo contra o regime.9

O próprio filho de Jacob-Friesen, Gernot, que, como o pai, seguiu a carreira de pré-historiador na Universidade de Göttingen, valorizou ainda mais a oposição de Jacob-Friesen, afirmando que o pai realmente tinha sido ameaçado pelo regime e enfrentava ameaças a sua integridade física e a sua carreira.10 Günter Wegner, um dos sucessores de Jacob-Friesen como diretor do Departamento de Pré e Proto-História do Museu Estadual em Hanôver nos anos 1990, salientou que, devido à defesa que fazia dos princípios científicos, Jacob-Friesen, embora nacional-socialista convicto, teria entrado em choque com Hans Reinerth, designado por Rosenberg para fazer o controle nacional-socialista das instituições da Pré-História. ← 4 | 5 → Wegner concluiu seu ensaio sobre as divergências entre Jacob-Friesen e Reinerth com uma citação de seu antecessor:

E a quem perguntasse como a visão atual sobre a cultura antiga se diferenciava daquela da época do nacional-socialismo, [Jacob-Friesen] respondia sem rodeios: ‘Aqui se contrapõem radicalmente ideologia e ciência’. Essa era, efetivamente, a diferença entre um Hans Reinerth e um Karl Hermann Jacob-Friesen.11

Uma segunda categoria de trabalhos, voltada especificamente para a história das ideias, dos métodos e da teoria da Pré-História na Alemanha, também enfatiza a abordagem crítica e inovadora de Jacob-Friesen na sua principal obra, o seu manual sobre Pré-História, publicado em 1928.12 O ceticismo do autor em relação aos paradigmas völkisch, demonstrado com prodigalidade nessa publicação dos anos 1920, viria a lançá-lo, na década seguinte, no lado oposto às doutrinas “oficiais” do Partido Nacional-Socialista referentes à ciência da Pré-História na Alemanha.13

← 5 | 6 → Apenas algumas vozes isoladas se distanciaram dessa imagem de Jacob-Friesen como cientista em oposição ao nacional-socialismo. Em um minucioso ensaio publicado em 2005, Kirsten Hoffmann avaliou criticamente o papel do arqueólogo Jacob-Friesen e do Departamento de Pré e Proto-História do Museu Estadual na época do nacional-socialismo. Ela caracterizou o discurso adotado por Jacob-Friesen no período pós-guerra – segundo o qual ele havia defendido uma ciência neutra e apolítica contra os dogmas do nacional-socialismo – como um grande “mito”, que tinha servido para encobrir o empenho desse arqueólogo em prol do regime nazista. Segundo Hoffmann, o confronto com os pré-historiadores leigos völkisch e com Hans Reinerth não teria Jacob-Friesen impedido de “colaborar ativa e voluntariamente para a ideologia nacional-socialista”.14

Opositor ou colaborador: qual era a verdadeira face do arqueólogo durante a ditadura nacional-socialista? Esta obra pretende mostrar que nenhuma dessas duas caracterizações procede integralmente, em razão da complexidade da personalidade do protagonista, de seu, por vezes, contraditório legado dos tempos da República de Weimar e de sua leitura individual da ideologia nacional-socialista, especialmente no campo da Pré-História. Na vida de Jacob-Friesen nem sempre “se contrapunha ideologia à ciência”, como ele próprio alegava, pois sua atuação durante o regime nacional-socialista visava unir “ciência pura”, de um lado, e “ideologia” nacional-socialista, de outro, mesmo quando isso implicava vencer resistências e oposições ferrenhas. Já nos anos 1920, nos tempos da democracia da República de Weimar, abriu-se um abismo entre as convicções políticas ← 6 | 7 → reacionárias de Jacob-Friesen e sua postura científica: ele não conseguiu compatibilizar muito bem esses seus dois lados. O fim da República de Weimar, que Jacob-Friesen quis difamar chamando-a de “governo marxista”, e a festejada tomada do poder pelos nacional-socialistas não deram fim a esse desencontro entre política e ciência manifestado em sua pessoa, pois o novo regime privilegiava, no âmbito da ciência arqueológica, autores e opiniões contrários à sua visão científica.

Afastando-se da corrente historiográfica vigente e da estratégia de defesa de Jacob-Friesen após 1945, focada em sua resistência ao nacional-socialismo, este livro parte da ideia de uma concomitância entre oposição e adesão ao regime. No entanto, oposição e adesão não se contradizem na identidade do protagonista. O que colocou Jacob-Friesen em rota de colisão com o Amt Rosenberg e os cientistas leigos völkisch foi a sua luta por algo que defendia como uma ciência arqueológica nacional-socialista séria. Para ele, não havia oposição entre o nacional-socialismo e uma ciência racional e empírica.

Na prática, contudo, sua defesa da “ciência séria” tinha limites autoimpostos que refletiam seu profundo alinhamento com o projeto político do regime. De um lado, Jacob-Friesen insistia no exercício de uma “ciência pura” e sem dogmas; de outro, traía esses seus princípios, pois adaptou, de maneira sutil, mas eficaz, seu trabalho acadêmico às diretrizes ideológicas do regime. Ao longo da década de 1930, seu trabalho científico foi se aproximando à Pré-História ideologizada do nacional-socialismo, especialmente quanto à linguagem empregada e ao uso de conceitos-chaves carregados de apelo político-emocional. Após 1945, Jacob-Friesen negou essa adesão aos conceitos, aos axiomas e à linguagem nacional-socialistas e, assim como a maioria dos historiadores alemães da época, “abriu mão do gesto de recomeço”.15 Pelo contrário, ele alegou que sua oposição a Reinerth e aos pré-historiadores völkisch antes de 1945 teria fundamentado uma tradição acadêmica de uma ← 7 | 8 → Pré-História mais “técnica” e isenta de ideologia que, depois da Segunda Guerra Mundial, se tornou dominante.

Apesar dessa acomodação ao regime nacional-socialista, o outro lado da complexa vida de Jacob-Friesen durante os anos 1930, representado por polêmicas em torno da sua pessoa, é relevante. Porém, esses antagonismos e lutas eram imanentes ao sistema, inerentes ao processo de formação do Estado nacional-socialista. Em determinados momentos, essas brigas até implicavam certo risco, pelo menos à carreira profissional do arqueólogo, algo que ele mesmo, por um longo tempo, não quis ver nem admitir em razão de sua simpatia política pelo regime.16

No entanto, a oposição de Jacob-Friesen a Reinerth e aos pré-historiadores völkisch não era motivada por uma postura antinacional-socialista. Como não existia uma versão nacional-socialista monolítica, concreta e detalhada da Pré-História, a generalização dos grandes dogmas interpretativos e a competição policrática entre instituições como o Amt Rosenberg e a Ahnenerbe, abriram muitas possibilidades de disputa acerca do que constituiria essa Pré-História forjada para acomodar os interesses do novo regime e suas ideologias. As objeções de Jacob-Friesen e sua oposição a alguns altos representantes do regime nacional-socialista não se afastaram do consenso sobre a legitimidade do regime nem questionaram as suas políticas. Ao contrário, essas brigas fizeram parte do nacional-socialismo – “eram o nacional-socialismo”, como diria Hans Mommsen.17

Mas a atuação de Jacob-Friesen foi além de buscar a harmonização da Pré-História acadêmica com a ideologia nacional-socialista. Ele aderiu, ← 8 | 9 → conscientemente, a diretrizes ideológicas, abandonou a postura de acadêmico antivölkisch radical, que tinha assumido nos anos 1920, e converteu-se, com gestos e palavras, em um colaborador ideológico do regime. Dessa forma, contribuiu com o projeto ideológico do nacional-socialismo direta e voluntariamente, apesar dos diversos confrontos que teve com representantes do Partido.

Na década de 1930, e também após a Segunda Guerra Mundial, Jacob-Friesen foi um dos especialistas mais proeminentes da Pré-História da Alemanha e o mais importante representante dessa área na Baixa Saxônia, tanto como cientista, professor universitário e escritor quanto como diretor e curador de museu. Embora ele trabalhasse também como arqueólogo prático e escavador especializado de sítios paleolíticos e de outros monumentos arqueológicos, esse lado de sua atividade profissional foi menos marcante.18 Em compensação, a educação de adultos na área de arqueologia na Baixa Saxônia, ou seja, a formação de arqueólogos leigos ocupou lugar de destaque entre as suas atividades profissionais.

Filho de professor de educação secundária, Jacob-Friesen nasceu em 1886, em Reudnitz, perto de Leipzig, no leste da Alemanha. Na época, seu nome de família limitava-se ao simples “Jacob”, mas, em 1921, o arqueólogo acrescentou-lhe o “Friesen” para que fosse “mais fácil distingui-lo entre os outros inúmeros portadores do mesmo nome [Jacob]”, conforme observou seu biógrafo Peter Zylmann.19

← 9 | 10 → Desde cedo, Jacob-Friesen interessou-se pela Pré-História e, ainda bem jovem, fez contato com o Museu Etnológico de Leipzig, que, sob o comando do diretor Karl Weule, dispunha de grande acervo arqueológico. Jacob-Friesen estudou Geologia, Geografia, Etnologia e História em Leipzig, sob a orientação de vários professores, entre eles o geógrafo Joseph Partsch, o historiador Karl Lamprecht e o etnólogo Karl Weule. Ele também passou uma temporada estudando nas universidades de Kiel e de Estocolmo. Doutorou-se, em 1909, com tese intitulada “Sobre a Pré-História do Noroeste da Saxônia” e, em 1910, ocupou a posição de assistente no Museu Etnológico de Leipzig (Grassimuseum). Em 1913, tornou-se Assistente da Direção no Museu Provincial de Hanôver. Ali assumiu, em 1917, a diretoria do Departamento de Pré e Proto-História e Etnologia, e, em 1924, passou a ocupar também o cargo de Primeiro-Diretor do museu, posto que manteve até sua aposentadoria, em 1951. Em 1929, começou a lecionar na Universidade de Göttingen, onde iniciou uma carreira acadêmica paralela e fundou a Faculdade de Pré e Proto-História, única até hoje na Baixa Saxônia. Em 1936, foi nomeado professor (persönlicher Ordinarius) em Göttingen e, em 1939, pouco antes da eclosão da Segunda Guerra Mundial, ← 10 | 11 → promovido ao cargo de diretor do Departamento de Pré-História dessa universidade. Embora a disciplina da Pré-História tivesse se expandido enormemente durante o domínio nacional-socialista desde 1933, não foi criada uma cátedra em Pré-História na Universidade de Göttingen, o que impediu a nomeação de Jacob-Friesen como professor titular (etatmäßiger Ordinarius), cargo pelo qual vinha lutando desde 1934.20

Além de diretor de museu, arqueólogo e professor universitário, Jacob-Friesen atuou, nos anos 1930, como editor, educador de adultos e, após a sua nomeação para a Câmara Municipal de Hanôver, em 1936, como político. Participou ativamente de diversas associações científicas e políticas, não ← 11 | 12 → raro como presidente.21 Os governos Municipal e Provincial e o Ministério da Educação do Reich designaram-no ocupante de outros cargos importantes, como o de Arqueólogo Estadual e de Curador de Museus da Província de Hanôver. Devido à grande pressão que sofreu por parte de Hans Reinerth, do Amt Rosenberg e de representantes locais do NSDAP, teve que renunciar a algumas dessas posições de relevância política: as presidências da Arbeitsgemeinschaft für Niedersachsens Urgeschichte (Associação para a Pré-História da Baixa Saxônia), da Berufsvereinigung Deutscher Prähistoriker (Associação Profissional dos Pré-Historiadores Alemães) e da Nordwestdeutscher Verband für Altertumsforschung (Associação de Estudos Arqueológicos do Noroeste da Alemanha). A partir de 1940, Jacob-Friesen participou da Segunda Guerra Mundial, primeiro como capitão-tenente e, mais tarde, como capitão de corveta, sem, no entanto, perder contato com o Museu e seus colegas. Com o fim da guerra, ele voltou a exercer as suas funções, tanto no Museu quanto na Universidade de Göttingen.

← 12 | 13 → Jacob-Friesen foi, em certos aspectos, um típico representante de sua área científica durante o período nacional-socialista e, antes, na República de Weimar; porém, em outros aspectos, foi excepcional se comparado a seus colegas. Nos anos 1920, projetou-se como um dos mais conceituados arqueólogos liberais e antivölkisch, assumindo, assim, um marcante dissenso em relação à maioria conservadora dos seus colegas. No que concerne a sua postura durante o nacional-socialismo, ele não se insere perfeitamente em uma das três categorias que Arnold sugeriu para a classificação dos arqueólogos: não era militante radical (party-liner), nem simpatizante, nem opositor.22 Era um pouco de tudo. Nos anos 1930, sua carreira foi marcada por uma extraordinária simultaneidade de atos que mostram tanto sua concordância quanto sua discordância com certos aspectos do novo regime. Entretanto, a aproximação ao ideário nacional-socialista, por convicção, predominou na sua trajetória durante o regime nacional-socialista, e nisso ele se assemelha à maioria dos seus colegas. Por outro lado, a ferocidade com a qual ele lutou contra a Pré-História dos leigos völkisch e contra a política de alinhamento institucional, encabeçada por Reinerth e Rosenberg, foi de fato excepcional.

Entretanto, o relato da vida de Jacob-Friesen não será o foco exclusivo desta obra. A biografia do protagonista serve como fundamento e ponto de referência para a história das ideias da área científica na qual Jacob-Friesen atuou, principalmente no que concerne aos anos 1930 e ao polêmico debate sobre a relação entre a Pré-História e o nacional-socialismo. Por isso, não é apresentada uma mera biografia, mas um estudo em que o método biográfico é empregado como recurso para a reconstrução e interpretação da história científica e política. Tomando como ponto de partida a pessoa de Jacob-Friesen, sua atuação profissional, suas ideias e suas publicações científicas, analisam-se a história da ciência da Pré-História na Alemanha e a sua relação com a sociedade e com a política alemã a partir do século XIX. O enfoque recai sobre o período do nacional-socialismo, quando a Pré-História passou a ser considerada uma das principais “ciências ideológicas” do regime.

← 13 | 14 → Este livro conjuga perspectivas tanto temáticas quanto cronológicas. Depois de introduzir o debate historiográfico sobre Pré-História e nacional-socialismo no capítulo 1, é explicado o surgimento da Pré-História como ciência no século XIX e a sua convergência com os axiomas do pensamento völkisch, uma espécie de nacionalismo radical, étnico e antimoderno, na Alemanha. A oposição de Jacob-Friesen a essa Pré-História nacionalista e aos dogmas dos principais representantes do pensamento völkisch é documentada no capítulo 3. Em seguida, é analisada a utilização, pelo Estado nacional-socialista, dos paradigmas da Pré-História völkisch na construção de uma legitimidade ideológica, com base na imagem de um passado germânico heroico. Os dois capítulos seguintes focalizam os conflitos que Jacob-Friesen travou com representantes poderosos do regime nacional-socialista: os pré-historiadores leigos de orientação völkisch e os idealizadores da política de alinhamento institucional (Gleichschaltung), liderada pelo Amt Rosenberg e pelo arqueólogo Hans Reinerth. O capítulo 7 mostra a outra face do arqueólogo protagonista durante o Terceiro Reich: sua acomodação em termos de conduta e linguagem e sua específica contribuição ao projeto ideológico do nacional-socialismo. As Conclusões interpretam e contextualizam essa dualidade da postura do protagonista no regime nacional-socialista.

__________

1 Johannes Diderik van der Waals, 1969 apud Pape, Wolfgang. Ur- und Frühgeschichte. In: Hausmann, Frank-Rutger (Org.). Die Rolle der Geisteswissenschaften im Dritten Reich 1933–1945. München: Oldenbourg, 2002. p. 329.

2 Nds. 171 Hannover, 11302. Jacob-Friesen (Entnazifizierungsakte). Notice of Removal. 11.3.1947. Stellungname des Entnazifizierungsausschusses. 25.4.1947. Dr. Nonne (Öffentlicher Kläger, Entnazifizierungssonderausschuss für den Regierungsbezirk Hannover), Gutachten 31.3.1948.

3 Nds. 171 Hannover, 11302. Jacob-Friesen para Entnazifizierungsausschuss, 24.3.1947 (Widerspruch gegen Entlassung).

4 Nds. 171 Hannover, 11302. Jacob-Friesen para Entnazifizierungsausschuss, 24.3.1947 (Widerspruch gegen Entlassung), pp. 1–5. Jacob-Friesen foi classificado no processo de desnazificação como “sem culpa” no grup. 5.

5 Jacob-Friesen, K. H. Wissenschaft und Weltanschauung in der Urgeschichtsforschung. In: Die Kunde, N.F., 1–2, 1950, p. 2.

6 Ibid., p. 5.

7 Arnold, Bettina. The past as propaganda: totalitarian archaeology in Nazi Germany. Antiquity, v. 64, n. 244, pp. 464–478, 1990.

8 Bollmus, Reinhard. Das Amt Rosenberg und seine Gegner. 2. ed. München: Oldenbourg, 2006.

9 Bertram, Marion. Zur Situation der deutschen Ur- und Frühgeschichtsforschung während der Zeit der faschistischen Diktatur. Staatliche Museen Berlin, Forschungen und Berichte, n. 31, pp. 23–42, 1991. Esse trabalho foi elaborado como dissertação de mestrado, ainda na antiga República Democrática Alemã antes de 1989, mas publicado somente após a Queda do Muro.

10 Jacob-Friesen, Gernot. Der Niedersächsische Landesverein für Urgeschichte und “Die Kunde” – Voraussetzungen, Gefährdungen, Erfolge. Die Kunde, v. 58, pp. 23–34, 2007.

11 Wegner, Günter. Auf vielen und zwischen manchen Stühlen: Bemerkungen zu den Auseinandersetzungen zwischen Karl Hermann Jacob-Friesen und Hans Reinerth. In: Leube, Achim (Org.). Prähistorie und Nationalsozialismus: Die mittel- und osteuropäische Ur- und Frühgeschichtsforschung in den Jahren 1933–1945. Heidelberg: Synchron, 2002. pp. 397–417. Günter Wegner especializou-se, nas suas pesquisas e publicações, no estudo da história da ciência da Pré-História e suas instituições na Baixa Saxônia. Ver também Henning Hassmann, que inclui Jacob-Friesen entre os poucos críticos (“few critical voices”) que teriam lutado, em nome da ciência, contra germanomaníacos do tipo Herman Wirth. Hassmann, Henning. Archaeology in the “Third Reich”. In: Härke, Heinrich (Org.). Archaeology, ideology and society: the German experience. Frankfurt a. Main: Peter Lang, 2000. p. 117.

12 Jacob-Friesen, K. H. Grundfragen der Urgeschichtsforschung. Stand und Kritik der Forschung über Rassen, Völker und Kulturen in urgeschichtlicher Zeit. Hannover: Helwing, 1928. (Festschrift zur Feier des 75jähr. Bestehens des Provinzial-Museums).

13 Biehl, Peter F. et al. (Org.). Archäologien Europas: Geschichte, Methoden und Theorien. Münster und New York: Waxmann, 2002. pp. 204–205. Steuer, Heiko. Deutsche Prähistoriker zwischen 1900 und 1995 – Begründung und Zielsetzung des Arbeitsgesprächs. In: ——. (Org.). Eine hervorragende nationale Wissenschaft: Deutsche Prähistoriker zwischen 1900 und 1995. Berlin und New York: Walter de Gruyter, 2001. pp. 1–54. (Ergänzungsbände zum Reallexikon der Germanischen Altertumskunde, Bd. 29). Siegmund, Frank. Alemannen und Franken: Archäologische Studie zu Ethnien und ihren Siedlungsräumen in der Merowingerzeit. Berlin und New York: Walter de Gruyter, 2000. p. 60. ((Ergänzungsbände zum Reallexikon der Germanischen Altertumskunde, 23). Kossack, Georg. Prähistorische Archäologie in Deutschland im Wandel der geistigen und politischen Situation. In: Bayerische Akademie der Wissenschaften. Sitzungsberichte, 4, München, 1999. p. 52. Jones, Siân. The archaeology of ethinicity. London and New York: Routledge, 1997.

14 Hoffmann, Kirsten. Ur- und Frühgeschichte – eine unpolitische Wissenschaft?: Die urgeschichtliche Abteilung des Landesmuseums Hannover in der NS-Zeit. Nachrichten aus Niedersachsens Urgeschichte, Bd. 74, 2005. p. 246. Esse longo artigo representa o resumo de uma dissertação de mestrado defendida no Departamento de História da Universidade de Hanôver.

15 Schulze, Winfried; Helm, Gerd; Ott, Thomas. Deutsche Historiker im National­sozialismus: Beobachtungen und Überlegungen zu einer Debatte. In: Schulze, Winfried; Oexle, Otto Gerhard (Org.). Deutsche Historiker im Nationalsozialismus. Frankfurt: Fischer, 1999, pp. 11–48.

16 Depois de 1933, Jacob-Friesen perdeu alguns dos seus (muitos) cargos na administração pública e nas instituições acadêmicas. Segundo as memórias do ex-Diretor Provincial Georg Grabenhorst, Jacob-Friesen foi também expulso do seu apartamento funcional, que, em seguida, foi ocupado pelo Encarregado pela Cultura do Distrito do NSDAP (Gaukulturwart) e também Diretor Financeiro da Província. Grabenhorst, Georg. Wege und Umwege. Hanôver: August Lax, 1979, v. 1, p. 266. Ver também: Nds. 171 Hannover 11302, Jacob-Friesen para Entnazifizierungshauptausschuss, 24.3.1947.

17 Hans Mommsen, citado em: Schulze, Winfried; Helm, Gerd; Ott, Thomas. Deutsche Historiker im Nationalsozialismus: Beobachtungen und Überlegungen zu einer Debatte. In: Schulze, Winfried; Oexle, Otto Gerhard (Org.). Deutsche Historiker im Nationalsozialismus. Frankfurt: Fischer, 1999. p. 12.

18 As suas escavações arqueológicas mais importantes foram realizadas no vale do Rio Leine (sítios paleolíticos), na assim chamada Einhornhöhle (Caverna do Unicórnio), perto de Scharzfelde (Osterode), nas fortificações de terra no Monte Gehrden (Gehrdener Berg), próximo à cidade de Hanôver, no túmulo megalítico perto de Kleinenkneten e em colinas habitadas (Warften) no litoral da Alemanha do Norte.

19 Zylmann, Peter. Karl Hermann Jacob-Friesen. Leben und Werk. In: Zylmann, Peter (Org.). Zur Ur- und Frühgeschichte Nordwestdeutschlands: Neue Untersuchungen aus dem Gebiete zwischen Ijssel und Ostsee. Hildesheim: Lax, 1956. p. 1. Porém, é óbvio que o “Friesen” foi acrescentado ao nome para eliminar a conotação judaica do nome de nascimento. Em 1921, Jacob-Friesen publicou também dois artigos profundamente antissemitas, sobre a área de pesquisa ancestral, demonstrando sua familiaridade com o significado popular do seu nome. Nos anos 1930, alguns dos seus adversários völkisch na Ahnenerbe questionaram publicamente a legalidade dessa mudança de nome e insistiram em chamá-lo pelo simples nome de Jacob. Ver: (BA) R4901/24838, K. Th. Weigel. Aktenvermerk 10.12.1936. O arqueólogo Peter Zylmann fazia parte da rede de contatos entre colegas de Jacob-Friesen no norte da Alemanha. Ele era o autor de um livro sobre a Pré-História da Frísia Oriental (“Urgeschichte Ostfrieslands”). Sobre a pessoa desse antigo membro do Partido Social-Democrata da Alemanha e sua perseguição e degradação profissional pelo nacional-socialismo, ver: <http://www.ostfriesischelandschaft.de/fileadmin/user_upload/BIBLIOTHEK/BLO/Zylmann.pdf>. Apesar dessa degradação para um professor secundário simples e sua detenção pelo regime, Zylmann tentou se aproximar do novo Estado. Depois de 1933, ele foi aceito no âmbito da Kampfbund für Deutsche Kultur e da Associação Nacional-Socialista de Professores Escolares (Hann 152 Acc. 53/84, Nr. 65). Segundo o próprio Jacob-Friesen, Zylmann se tornou membro do NSDAP no final dos anos 1930. (Hann 152 Acc. 53/84, Nr. 2, Jacob-Friesen para Michaelsen, 23.6.1939). Jacob-Friesen manteve contato com o arqueólogo social-democrata mesmo nos anos em que este foi perseguido pelo nacional-socialismo, fato que Zylmann destaca no seu parecer a favor de Jacob-Friesen no processo de desnazificação depois da Segunda Guerra Mundial (Nds. 171, 11302).

20 Dahms, Hans-Joachim. Einleitung. In: Becker, Heinrich, Dahms Hans-Joachim, Wegeler, Cornelia. Die Universität Göttingen unter dem Nationalsozialismus. München: K.G. Saur, 1998. p. 52. Dahms, nessa obra basilar sobre a história da Universidade de Göttingen durante o nacional-socialismo, atribui a falta de investimento na Pré-História nessa universidade à escassez de recursos financeiros: “a conversão dessa posição, exercida por Jacob-Friesen, de professor temporário (Lehrauftrag) para professor titular, mostrou-se, apesar de várias tentativas, inviável, por razões financeiras. Por isso, a Ciência do Folclore Alemão (Volkskunde) permaneceu a única das disciplinas de relevância ideológica a conseguir se fortalecer com uma cadeira de professor titular na Universidade de Göttingen” (ibid, p. 52). Porém, Hans Plischke, ex-colega de Jacob-Friesen nos tempos de estudante na Universidade de Leipzig, que também tinha Karl Weule como orientador de doutorado e que foi, entre 1934 e 1935, decano da Faculdade Filosófica e, entre 1941 e 1943, reitor da Universidade de Göttingen, atribuiu, depois da guerra, o fracasso da promoção de Jacob-Friesen às intervenções de Hans Reinerth e de várias instâncias do NSDAP. Segundo Plischke, Reinerth teria não apenas inibido a promoção de Jacob-Friesen, por meio da sua influência nas repartições do partido, mas também pressionado pela demissão do arqueólogo da sua posição de professor. A resistência da faculdade teria impedido essa demissão. Nds. 171 Hannover, 11302. Jacob-Friesen para Entnazifizierungsausschuss, 24.3.1947 (Widerspruch gegen Entlassung), Anlage 12: Stellungnahme von Prof. Dr. Hans Plischke, 19.3.1947. Durante os anos 1930, Jacob-Friesen e Plischke cooperavam regularmente, em particular na realização de exposições etnológicas no Museu em Hanôver. Essa cooperação em Göttingen e Hanôver incluiu alguns alunos e doutorandos de Plischke. Sobre a carreira de Plischke durante o nacional-socialismo, ver: Kulick-Aldag, Renate. Die Göttinger Völkerkunde und der Nationalsozialismus zwischen 1925 und 1950. Münster: Lit, 2000.

21 Jacob-Friesen foi fundador e presidente da Arbeitsgemeinschaft für Niedersachsens Urgeschichte (Associação para a Pré-História da Baixa Saxônia), entre 1932–1934; editor da revista Die KundeMitteilungsblatt der Arbeitsgemeinschaft; presidente da Berufsvereinigung Deutscher Prähistoriker (Associação Profissional dos Pré-Historiadores Alemães) até 4 de setembro de 1933; presidente, como sucessor do famoso Carl Schuchhardt, da Nordwestdeutschen Verband für Altertumsforschung (Associação de Estudos Arqueológicos do Noroeste da Alemanha), de 1934 até 30 de setembro de 1935; cofundador da Niedersächsische Landesstelle für Marschen- und Wurtenforschung (uma instituição estadual de pesquisas sobre morros habitados e pântanos salgados no litoral do Norte da Alemanha), em 1938; presidente da Deutscher Museumsbund (Associação dos Museus da Alemanha) e editor da sua revista Museumskunde, de 1932 provavelmente até 1939; presidente da Museumsbund der Provinz Hannover (Associação dos Museus da Alemanha – Repartição da Província de Hanôver); membro da diretoria do Römisch-Germanisches Zentralmuseum em Mogúncia; presidente da Geographische Gesellschaft zu Hannover (Associação Geográfica de Hanôver); vice-presidente da Historischer Verein für Niedersachsen (Associação pela História da Baixa Saxônia); membro da Academia das Ciências de Göttingen (a partir de 1940) e membro da Deutsche Akademie der Naturforscher Leopoldina de Halle (Academia Alemã de Pesquisadores das Ciências Naturais Leopoldina), a partir de 1944.

22 Arnold, Bettina. The Past as Propaganda, op. cit.

← 14 | 15 → CAPÍTULO 1

Nacional-socialismo e Pré-História: Perspectivas historiográficas

A Pré-História (Ur- und Frühgeschichte) é uma área de conhecimento que tem como objeto a análise e explicação científica do passado pré-histórico, principalmente dos períodos das Idades da Pedra e do Bronze e da Época do Ferro pré-romana e romana, na região da Europa Central e do Norte. Essa disciplina histórica trabalha, primariamente, com fontes e métodos arqueológicos. O passado “germânico” da região da Europa do Norte e do futuro território alemão era (e ainda é) um dos seus principais objetos e períodos de pesquisa.

Durante o regime nacional-socialista, a Pré-História assumiu papel de grande relevância na construção da imagem nacional-socialista do passado e foi tratada como “ciência de relevância ideológica” (Weltanschauungswissenschaft), recebendo bajulação e apoio institucional extraordinário, negados à maioria das outras áreas acadêmicas. Ao lado das demais ciências explicitamente ideológicas (a Ciência Racial – Rassenkunde –, a Ciência do Folclore Alemã – Volkskunde – e os Estudos Ideográficos – Sinnbildforschung), a Pré-História deveria ensinar, conforme publicação de 1938,

ao povo [Volkstum] contemporâneo, os valores próprios a sua espécie [arteigen] e fazer renascer o verde nos velhos ramos da árvore da raça alemã, como parte da renovação cultural realizada pelo nacional-socialismo. […] A ideia fundamental [dessa renovação] é mostrar a grandeza e a autonomia cultural dos germanos.1

← 15 | 16 → Considerando esse papel ideológico chave durante o nacional-socialismo, a trajetória da ciência da Pré-História na Alemanha depois da ditadura nazista surpreende profundamente. Apesar da valorização institucional dessa área pelo Estado nacional-socialista, isto é, apesar de o “passado germânico” ter sido glorificado como modelo legitimador do regime, os representantes dessa área conseguiram, depois de 1945, assegurar uma excepcional continuidade na disciplina e evitar, até bem pouco tempo atrás, a revisão crítica dos rumos tomados durante a ditadura nazista. Com poucas exceções, a Pré-História e seus representantes profissionais se reinseriram facilmente na Alemanha pós-guerra e agiram como se não tivessem nenhuma relação com a catástrofe nacional-socialista. Para que essa espécie de amnésia coletiva fosse possível, a contribuição de Jacob-Friesen foi significante, e um dos propósitos deste livro é mostrar de que forma isso se deu.

A reflexão crítica acerca do envolvimento da Pré-História com o regime nacional-socialista demorou a acontecer. O primeiro – e, por muito tempo, único – evento que pode ser considerado um ensaio de “acerto de contas” da Pré-História com relação ao seu passado ocorreu em 1949, durante um congresso da Associação Alemã de Estudos Arqueológicos das Regiões Oeste e Sul. Os arqueólogos então reunidos condenaram veementemente as ações do antigo diretor da Associação Nacional da Pré-História Alemã (Reichsbund für Deutsche Vorgeschichte) e do Departamento de Pré-História no Amt Rosenberg, Hans Reinerth, que teria “abusado do bom nome da disciplina e prejudicado a reputação da Alemanha no exterior”.2 Essa acusação funcionou como uma espécie de exorcismo público e apresenta certas semelhanças com a atribuição da responsabilidade por tudo ligado ao nacional-socialismo a alguns poucos atores: Adolf Hitler e seus colaboradores mais próximos no Partido e na SS. Assim, o ideólogo Hans Reinerth, do Amt Rosenberg, foi transformado no bode expiatório da Pré-História, a qual ficou, portanto, isenta de qualquer responsabilidade e logrou até mesmo ← 16 | 17 → apresentar as muitas facetas de sua colaboração com instituições nacional-socialistas como atos de resistência aos “niveladores germanófilos” representados por Rosenberg e Reinerth.3

Essa equiparação entre Rosenberg e Reinerth, de um lado, e a Pré-História de orientação nacional-socialista, de outro, e a consequente absolvição da maioria dos outros cientistas tiveram dupla serventia: alicerçaram a continuidade na disciplina depois de 1945 e impediram, até recentemente, uma discussão fundamental do papel da Pré-História durante o período nacional-socialista. A época do nacional-socialismo foi simplesmente ignorada e ficou encoberta pelo silêncio, principalmente nas publicações divulgadas entre 1945 e o final dos anos 1960.4 Georg Kossack, por exemplo, na sua obra sobre a história dessa ciência, alega que não houve politização e ideologização significante da Pré-História na era nacional-socialista, “devido à sobriedade dos cientistas mais velhos, dignos e conservadores”.5 Porém, mais recentemente, essas visões suavizadoras do passado da ciência receberam críticas severas. Pape, por exemplo, denuncia o silêncio acerca do período nacional-socialista como uma “amnésia coletiva”.6 Já Hassmann cita Ralph Giordano, para quem o esquecimento da primeira culpa, ou seja, o esquecimento dos crimes do nacional-socialismo, constitui uma “segunda culpa alemã”.7

← 17 | 18 → O primeiro impulso sistemático na direção de uma revisão crítica da trajetória da Pré-História como disciplina acadêmica aconteceu no início dos anos 1970, com a publicação de duas obras seminais sobre o Amt Rosenberg e a Ahnenerbe.8 Ambos os trabalhos ressaltam o caráter policrático do regime nacional-socialista e seu consequente “caos institucional”. No campo da Pré-História, a principal concorrência institucional por controle se deu entre, de um lado, Alfred Rosenberg (o Encarregado do Führer para o Controle da Formação e Educação Intelectual e Ideológica do NSDAP) e o seu conglomerado de poder (o Amt Rosenberg) e, de outro, Heinrich Himmler, sua SSe a Ahnenerbe. As muitas tentativas de Rosenberg e Reinerth de ganhar controle sobre a Pré-História e suas instituições durante os anos 1930 e de alinhar a pesquisa arqueológica aos dogmas ditados pelo pré-historiador völkisch Gustaf Kossinna caíram no vazio, devido, em grande medida, às alternativas oferecidas aos cientistas pela SS Ahnenerbe. Os trabalhos de Reinhard Bollmus e Michael Kater, escritos sob a perspectiva da história de cada uma das instituições em questão, mostram que não houve um vencedor definitivo dessa luta. Todavia, a Ahnenerbe levou a melhor nos últimos anos do regime nacional-socialista, fato claramente demonstrado pela expulsão de Reinerth do NSDAP em fevereiro de 1945. Como explica Kater: “Reinerth acabou perdendo a batalha, o que não significa que a Ahnenerbe tenha vencido a guerra”.9

O conflito dentro do NSDAP a respeito do controle da Pré-História, do qual também participou o Ministério da Educação, então dirigido por Bernhard Rust, representa um exemplo clássico da concorrência policrática, típica do Estado nacional-socialista no âmbito das ciências. Esse “jogo complexo envolvendo vários agentes rivais” abriu espaços para a liberdade dos cientistas, possibilitando que estes agissem seguindo seus interesses individuais e por iniciativa própria.10 As obras de Bollmus e Kater ← 18 | 19 → mencionadas acima não tinham como foco analítico a Pré-História em si e as suas muitas e estreitas ligações com o nacional-socialismo, mas as duas instituições nacional-socialistas: a Ahnenerbe e o Amt Rosenberg.As ideias discutidas pelos autores levaram a certo reavivamento da noção de uma dicotomia na ciência arqueológica, que tinha sido inventada nos anos pós-Segunda Guerra Mundial e que colocava o dogmático e germanófilo Amt Rosenberg em um polo e a Ahnenerbe, entidade supostamente fomentadora de pesquisas objetivas e neutras, em outro. A pesquisadora Marion Bertram segue o mesmo raciocínio, quando alega que a Ahnenerbe era, aparentemente, o “mal menor”: “Parece extremamente paradoxal que justamente a SS Ahnenerbe, liderada por um dos maiores criminosos nazistas [Heinrich Himmler], tenha oferecido a muitos arqueólogos a proteção e a possibilidade de continuarem suas pesquisas […]”.11

Mesmo nas publicações mais recentes, é possível encontrar sinais de mistificação do papel da Ahnenerbe durante o nacional-socialismo, como demonstra Wolfgang Pape:

E assim estabeleceu-se uma linha de argumentação, começando com Joachim Werner (1945/6) e seguindo, via Helmut Heiber (1966) […], para Reinhard Bollmus (1970) ← 19 | 20 → e Michael H. Kater (1974), que aceitou, de forma bastante acrítica, a autoimagem e as estratégias de defesa dos próprios pré-historiadores. [Essa apresentação do passado da ciência] atribui a culpa a poucos e absolve os arqueólogos em geral.12

A noção de dicotomia e dualismo entre o Amt Rosenberg e a Ahnenerbe e o enfoque no conflito entre essas duas instituições fazem com que se perca de vista o contexto maior de consenso ideológico, compartilhado pelos representantes das duas entidades.13 Ademais, se o foco permanece no conflito institucional, a tendência é ignorar a contribuição fundamental que a Pré-História deu à formação ideológica e à legitimação do pensamento nacional-socialista, sem que tivesse sofrido um alinhamento formal e oficial.

Na terceira fase da revisão historiográfica da ciência da Pré-História relativa à época do nacional-socialismo, que ocorreu a partir dos anos 1990, observa-se uma inclinação no sentido de superarem-se as limitações apresentadas pelas abordagens de Bollmus e Kater. Dois congressos científicos de grande porte deram início a uma nova discussão, acompanhada por publicações de alcance internacional.14 O primeiro desses congressos foi realizado em 1998, ano no qual aconteceu também o segundo evento importante, o notável Deutscher Historikertag (Encontro dos Historiadores Alemães) em Frankfurt. O Historikertag foi palco do afamado debate sobre o papel dos historiadores durante o nacional-socialismo, o qual marcou o começo de uma nova etapa na reflexão sobre o passado nacional-socialista para essa ciência também. Desde a década ← 20 | 21 → de 1990, o número de congressos científicos e publicações referentes à história nacional-socialista da Pré-História também aumentou tanto que “ninguém mais pode alegar que a arqueologia pré-histórica não enfrentou o seu passado”.15

Em termos metodológicos, a abordagem que enfatiza a história institucional da Pré-História, favorecida por Bollmus e Kater, foi ampliada por perspectivas provenientes da história das ideias e por novos trabalhos biográficos. Estes apontam para o fato de que mesmo os arqueólogos que se chocaram com o regime nacional-socialista e que viveram conflitos com o Amt Rosenberg deixaram, em suas publicações, significantes manifestações de afinidade com os dogmas nacional-socialistas. Eles teriam ajudado a popularizar tais dogmas e se esforçado em fundamentá-los “cientificamente”.16 Nesses novos estudos, a Pré-História foi apresentada como importante ciência de legitimação do nacional-socialismo e descrita como “ferramenta” ou “arma” do regime.

Porém, não há consenso nessas pesquisas mais recentes sobre os motivos da proximidade ideológica entre a Pré-História e o nacional-socialismo e da contribuição da Pré-História para a legitimação ideológica do regime. De um lado, ressalta-se a longa tradição de ideias völkisch e nacionalistas na Pré-História, linha personificada por Gustaf Kossinna, e o fato de a própria ideologia nacional-socialista ter muitas raízes no arcabouço do ideário völkisch. As origens históricas dessa tradição nacionalista na Pré-História podem ser encontradas no Romantismo alemão, na luta antinapoleônica do início do século XIX e no nacionalismo étnico e racial do Império Alemão ← 21 | 22 → depois de 1871. Em 1912, o próprio Kossinna proclamou a Pré-História alemã como uma “ciência de caráter nacional extraordinário”.17

Depois da derrota na Primeira Guerra Mundial, da Revolução de 1918 e da democratização política da Alemanha, os axiomas völkisch da Pré-História assumiram uma função altamente política. A glorificação do passado “germânico” e as ideias da “superioridade” cultural e militar germânica serviram não apenas para legitimar os supostos “direitos” territoriais da Alemanha, principalmente sobre a Polônia (eslava), mas também para restabelecer a autoestima alemã entre a direita política.18 O passado “germânico” era um ponto de referência para os ideólogos ligados à cultura völkisch, os quais sonhavam com uma Alemanha novamente poderosa, não democrática, não parlamentarista e, em termos raciais e étnicos, pura e homogênea. Se se considerar essa perspectiva, pelo menos para a maioria dos pré-historiadores o nacional-socialismo não representou uma ruptura, mas, pelo contrário, foi a concretização de seus sonhos mais ousados. Esses cientistas tornaram-se parceiros de boa vontade (willing partners) do novo regime e associaram a sua ciência, voluntariamente e por convicção ideológica, ao Estado nacional-socialista.19 Por isso, segundo essas novas publicações, não seria possível falar de “abuso” ou “vitimização” da Pré-História pelos nazistas.20 Em vez de ter mostrado uma postura passiva perante as ← 22 | 23 → insinuações nacional-socialistas, a Pré-História teria colocado seu conhecimento à disposição do regime por vontade própria.

Uma expressão bastante repetida em estudos recentes para caracterizar o vínculo da Pré-História com o Estado nacional-socialista é aquela do “pacto com o diabo”: os pré-historiadores, contrários a sua própria convicção política, teriam feito um acordo com o nacional-socialismo para se beneficiarem das vantagens e oportunidades oferecidas pelo governo. Apoio ideológico teria sido trocado por crescimento institucional e carreiras profissionais. Antes da ascensão do nacional-socialismo ao poder, a Pré-História era uma jovem disciplina ainda em fase de estruturação e afirmação, lutando contra o preconceito e a discriminação que encontrava principalmente no âmbito acadêmico. Com a ascensão do NSDAP ao poder, saudada efusivamente por muitos representantes da área, a Pré-História esperava o fim desse status marginal entre as ciências. O próprio Jacob-Friesen, por exemplo, comemorou, em 1934, a elevação da Pré-História à condição de disciplina do currículo das escolas secundárias: “A longa luta de todos os amigos da Pré-História pela introdução dessa área nas escolas finalmente culminou em triunfo, graças à renovação de nosso Reich ”.21

Já em 1932, e antecipando a vitória nacional-socialista, Hans Reinerth, no exercício de sua função como diretor do Departamento de Pré-História Alemã no Kampfbund für Deutsche Kultur (Liga Militante em Defesa da Cultura Alemã) de Alfred Rosenberg, elaborou um ambicioso programa de fomento à Pré-História no futuro Estado nacional-socialista e destacou a valorização dessa ciência arqueológica: “Uma Alemanha nacional-socialista [dará] à Pré-História alemã o lugar proeminente que ela merece como ciência völkisch, no Estado e na vida cultural alemã […]”.22 Para Rosenberg, a Pré-História era o “Antigo Testamento do Povo Alemão”.

← 23 | 24 → Com a notável exceção do alinhamento institucional (Gleichschaltung) da área na Associação Nacional de Pré-História Alemã (Reichsbund für Deutsche Vorgeschichte), quase todo o programa de Reinerth foi implementado depois de 1933.23 O programa visou a nove áreas concretas nas quais a Pré-História alemã seria promovida, entre as quais estavam as escolas, as universidades, o campo de conservação do patrimônio histórico e a mídia. Reinerth planejou até o estabelecimento de uma espécie de serviço obrigatório (Arbeitsdienst) para forçar a população a ajudar em escavações arqueológicas.

Essa possibilidade de uma conjuntura muito favorável à Pré-História, prometida pelo nacional-socialismo, devido a seu interesse em uma Pré-História politicamente adaptada, levou os arqueólogos, segundo a tese do “pacto faustiano com o diabo”, à implementação das premissas ideológicas dos nazistas. Essa tese, de mero oportunismo dos arqueólogos em prol do crescimento da ciência, ignora, porém, como já adiantado, os múltiplos pontos de encontro entre a Pré-História, na tradição völkisch, e o fundo ideológico do nacional-socialismo. Segundo os autores que criticam a tese do oportunismo, os arqueólogos não precisavam “vender a alma”, trocando legitimação ideológica por oportunidades profissionais. Não precisavam porque eram “almas gêmeas”, a Pré-História e o nacional-socialismo.

Além de mostrar os múltiplos momentos de interação entre nacional-socialismo e a ciência da Pré-História, essa terceira fase de revisão historiográfica ampliou significativamente o leque das questões e trouxe novas ← 24 | 25 → contextualizações comparativas. Particularmente, a discussão do exemplo da Pré-História alemã em contextos comparativos, como nacionalismo, identidades e Pré-História,24 Estado e Pré-História25 e regimes ditatoriais e Pré-História,26 aumentou a compreensão tanto das singularidades do caso alemão quanto dos momentos generalizáveis, compartilhados com outras sociedades europeias e até não europeias. Paralelamente a essas abordagens ← 25 | 26 → comparativas, sugiram reflexões sobre a relação entre a arqueologia, de um lado, e os conceitos de alteridade, diferença cultural, “raça” e genocídio, de outro.27 Essas investigações mais recentes da terceira fase de revisão historiográfica da ciência da Pré-História representam as principais referências metodológicas e interpretativas que orientam o presente estudo sobre a vida do arqueólogo Jacob-Friesen.

__________

1 Franz, 1938 apud Hassmann, Henning; Jantzen, Detlef. Die deutsche Vorgeschichte – eine nationale Wissenschaft: Das Kieler Museum vorgeschichtlicher Altertümer im Dritten Reich. In: Offa: Berichte und Mitteilungen zur Urgeschichte, Frühgeschichte und Mittelalterarchäologie, v. 51, 1994. p. 10.

2 Schöbel, Gunter. Hans Reinerth: Forscher – NS-Funktionär – Museumsleiter. In: Leube, Achim (Org.). Prähistorie und Nationalsozialismus: Die mittel- und osteuropäische Ur- und Frühgeschichtsforschung in den Jahren 1933–1945. Heidelberg: Synchron, 2002. p. 321.

3 Jacob-Friesen, K. H. Wissenschaft und Weltanschauung in der Urgeschichtsforschung. Die Kunde, N.F., 1–2, pp. 1–5, 1950.

4 Krall, Katharina. Prähistorie im Nationalsozialismus: Ein Vergleich der Schriften von Herbert Jankuhn und Hans Reinerth zwischen 1933 und 1939. Dissertação (Mestrado em História) – Universidade de Konstanz. Konstanz, 2005.

5 Kossack, Georg. Prähistorische Archäologie in Deutschland im Wandel der geistigen und politischen Situation. Bayerische Akademie der Wissenschaften. Sitzungsberichte, Jg., 4. München: C.H. Beck, 1999. p. 57.

6 Pape, Wolfgang. Zur Entwicklung des Faches Ur- und Frühgeschichte in Deutschland bis 1945. In: Leube, Achim (Org.). Prähistorie und Nationalsozialismus: Die mittel- und osteuropäische Ur- und Frühgeschichtsforschung in den Jahren 1933–1945. Heidelberg: Synchron, 2002. p. 164.

7 Hassmann, Henning. Archaeology in the “Third Reich”. In: Härke, Heinrich (Org.). Archaeology, ideology and society: the German experience. Frankfurt a. Main: Peter Lang, 2000. p. 66.

8 Bollmus, Reinhard. Das Amt Rosenberg und seine Gegner. 2. ed. München: Oldenbourg, 2006. Kater, Michael H. Das “Ahnenerbe” der SS 1935–1945: Ein Beitrag zur Kulturpolitik des Dritten Reiches. München: Oldenbourg, 1974.

9 Kater, op. cit., p. 301.

10 Schreiber, Maximilian. Walther Wüst: Dekan und Rektor der Universität München 1935–1945. München: Herbert Utz, 2008. p. 14.

11 Bertram, Marion. Zur Situation der deutschen Ur- und Frühgeschichtsforschung während der Zeit der faschistischen Diktatur. Staatliche Museen Berlin, Forschungen und Berichte, n. 31, 1991. p. 30. O paradoxo citado por Bertram ainda é maior. Heinrich Himmler não era só um dos “maiores criminosos do regime nacional-socialista” e um assassino em massa; ele era também profundamente ligado às raízes esotéricas e ocultas do nacional-socialismo e do pensamento völkisch. Apesar de se cercar por cientistas “sérios” nas disputas policráticas com o grupo de Rosenberg, Himmler, desde cedo, era, entre a liderança do nacional-socialismo, um dos principais adeptos de ideias ocultistas, que chegaram a influenciar a prática “científica” da Ahnenerbe. Ele demonstrou grande afinidade com ideias plenamente absurdas, como a chamada “cosmogonia glacial” (Welteislehre), do engenheiro austríaco Hanns Hörbinger. Em comparação a essas tendências ocultistas no pensamento de Himmler, a Pré-História germanófila representada por Hans Reinerth e Arthur Rosenberg parece até mais racional. Ver, entre outros: Goodrick-Clarke, Nicholas. Die okkulten Wurzeln des Nationalsozialismus. Wiesbaden: Marix, 2004. Uma breve crítica da abordagem de Bollmus e Kater se encontra em: Müller, Ulrich. Die “Kieler Schule” – Archäologie zwischen 1927 und 1945. Das Altertum, v. 55, pp. 105–126, 2010.

12 Pape, Wolfgang. Zur Entwicklung des Faches Ur- und Frühgeschichte in Deutschland bis 1945. In: Leube, Achim (Org.). Prähistorie und Nationalsozialismus: Die mittel- und osteuropäische Ur- und Frühgeschichtsforschung in den Jahren 1933–1945. Heidelberg: Synchron, 2002, p. 185.

13 Krall, op. cit.

14 Ambos os congressos resultaram na publicação de anais volumosos: Leube, Achim (Org.). Prähistorie und Nationalsozialismus: Die mittel- und osteuropäische Ur- und Frühgeschichtsforschung in den Jahren 1933–1945. Heidelberg: Synchron, 2002. Steuer, Heiko (Org.). Eine hervorragende nationale Wissenschaft: Deutsche Prähistoriker zwischen 1900 und 1995. Berlin und New York: Walter de Gruyter, 2001. (Ergänzungsbände zum Reallexikon der Germanischen Altertumskunde, v. 29).

15 Strobel, Michael; Widera, Thomas. Einleitung. In: Schachtmann, Judith; Strobel, Michael; Widera, Thomas (Org.). Politik und Wissenschaft in der prähistorischen Archäologie. Göttingen: Vandenhoek und Ruprecht, 2009. p. 9.

16 Ver, por exemplo, o relatório publicado por Uta Halle e Martin Schmidt sobre o congresso sobre Pré-História e nacional-socialismo de 1998: Halle, Uta; Schmidt, Martin. Es handelt sich nicht um die Affinität von Archäologen zum Nationalsozialismus – das ist Nationalsozialismus. Bericht über die internationale Tagung “Die mittel- und osteuropäische Ur- und Frühgeschichtsforschung in den Jahren 1933–1945”, Berlin 19–23 November 1998. Archäologische Informationen, v. 22, pp. 41–52, 2002.

17 Kossinna, Gustaf. Die deutsche Vorgeschichte, eine hervorragend nationale Wissenschaft. Leipzig: Curt Kabitzsch, 1912.

18 Arnold, Bettina. The past as propaganda: Totalitarian archaeology in Nazi Germany. Antiquity, v. 64, n. 244, pp. 464–478, 1990.

19 Young, Megan. The Nazis’ archeology. Nebraska Anthropologist, paper 78, 2002. p. 29. A jornalista Heather Pringle chegou a chamar os arqueólogos, reunidos na Ahnenerbe, de “Hitler’s Willing Archeologists”, apropriando-se do termo cunhado por Daniel Goldhagen para caracterizar a participação “voluntária” de alemães no Holocausto: “Hitler’s Willing Executioners”. Pringle, Heather. Hitler’s willing archaeologists (How the SS perverted the Paleolithic record to support Nazi ideology). Archaeology, v. 59, n. 2, 2006.

20 Essa fórmula do “abuso”, que implica vitimização e passividade por parte dos representantes da ciência, é empregada frequentemente para caracterizar o papel da Pré-História durante o nacional-socialismo, por exemplo em Kemper, Till. Der Missbrauch der Ur- und Frühgeschichte in Deutschland: Die Idee der Nation, die politischen Religionen Deutschlands und die Archäologie. Saarbrücken: VDM, 2010.

21 Jacob-Friesen, K. H. Urgeschichte in der Schule. Vergangenheit und Gegenwart. Zeitschrift für Geschichtsunterricht und politische Erziehung, Leipzig und Berlin, 24, 1934. p. 3.

22 Hassmann, Henning; Jantzen, Detlef. Die deutsche Vorgeschichte – eine nationale Wissenschaft: Das Kieler Museum vorgeschichtlicher Altertümer im Dritten Reich. Offa: Berichte und Mitteilungen zur Urgeschichte, Frühgeschichte und Mittelalterarchäologie, v. 51, 1994. p. 21.

23 Reinerth, Hans. Die deutsche Vorgeschichte im Dritten Reich. In: Nationalsozialistische Monatshefte, Heft 27, junho de 1932. Ver: Schöbel, Gunter. Hans Reinerth: Forscher – NS-Funktionär – Museumsleiter. In: Leube, Achim (Org.). Prähistorie und Nationalsozialismus: Die mittel- und osteuropäische Ur- und Frühgeschichtsforschung in den Jahren 1933–1945. Heidelberg: Synchron, 2002. pp. 321–396. Já em 1931, logo depois de entrar no NSDAP, Reinerth publicou um semelhante programa de fomento à Pré-História. Ibid.

24 Díaz-Andreu, Margarita; Champion, Timothy (Org.). Nationalism and Archaeology in Europe. Boulder and San Francisco: Westview Press, 1996; Arnold, Bettina. Pseudoarchaeology and nationalism: essentializing difference. In: Fagan, Garrett G. (Org.). Archaeological fantasies: How pseudoarchaeology misrepresents the past and misleads the public. London and New York: Routledge, 2006. pp. 154–179; Bálint, Csanád. A contribution to research on ethnicity: a view from and on the East. In: Pohl, Walter; Mehofer, Mathias (Org.). Archaeology of identity – Archäologie der Identität. Viena: Verlag der Österreichischen Akademie der Wissenschaften, 2010. (Forschungen zur Geschichte des Mittelalters, v. 17). Beck, Heinrich et al. (Org.). Zur Geschichte der Gleichung “germanisch-deutsch”. Berlin: Walter de Gruyter, 2004. (Ergänzungsband zum Reallexikon der germanischen Altertumskunde, v. 34). Brather, Sebastian. Die Projektion des Nationalstaats in die Frühgeschichte: Ethnische Interpretationen in der Archäologie. In: Hardt, Matthias; Lübke, Christian (Org.). Inventing the pasts in North Central Europe: The national perception of early medieval history and archaeology. Frankfurt: Peter Lang, 2003. pp. 18–42. Eleni. Gina. Nationalist archaeology. Voices,2012. Disponível em: <http://voices.yahoo.com/nationalist-archaeology-5823966.html?cat=37>. Gathercole, Peter; Lowenthal, David (Org.). The politics of the past. London: Routledge, 1990. Kohl, Philip L. Nationalism and Archaeology: On the construction of nations and the reconstructions of the remote past. Annual Review of Anthropology, v. 27, pp. 223–246, 1998. Shennan, Stephen J. (Org.). Archeological approaches to cultural identity. New York: Routledge, 1989. Jones, Siân. The archaeology of ethinicity. London and New York: Routledge, 1997. Trigger, Bruce G. Alternative archaeologies: nationalist, colonialist, imperialist. Man, new series, v. 19, n. 3, pp. 355–370, 1984.

25 Brown, Sean. Archaeology and the State. Constellations, v. 3, n. 1, pp. 97–104, 2011. Demoule, Jean-Paul. Archäologische Kulturen und moderne Nationen. In: Biehl, Peter F. et al. (Org.). Archäologien Europas: Geschichte, Methoden und Theorien. Münster und New York: Waxmann, 2002. pp. 133–146.

26 Salminen, Timo. A.M. Tallgren, Totalitarismus und vorgeschichtliche Archäologie. Praehistorische Zeitschrift, v. 86, n. 2, pp. 272–288, 2011.

27 Arnold, Bettina. Justifying genocide: archaeology and the construction of difference. In: Hinton, Alexander Laban (Org.). Annihilating difference: The anthropology of genocide. Berkeley: University of California Press, 2002. pp. 95–116. Arnold, Bettina. “Arierdämmerung”: race and archaeology in Nazi Germany. World Archaeology, v. 38, n. 1, pp. 8–31, 2006.

 

← 26 | 27 → CAPÍTULO 2

As origens da visão nacional-socialista do passado “germânico”: A ciência da Pré-História e o pensamento völkisch

Em janeiro de 1913, quando Karl Hermann Jacob-Friesen assumiu o posto de assistente de diretor no Museu Provincial de Hanôver, a Pré-História ainda era uma ciência muito jovem na Alemanha. Nas universidades, tinha pouca presença e, apesar da sua ideologização e instrumentalização política pelo nacionalismo völkisch durante o Império Alemão, não era levada a sério pelas disciplinas históricas consolidadas. Caracterizar a Pré-História como um “passatempo de professores de escola primária e oficiais aposentados” era um comentário depreciativo bastante comum. Segundo Leopold von Ranke, era simplesmente “arqueologia praticada por pastores” e, para Theodor Mommsen, era uma “ciência de analfabetos”.1 Somente após a Primeira Guerra Mundial, já na República de Weimar, a Pré-História começou a ser reconhecida como uma disciplina acadêmica relevante. No entanto, levou ainda algum tempo para se estabelecer como disciplina acadêmica plenamente aceita, o que apenas ocorreu definitivamente com a enorme valorização e expansão obtida durante o domínio nacional-socialista.

A disciplina da Pré-História, que nos países de língua alemã é cunhada de Vorgeschichte (Pré-História), Ur- und Vorgeschichte (História originária ou muito antiga e Pré-História) ou Vor- und Frühgeschichte (Pré e Proto-História), tem por objetivo a pesquisa das culturas antigas e já extintas, quase todas ágrafas, principalmente da região do norte e do centro europeu, ← 27 | 28 → aplicando principalmente métodos da arqueologia. Os restos materiais das atividades humanas, em particular aqueles obtidos em escavações, são praticamente as únicas fontes dessa ciência. Essas fontes arqueológicas são complementadas por esparsas fontes escritas em pesquisas acerca do período de transição da “proto-história”, sobretudo acerca da chamada Idade do Ferro Romana, do Período Céltico Tardio e da Idade Média Arcaica. A Pré-História diferencia-se das outras Spatenwissenschaften (ciências da pá ou ciências de escavação) em termos cronológicos, metodológicos e territoriais, e não se confunde, portanto, com a Arqueologia Clássica da região do Mediterrâneo, com a Arqueologia Romana Provincial da Alemanha Ocidental e da região do Rio Reno, nem com as novas arqueologias, subsidiárias da ciência da História: a Arqueologia Medieval e a Arqueologia Moderna, entre outras.

Principalmente na década de 1930, parte dos pré-historiadores, sobretudo os seguidores germanófilos de Hans Reinerth, opunha-se à Arqueologia Romana Provincial da Alemanha Ocidental, alegando que os representantes dessa área de estudos repudiavam a “superioridade cultural germânica” e interpretavam a pré-história germânica com base apenas na perspectiva da cultura romana e da crença cristã. Segundo os Römlinge (romanoides), como os arqueólogos provincial-romanos foram chamados pejorativamente, a Europa do Norte devia toda a sua cultura à influência romana, por meio da aculturação dos bárbaros”.

Jacob-Friesen considerava-se um representante da Ur- und Frühgeschichte (História muito antiga e Proto-História) e definia sua área de conhecimento como Urgeschichte (História muito antiga) e não como Vorgeschichte (Pré-História). Embora no título da sua tese de doutorado, de 1911, Jacob-Friesen tenha empregado o termo Prä-Historie (Pré-História), ele mais tarde defendeu que esse termo não caracterizava sua ciência adequadamente e, por isso, rejeitou seu uso. Na sua obra Grundfragen der Urgeschichtsforschung, de 1928, Jacob-Friesen mostrou-se muito cético quanto ao conceito de Vorgeschichte (Pré-História), e criticou a ideia de que houvesse atividade humana fora e antes da História. Na sua opinião, a ideia de pré-história baseava-se na conceituação de História feita por Leopold von Ranke, que limitou a ideia geral da História à existência de fontes escritas e não incluiu nela todas as atividades humanas no passado. ← 28 | 29 → Adotando uma visão distanciada daquela defendida por Ranke, Jacob-Friesen, em texto de 1928, esclareceu: “Se adotamos a visão de que história é ação, então não podemos admitir nenhuma ‘pré-história’”.2

A posição de Jacob-Friesen acerca da inexistência da pré-história estava fundamentada no trabalho do geógrafo e etnólogo Friedrich Ratzel, que, por sua vez, havia influenciado fortemente Karl Weule, professor e orientador de Jacob-Friesen em Leipzig. Nas palavras de Ratzel, “História é ação, e, perante essa ação, escrever ou não escrever tem pouca importância. No contexto dos atos de fazer e criar, as palavras escritas têm apenas papel secundário”.3 O próprio Karl Weule também via a história como “qualquer desenvolvimento humano”, independentemente, portanto, de “documentação escrita”.4 O prefixo alemão ur- significa “muito antigo”, e, segundo Jacob-Friesen, “a nossa ciência é a parte mais antiga da história, e, portanto, é lógico se a designarmos por Urgeschichte”.5 Assim sendo, são o tipo e a natureza das fontes e os métodos de investigação, criados com base na interpretação das fontes, o que diferenciaria a Urgeschichte da História. O objeto das duas ciências seria o mesmo: a interpretação científica de atividades humanas do passado.

Nas décadas de 1920 e 1930, Jacob-Friesen promoveu uma campanha para a popularização do termo Urgeschichte em detrimento de Vorgeschichte. Em 1934, por exemplo, reivindicou a Richard von Hoff, poderoso senador ← 29 | 30 → nacional-socialista de Bremen e autor das novas diretrizes nacionais do ensino de História, a substituição do termo Vorgeschichte por Urgeschichte no texto dessas diretrizes. Porém, não obteve sucesso.6

Contudo, a distinção entre Urgeschichte e Vorgeschichte, feita nos países de língua alemã, tem seu fundamento não apenas na rejeição do conceito historicista e personalista de História, defendido pelo Historiógrafo Real da Corte Prussiana, Leopold von Ranke. Nas ciências humanas na Alemanha, o termo Urgeschichte denomina também uma área de conhecimento nascida nos anos 60 do século XIX, que se dedicou, como ciência universal e interdisciplinar, à história dos primórdios da humanidade. Dessa forma, trata-se de estudos que interligavam a Antropologia Física, a Arqueologia e a Etnologia. Mais precisamente, na ciência da Urgeschichte ainda não se tinha introduzido a divisão dessas áreas em disciplinas acadêmicas individuais. Essa Urgeschichte universal e interdisciplinar associou-se, nos países de língua alemã, ao nome de Rudolf Virchow.

Por sua vez, a formação de uma arqueologia pré-histórica independente da Antropologia Física e da Etnologia, inclusive com delimitação paroquial (local) ou nacional do seu espaço geográfico de investigação – como a Pré-História dos alemães –, aconteceu sob o signo de Vorgeschichte. Gustaf Kossinna tornou-se o principal representante dessa Pré-História nacional (e nacionalista). Para ressaltar essa reorientação nacional, a Sociedade Alemã de Pré-História (Deutsche Gesellschaft für Vorgeschichte), que havia sido fundada por Kossinna em 1909, teve seu nome mudado, em 1913, para Sociedade para a Pré-História Alemã (Gesellschaft für Deutsche Vorgeschichte). O rompimento dessa agremiação nacional e nacionalista dos pré-historiadores com a tradição liberal da Urgeschichte humana universal não foi nada amigável, o que complicou também suas relações com a Sociedade Berlinense de Antropologia, Etnologia e Pré-História (Berliner Gesellschaft für Anthropologie, Ethnologie und Urgeschichte), fundada por Rudolf Virchow.

A identificação da tradição universalista e liberal com o termo Urgeschichte (História muito antiga) e a associação pública de uma orientação nacional e völkisch com o conceito de Vorgeschichte criaram uma situação ← 30 | 31 → um tanto paradoxal na época do nacional-socialismo. Como fiéis seguidores da escola de Kossinna, os defensores germanófilos da Pré-História nacional no Amt Rosenberg, cujo objetivo era a propagação do dogma da “superioridade cultural e racial germânica”, empregavam o termo Pré-História. Ora, o uso do prefixo pré- (com o sentido de antes) implicava a exclusão do período “germânico” mais valorizado dos estudos da História: aquele constituído pelas eras pré-romanas e pré-cristãs. Ademais, as tentativas de Reinerth e Rosenberg de implementar o alinhamento (Gleichschaltung) nas instituições da Pré-História ignoraram esse paradoxo semântico. Tal alinhamento institucional também foi planejado sob o lema de Vorgeschichte, por meio do Reichsbund für Deutsche Vorgeschichte.

Essas associações semânticas durante o Terceiro Reich deram a Jacob-Friesen mais um argumento para condenar, após a Segunda Guerra Mundial, o uso do termo Vorgeschichte, devido à sua suposta contaminação pelo ideário nacional-socialista.7 No pós-guerra, ele defendeu seu posicionamento com alegações de cunho político: “Nós, pré-historiadores da zona britânica, decidimos ceder o termo Vorgeschichte à era Reinerth. Falaremos agora exclusivamente em Urgeschichte”.8 Mesmo assim, no período posterior a 1945, nenhum dos dois termos chegou a predominar no discurso da área, e as suas conotações políticas foram se diluindo. Hoje, ambos os conceitos, Urgeschichte e Vorgeschichte, são utilizados indistintamente como sinônimos, embora Urgeschichte ainda predomine na região norte da Alemanha por influência, sobretudo, de Jacob-Friesen.9 Mais recentemente, passou-se ← 31 | 32 → a empregar também o termo Vorgeschichtliche Archäologie (Arqueologia Pré-Histórica). Seguindo essa lógica, o antigo palco profissional de Jacob-Friesen, o Departamento de Ur- und Frühgeschichte (História muito antiga e Proto-História) do Museu Estadual de Hanôver, foi renomeado como “Área Arqueológica” (Fachbereich Archäologie).10

A Pré-História como disciplina científica começou a se desenvolver lentamente no século XIX em territórios escandinavos e alemães. A área recebeu o primeiro impulso sistemático com o interesse pelos antigos “monumentos pagãos” durante a primeira metade do século XIX, produto do entusiasmo romântico e do nacionalismo antinapoleônico da burguesia e pequena burguesia emergentes na Alemanha e na Dinamarca, igualmente ocupada pela França. No período anterior, ou seja, durante a fase denominada como “pré-científica” da Pré-História por Hans Jürgen Eggers, a atenção despertada por monumentos arqueológicos na Alemanha era pequena e perdia de longe para a fascinação exercida pela Antiguidade Clássica grega e romana.11 Surgiram, nesse período, ideias extravagantes e muito obscuras sobre os monumentos pré-históricos da região. Pensava-se, por exemplo, que os túmulos megalíticos, tão comuns na paisagem do norte da Alemanha, teriam sido construídos por gigantes para seus mortos, o que lhes deu o nome, ainda hoje em uso, de Hünengräber (túmulos de gigantes).

A incipiente consciência nacional alemã contra a ocupação francesa e a admiração, inspirada pelo Romantismo Alemão, por tudo que era místico, simples e natural, levou ao surgimento de figuras de identidade e identificação coletiva que celebravam a pré-história “alemã” e os “povos germânicos” como expressão de valores e virtudes “nacionais”. Antes disso, os mesmos “povos germânicos” haviam sido considerados bárbaros sem cultura, especialmente em comparação com a cultura greco-romana. Na primeira metade do século XIX, uma nova recepção da Germânia de Tácito teve papel ← 32 | 33 → importante como fonte de inspiração dessa transfiguração romântico-nacionalista da “Pré-História alemã”.12 No entanto, essa elevação cultural da Pré-História “germânica” tem origens mais remotas, encontradas já no Humanismo alemão:

No início, eram os humanistas alemães, que, já na sua nova “luta contra Roma”, foram inspirados pela imagem dos germanos literariamente estilizada por Tácito. Desse modo, começaram a preferir o caráter (Wesensart) alemão aos costumes estrangeiros e aos progressos importados. Foi Ulrich von Hutten que interpretou Armínio, o Querusco, como um combatente contra a tirania romana. Nesse sentido, pode-se dizer que a liberdade europeia nasceu nas florestas germânicas do passado.13

As ideias e os conceitos de glorificação mítica do “povo” como uma espécie de indivíduo homogêneo e como “organismo com alma”, tendo “genealogia e destino comuns”, bem como a ideia da “predestinação dos alemães e da sua superioridade”, a “tese da continuidade” do “germânico” para o “alemão” e a procura pelo ideal alemão e pela sua “raça pura” na ­pré-história, foram empregados dessa forma marcante pela primeira vez nos textos dos filósofos do Romantismo alemão do século XIX. Enquanto, no século XVIII, a burguesia se identificava com uma tradição cultural que venerava a época clássica, um século depois, ela celebrava as vitórias germânicas contra os romanos, que facilmente assumiram o papel dos franceses na imaginação nacionalista.14 Escreve Hans Jürgen Eggers:

← 33 | 34 → Não é por acaso que o mesmo Barão de Stein que reorganizou o Estado prussiano após a derrota de Iena era agora, após a vitória contra Napoleão, o fundador de associações alemãs de História e Pré-História, que, a partir dos anos 20 do século XIX, passaram a patrocinar também a ciência da Pré-História sistematizada.15

Foram essas associações de História e Pré-História, criadas após 1815 em grande número, que promoveram o envolvimento institucional dos românticos protonacionalistas com a Pré-História. Em princípio de orientação nacional, essas instituições, cujos membros eram recrutados principalmente entre os cidadãos da crescente sociedade burguesa, muitas vezes mostravam também uma faceta paroquial ou local, devido à realidade de fragmentação política da Alemanha na época. Por isso, Ernst Wahle identifica nas pesquisas históricas e pré-históricas conduzidas nessa fase, um considerável enfoque regional ou provincial. Na mesma esteira segue Alexander Gramsch, ao considerar a Pré-História da primeira metade do século XIX parte dos estudos de cultura local (Heimatkunde).16 Trata-se mais de uma espécie de “movimento civil”, dominado quase inteiramente pelo amadorismo, do que de uma ciência convencional. O interesse na pré-história no começo do século XIX contribuiu, por isso, mais para a fundação de museus e formação de acervos de Pré-História do que para o estabelecimento da área como disciplina científica. O Museu Provincial de Hanôver, onde Jacob-Friesen inaugurou sua carreira profissional em 1913, ← 34 | 35 → tem as suas origens nesse amadorismo patriótico: nasceu com a união de três associações culturais burguesas locais que unificaram seus acervos.

O interesse romântico-nacionalista pela Pré-História diminuiu por volta de 1830, ressurgiu com força na década de 1840 – após o renascimento do nacionalismo motivado pela Revolução de 1848 – e foi suplantado, aproximadamente em 1860, por uma nova perspectiva da História da Humanidade (Geschichte der Menschheit), de caráter menos nacionalista e mais universalista.17 No entanto, os temas levantados pela Pré-História nacionalista da primeira metade do século XIX, em especial as questões relativas à classificação étnica dos monumentos pré-históricos e à legitimação de hierarquias culturais entre diferentes sociedades, fundamentada em supostas descobertas pré-históricas científicas, reapareceram, de forma vigorosa e ameaçadora, no final do mesmo século. Surgiu, a partir desse segundo momento nacionalista na história da ciência da Pré-História, uma tradição chauvinista na Arqueologia, que se manteria durante a República de Weimar e abriria caminho até o nacional-socialismo.

A orientação científica, característica de 1860 em diante, diferenciava-se tanto do precoce nacionalismo do início do século XIX quanto do chauvinismo radical do fim do século e estava estreitamente ligada ao nome de Rudolf Virchow. Como ressaltou Ernst Wahle, a Urgeschichte representada por Virchow era “filha da época das ciências naturais”, vinculada tanto à Antropologia Física e à Biológica quanto ao evolucionismo liberal. Seu interesse não era uma Pré-História nacional. Fundamentada na noção de monogenismo da humanidade, a Urgeschichte de Virchow superou, por meio do estudo evolucionista da história humana, as fronteiras colocadas pela perspectiva nacional. O lema era: “Not nations, but mankind” (“Não nações, mas humanidade”).18 Embora estivesse baseada na unidade das três “ciências humanas” (Antropologia Física, Etnologia e Arqueologia Pré-Histórica), a História positivista da humanidade priorizava a Antropologia Física e a Etnologia em detrimento da Pré-História.19 A longevidade da proximidade ← 35 | 36 → entre essas três ciências refletiu-se na formação, nas carreiras acadêmicas e nos métodos científicos de muitos arqueólogos, inclusive Jacob-Friesen, até depois da Primeira Guerra Mundial. O professor e orientador acadêmico de Jacob-Friesen na Universidade de Leipzig, o etnólogo Karl Weule, era um defensor convicto da integração das três “ciências humanas”.20

A Antropologia “interdisciplinar” instituída por Virchow, com seus diversos vínculos com a Etnologia e com a Pré-História, criou, assim, um paradoxo: propôs uma compreensão da História da Humanidade que incluía uma perspectiva das ciências naturais, mas que, mesmo assim, não apresentava um determinismo biológico ou racial.21 Ela estava baseada em uma tradição humanística liberal que, embora aceitasse plenamente as hierarquias evolucionistas culturais e as expressões liberais de “progresso”, rejeitava fatores biológicos e raciais como determinantes de culturas. Por isso, não existe linha direta entre a Antropologia Física liberal da segunda metade do século XIX e os dogmas raciais völkisch e nacional-socialistas que viriam a influenciar o estudo da pré-história principalmente após a Primeira Guerra Mundial. Os representantes mais conceituados dessa História da Humanidade positivista, tais como Rudolf Virchow e os etnólogos Adolf Bastian e Felix von Luschan, voltaram-se tanto contra o antissemitismo, o movimento nórdico e o racismo “científico” quanto contra a Pré-História ← 36 | 37 → germânica de inspiração völkisch.22 Essa tradição humanista e liberal nas Ciências Humanas alemãs teve que ser superada para que tivessem espaço as linhas de interpretação nacional-socialistas völkisch da pré-história, baseadas em teorias raciais.23

No que diz respeito à Pré-História em sentido estrito, essa transição de um paradigma liberal e universal para uma orientação nacionalista e völkisch está vinculada estreitamente à pessoa de Gustaf Kossinna, que, em 1902, ano da morte de Rudolf Virchow, tomou posse como primeiro catedrático de Pré-História alemã em Berlim. Na década seguinte, a Pré-História cresceu como ciência autônoma, defendendo seus próprios princípios e métodos científicos – por exemplo, o sistema dos três períodos e as cronologias relativa e absoluta. Também ficou fortalecida a orientação nacionalista völkisch associada ao nome de Kossinna, cujo objetivo científico era a chamada “interpretação étnica” dos artefatos arqueológicos. A Pré-História tornou-se uma “ciência eminentemente nacional”, como declarou o próprio Kossinna. Porém, os métodos defendidos por Kossinna, a chamada “arqueologia de povoamento” (Siedlungsarchäologie) e a interpretação étnica da distribuição geográfica dos artefatos arqueológicos em Fundprovinzen (províncias de artefatos arqueológicos), não foram aceitos consensualmente. O maior impacto desses métodos foi sentido apenas depois da Primeira Guerra Mundial e não no contexto temporal em que surgiram, isto é, no final do Império Alemão de Guilherme II. A abordagem de Kossinna representa uma ponte entre a Pré-História nacionalista völkisch do Império e da República de Weimar, de um lado, e o tempo do nacional-socialismo, de outro. Pois foi somente durante a ditadura nacional-socialista, e depois da morte de Kossinna, que os seus métodos e teorias alcançaram maior força ← 37 | 38 → e mostraram seu principal impacto, deixando cicatrizes profundas na Pré-História. Esse legado de longo prazo chegou a ser conhecido como “trauma de Kossinna” ou “síndrome de Kossinna”.24

Gustaf Kossinna nasceu em Tilsit, em 1858, e estudou inicialmente Filologia Clássica e Germânica. Entre 1880 e 1890, mudou de área, especializando-se em Pré-História, que o tornou um dos poucos representantes da jovem disciplina. Em 1895, ainda bibliotecário mal pago, proferiu seu primeiro trabalho seminal em um Congresso em Kassel, organizado pela Deutsche Gesellschaft für Anthropologie, Ethnologie und Urgeschichte (Sociedade Alemã de Antropologia, Etnologia e Pré-História). Esse trabalho versava sobre “a expansão pré-histórica dos Germanos na Alemanha”, e nele Kossinna esboçou tanto o método como as intenções da sua “interpretação étnica” da pré-história. Esta teria como objetivo “identificar os sujeitos históricos por trás dos artefatos arqueológicos extraídos de solo nativo”.25 Em 1902, foi nomeado außerordentlicher Professor de Arqueologia Alemã na Universidade de Berlim.26 Nove anos depois, em 1911, veio a publicação de seu método da “arqueologia de povoamento” (Siedlungsarchäologie) e, um ano mais tarde, seu livro Die deutsche Vorgeschichte, eine hervorragend nationale Wissenschaft (Pré-História Alemã, uma ciência eminentemente nacional), com o qual ele oficializou sua aliança ideológica com o movimento völkisch. Em 1927, finalmente, lançou um livro que pode ser considerado um exemplo clássico do paradigma da Pré-História völkisch: Altgermanische Kulturhöhe: Eine Einführung in die deutsche Vor- und Frühgeschichte (Grandeza cultural dos antigos germanos: uma introdução à Pré e à Proto-História alemã).27

← 38 | 39 → Já em seu primeiro livro (Die deutsche Vorgeschichte), publicado em 1912, Kossinna havia, segundo Schöbel, substituído seu “racionalismo empírico” por um “irracionalismo neorromântico völkisch”. Para esse mesmo autor, “gradualmente, a agitação política, que sempre havia estado presente em suas publicações, se sobrepôs ao raciocínio científico”.28 Kossinna colocou a Pré-História a serviço dos ideais e da política völkisch. Mesmo assim, manteve boa distância dos germanófilos “fantasiadores”, como Herman Wirth e Wilhelm Teudt, que, na sua opinião, haviam cruzado a fronteira entre seriedade científica e diletantismo. Esse ataque aos pré-historiadores leigos por Kossinna, frequentemente conduzido com palavras muito rudes, possibilitou que Jacob-Friesen, depois de 1933, invocasse o “velho mestre” Kossinna em suas disputas com os então cortejados “fantasiadores” e “videntes”.29

Kossinna não testemunhou a tomada do poder pelos nacional-socialistas devido à sua morte, em 1931. Ainda assim, é justo considerá-lo, tanto objetiva quanto subjetivamente, um ator político consciente e um precursor do nacional-socialismo.30 A sua interpretação völkisch e nacionalista do passado pré-histórico investiu a superficial ideologia nacional-socialista de uma “aparência supostamente científica”, e os principais valores e ideias por ele defendidos coincidiam plenamente com aqueles do nacional-socialismo. Até a sua morte, ele apoiou, de forma ostensiva, diferentes grupos nacional-socialistas, principalmente a Sociedade Nacional-Socialista para a Cultura Alemã (Nationalsozialistische Gesellschaft für Deutsche Kultur) ← 39 | 40 → e a Liga Militante em Defesa da Cultura Alemã (Kampfbund für Deutsche Kultur), de Alfred Rosenberg, à qual se juntou em 1928, não sem causar comoção pública. A veneração de Kossinna como “velho mestre” e como herói por parte do nacional-socialismo não foi, portanto, uma apropriação indevida de sua pessoa e de seus ensinamentos, mas refletiu, pelo contrário, suas próprias convicções acadêmicas e políticas.31

No que diz respeito à sua ideologia política e social, nas primeiras duas décadas do século XX, Kossinna, que era “nacional-conservador”, transformou-se em “nacionalista völkisch” radical.32 O movimento völkisch nasceu nas últimas décadas do século XIX, principalmente entre as classes médias protestantes, como “uma declaração de guerra irracional, anacrônica e retrógrada contra a modernidade” e articulava as reações dessas classes às incertezas e aos traumas provocados pela dramática industrialização e pelas transformações sociais que ocorreram no Império Alemão nesse período.33

A ideologia völkisch faz parte do nacionalismo radical de fins do século XIX, que recebeu impulso adicional pela derrota alemã na Primeira Guerra Mundial. A heterogeneidade desse movimento e a imprecisão de seu perfil ideológico dificultam a identificação rigorosa dos elementos que constituem seu ideário. Mesmo assim, é possível apontar seus principais traços. No cerne da ideologia völkisch, de natureza sincretista e eclética, está a divinização do povo alemão, visto como um organismo orgânico e, em termos raciais, autóctone e homogêneo. Sontheimer caracteriza a ideologia völkisch como uma espécie de “deslocamento da política pangermânica de poder para o plano dos sentimentos”. Os völkisch pensavam em “dicotomias primitivas entre o próprio e o estrangeiro”. A “purificação do sangue alemão”, com a eliminação de todas as “misturas raciais estranhas”, era o principal objetivo do movimento.

← 40 | 41 → Essas estratégias social-darwinistas de “salvação da própria raça” se manifestavam politicamente como antissemitismo primitivo, anticatolicismo e antieslavismo. Segundo o pensamento völkisch, o que era “estranho da própria espécie” não se revelava somente por misturas raciais. Eram também considerados não alemães (undeutsch) os grandes símbolos da modernidade e da emancipação humana: o Iluminismo, a democracia, os partidos políticos, o movimento trabalhista, a arte moderna e a arte abstrata, a igualdade e emancipação das mulheres e até a cultura urbana.34 Para o pensamento völkisch, o passado, principalmente as épocas pré-histórica e medieval, assume relevância estratégica: uma visão idealizada e romantizada desses tempos representava uma espécie de contraproposta à podridão da modernidade.

A contribuição de Kossinna e da sua interpretação da pré-história para essa visão retrógrada do mundo foi significante. Todos os elementos da idolatria völkisch do passado pré-histórico e da veneração dos germanos encontram-se nas obras desse pré-historiador e, ali, são “comprovados cientificamente”: a definição biológica e racial dos germanos, a suposição da superioridade e predestinação desse povo, a ideia de sua “grandeza cultural”, a rejeição do dogma ex oriente lux e a ideia da difusão da civilização pelo mundo por meio das migrações germânicas. Kossinna, como arqueólogo, e os ideólogos völkisch ainda compartilhavam posicionamentos extremamente antirromanos e antieslavos do passado.35

← 41 | 42 → Para viabilizar o principal objetivo da sua arqueologia, isto é, para estabelecer um vínculo entre os artefatos arqueológicos e os “povos” do passado, Kossinna criou, e defendeu com muito vigor, o chamado método da Arqueologia do Povoamento (Siedlungsarchäologische Methode).36 Em sentido estrito, o Siedlungsarchäologische Methode não é um método científico, mas sim uma série de suposições interconectadas. A Arqueologia de Povoamento parte da premissa de que a distribuição geográfica dos artefatos arqueológicos (por exemplo, cacos de cerâmica, armas, túmulos e sepulturas) indica “províncias culturais”, homogêneas e fechadas. A essas “culturas arqueológicas” do passado corresponderiam, segundo Kossinna, grupos étnicos, também nitidamente delimitados. Citando Kossina: “[…] províncias culturais, delimitadas nitidamente, correspondem, em todos os tempos, a certos povos ou tribos”.37 Essa frase tornou-se uma espécie de lema ← 42 | 43 → durante o nacional-socialismo e chegou a ser recitado pelos seguidores de Reinerth e do Amt Rosenberg em muitas ocasiões.

No último passo da sua sequência dedutiva, Kossinna pressupõe uma relação entre as “tribos germânicas” mencionadas nas fontes escritas, principalmente pelos escritores romanos, e as entidades étnicas de tempos mais remotos e ágrafos, que ele havia identificado por artefatos arqueológicos. Para comprovar tais vínculos, Kossinna empregou o “método tipológico”, popularizado pelo pré-historiador sueco Oscar Montelius (1843–1921), um dos fundadores da Pré-História científica. Com esse “método retrospectivo”, Kossinna projetou a existência dos germanos, como “povo” com identidade própria e singular, em um passado muito distante: o início da Idade de Bronze ou até mesmo o Neolítico. Nos trabalhos de Kossinna, os métodos arqueológicos são complementados pelo emprego de pesquisas linguísticas sobre a distribuição e difusão das línguas indo-germânicas (indo-europeias). Essa abordagem é filha de seu contexto histórico, e está baseada em uma série de suposições não comprovadas que refletem uma leitura ideológica de identidades coletivas em voga no final do século XIX. Supõe-se uma congruência estrita entre “raça”, “povo” e “língua” em territórios culturalmente homogêneos e fechados, que são habitados por povos vistos como atores coletivos históricos. Assim, projetava-se, para um passado pré-histórico, a imagem idealizada de um Estado e de uma nação modernos, criada na segunda metade do século XIX para os Estados nacionais europeus.38

Com base nessa interpretação étnica dos sítios e artefatos arqueológicos, Kossinna lançou um conjunto de ideias que se tornaram paradigmáticas e tiveram profundo impacto sobre a Pré-História völkisch nos tempos do Império Alemão e da República de Weimar. O nacional-socialismo, por sua vez, deu a tais paradigmas o status de dogmas hegemônicos. Oficializou a ideia da grandeza cultural germânica e a oposição antagônica entre uma Germânia, definida racial e biologicamente, e as culturas romanas e célticas. A resistência ao Império Romano, simbolizada e personalizada pelo chefe dos queruscos e oficial romano Hermann (Armínio), surge como momento-chave da formação da identidade germânico-alemã. Kossinna defendia a ← 43 | 44 → noção da origem nórdica das altas culturas e identificou nada menos que quatorze ondas migratórias (Germanenzüge) pelas quais a cultura e a língua germânicas teriam se espalhado e fecundado o mundo.

Com isso, a história das tribos germânicas passa a se compor de uma delicada mistura de “migracionismo germanófilo”39 – conquista, expansão e difusão de cultura, de um lado, e permanência e continuidade no seu hábitat, “pureza” e imobilidade racial e aperfeiçoamento cultural autóctone e autônomo, de outro. Os elementos de permanência, principalmente as supostas continuidades na ocupação do espaço geográfico, desde o Neolítico até a contemporaneidade, e, consequentemente, as continuidades étnicas (os alemães ou escandinavos contemporâneos seriam nada mais, nada menos que descendentes diretos dos antigos germanos) motivaram Kossinna a reivindicar, nas negociações do Tratado de Versalhes, supostos direitos históricos alemães contra a Polônia na delimitação das fronteiras entre esses dois Estados. Os nacional-socialistas retomaram esses argumentos mais tarde no contexto do ataque da Alemanha à Polônia.

A Arqueologia do Povoamento de Kossinna abandonou a tradição universalista e evolucionista, representada por Rudolf Virchow, e transformou a Pré-História em uma ciência “eminentemente nacional”.40 Entretanto, recorrer à pré-história como ponto referencial de uma identidade étnica e nacional não era atitude que se limitava, no século XIX, à Alemanha. Era parte de um amplo fenômeno caracterizado por uma busca retrógrada, antimoderna e neotradicionalista de identidade nacional, conduzida principalmente pelas classes médias dos Estados europeus.

“A maior parte das tradições arqueológicas na Europa”, afirma Trigger, “é provavelmente de orientação nacionalista” e faz parte da ideia do Estado nacional e da invenção de um passado compatível com a definição biológica de nação.41 Para muitos Estados europeus e movimentos ­nacionalistas, ← 44 | 45 → como na Itália, na França, na Dinamarca, na Rússia, na Suécia e na Boêmia, a Pré-História serviu para fundamentar a identidade coletiva e a noção de soberania nacional.42 Lembre-se, como ilustração, que, ao mesmo tempo em que a Alemanha mergulhou no culto do Hermann der Cherusker, surgiu a invenção da identidade céltica dos franceses e sua manifestação monumental no culto de Vercingétorix. Na época da Revolução Francesa, a “nação” francesa era definida em termos políticos. Como argumenta Jean-Paul Demoule, a “celtomania” e a projeção das origens da nação francesa em um passado distante, bem como a designação do Rei Clóvis I como o primeiro rei francês, representam também “uma manipulação da imagem do passado com base no paradigma de Kossinna”.43 Entretanto, embora a reorientação nacionalista da Pré-História tenha sido um fenômeno europeu, a Pré-História völkisch na Alemanha se destacou por seu vínculo mais íntimo com as doutrinas raciais e por sua associação direta com o revisionismo contra o Tratado de Versalhes.44

A interpretação étnica dos artefatos arqueológicos e a ideia da existência de “culturas arqueológicas” homogêneas e fechadas não se originaram exclusivamente do trabalho de Kossinna. Pelo contrário, são padrões populares que até hoje influenciam a Pré-História como ciência. Mesmo Gordon V. Childe, conceituado arqueólogo britânico que simpatizava muito com o materialismo histórico, desenvolveu seus trabalhos com base ← 45 | 46 → na Arqueologia de Povoamento e cunhou o bonmot: “pot = people”.45 Porém, ainda nos anos 1930, criticando a arqueologia nacional-socialista, ele se distanciou claramente dos dogmas de Kossinna.46

Apesar de terem sido amplamente divulgados, os ensinamentos de Kossinna não foram consensualmente aceitos durante sua vida. Surgiram defensores ferrenhos, mas houve também críticos implacáveis na academia alemã, tanto entre os germanistas quanto entre os pré-historiadores. Sua atuação política e sua crescente cooperação com os radicais völkisch provocaram certa rejeição por parte dos seus colegas, que, na grande maioria, seguiam uma orientação nacional-conservadora e patriótica. Além disso, a personalidade de Kossinna, que era bastante condescendente e arrogante, intensificou o distanciamento de alguns colegas.47 Conquanto tivesse sido um dos primeiros pré-historiadores com presença significante no ambiente universitário e tivesse alcançado grandes méritos em prol da consagração da jovem ciência da Pré-História, Kossinna não se sentia plenamente aceito pelos seus pares e sofreu várias derrotas em conflitos com colegas da academia.

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1 Ver, entre outros: Brather, Sebastian. Ethnische Interpretationen in der frühgeschichtlichen Archäologie: Geschichte, Grundlagen und Alternativen. Berlin und New York: Walter de Gruyter, 2004. (Reallexikon der Germanischen Altertumskunde, 42).

2 Jacob-Friesen, K. H. Grundfragen der Urgeschichtsforschung. Stand u. Kritik d. Forschung über Rassen, Völker u. Kulturen in urgeschichtl. Zeit. Schriftenreihe: Veröffentl. d. urgeschichtl. Abt. d. Prov.-Museums zu Hannover 1. Hannover: Helwing, 1928. p. 88. (Festschrift z. Feier d. 75jähr. Bestehens d. Prov.-Museums).

3 Friedrich Ratzel apud Jacob-Friesen, K. H. Vorgeschichte oder Urgeschichte? Eine grundsätzliche Frage. In: Kersten, K. (Org). Festschrift für Gustav Schwantes. Neumünster: Karl Wachholtz, 1951. p. 2.

4 Blesse, Giselher. Karl Weule und seine Bedeutung für die Völkerkunde in Leipzig. In: Deimel, Claus; Lentz, Sebastian, Streck, Bernhard (Org.). Auf der Suche nach Vielfalt: Ethnographie und Geographie in Leipzig. Leipzig: Leibniz-Institut für Länderkunde, 2009. p. 161.

5 Jacob-Friesen, K. H. Vorgeschichte oder Urgeschichte? Eine grundsätzliche Frage. In: Kersten, K. (Org). Festschrift für Gustav Schwantes. Neumünster: Karl Wachholtz, 1951. p. 2.

6 Hann. 152, Acc. 53/84, Nr. 40, Jacob-Friesen para von Richthofen, 21.4.1934.

Details

Pages
XVIII, 206
ISBN (PDF)
9783035306460
ISBN (ePUB)
9783035398670
ISBN (MOBI)
9783035398663
ISBN (Book)
9783034317443
Language
Spanish
Publication date
2014 (October)
Published
Oxford, Bern, Berlin, Bruxelles, Frankfurt am Main, New York, Wien, 2014. XVIII, 206 p., 2 il. blanco/negro

Biographical notes

Wolfgang Döpcke (Author)

Wolfgang Döpcke é professor de História Contemporânea na Universidade de Brasília desde 1994. Ele publicou amplamente sobre a História da África Colonial e a História das Relações Internacionais da África. Nos ultimos anos, especializou-se na história da Alemanha durante o nacional-socialismo.