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Introdução à misoginia medieval de Tertuliano a Chaucer

Estudo e leitura de textos fundamentais

by Pedro Carlos Louzada Fonseca (Author)
Textbook XIV, 298 Pages

Summary

Este livro tem como tema principal o exame crítico-analítico de textos que representam o que de mais significativo existe na tradição literária misógina Ocidental. Já desde a sua introdução, e na extensão de cinco magistrais capítulos, estuda o que há de mais exponencial para a questão da difamação da mulher no mundo Antigo e no período medieval. Num percuciente esforço seletivo de fontes, prima por colocar em evidência Aristóteles, Ovídio e Juvenal, autores do mundo Antigo que influenciaram a Patrística representada por escritos de São Jerônimo e Santo Agostinho, antecedidos por Tertuliano, Santo Ambrósio e São João Crisóstomo. Passando por Graciano, chega-se a Abelardo e Heloísa, ao lado de outros autores visitados de forma mais sintética, como Godofredo de Estrasburgo, o anônimo Ancrene Riwle e Guido delle Colonne. Marbodo de Rennes, Walter Map e André Capelão, da tradição misógina satírica no latim medieval, e adaptações vernáculas na Idade Média tardia, com os nomes de Jean de Meun, Giovanni Boccaccio, Jehan Le Fèvre e Geoffrey Chaucer comparecem no livro. Certamente elaborado de forma não só de interesse acadêmico, mas também didático e de apelo popular, o livro muito contribuirá para os estudos das questões de Gênero, da Idade Média, da Religião, da Ética, entre outros. E, para além da instrução e informação que poderá proporcionar, a sua proposta principal é de valor indubitavelmente ético, de combate aos preconceitos, à misoginia que tão duramente malsãos e perversos, ainda nos dias atuais, atingem as pessoas e a nossa sociedade.

Table Of Contents

  • Cobertura
  • Título
  • Copyright
  • Sobre o autor
  • Sobre o livro
  • Este eBook pode ser citado
  • Sumário
  • Prefácio
  • Agradecimentos
  • Introdução: Fontes da difamação da mulher no mundo Antigo e no período medieval
  • 1 O legado medieval misógino da ciência antiga
  • Aristóteles
  • De generatione animalium
  • Galeno
  • De usu partium corporis humani
  • Santo Isidoro de Sevilha
  • Etymologiae
  • Santo Anselmo
  • Monologium
  • São Tomás de Aquino
  • Summa Theologiae
  • 2 Os Padres da Igreja e a visão misógina da mulher
  • Tertuliano: Teologização da aparência feminina e ascetismo misógino
  • De cultu feminarum
  • Santo Ambrósio: Visão misógina do casamento e da imperfeição feminina
  • De viduis
  • De Paradiso
  • Expositio Evangelii secundum Lucam
  • São João Crisóstomo: Admoestação misógina contra a fala feminina
  • Homilia IX
  • São Jerônimo: Apologia teológica misógina da virgindade e do celibato
  • Adversus Jovinianum
  • Epistula 22, ad Eustochium
  • Epistula 77, ad Oceanum
  • Santo Agostinho: Tradição e renovação no pensamento misógino medieval
  • Confessiones
  • De Genesi ad litteram
  • De civitate Dei
  • 3 O legado da visão misógina dos Padres da Igreja
  • Graciano: Incorporação da misoginia no cânone eclesiástico
  • Decretum
  • Abelardo e Heloísa: Internalização da misoginia no ideário afetivo
  • Historia calamitatum
  • Littera 3
  • Historia calamitatum
  • Godofredo de Estrasburgo: Masculinização misógina do feminino no trato amoroso
  • Tristan
  • O anônimo Ancrene Riwle: Reclusão religiosa feminina e preceituarismo misógino
  • Ancrene Riwle
  • Guido delle Colonne: Reconstrução misógina da épica histórica antiga
  • Historia destructionis Troiae
  • 4 A misoginia na tradição satírica no latim medieval
  • Marbodo de Rennes: Perspectiva misógina e detratação do meretrício
  • De meretrice
  • Walter Map: Dissuasão misógina do matrimônio masculino
  • Dissuasio Valerii ad Ruffinum philosophum nec uxorem ducat
  • André Capelão: Misoginia satírica na cortesania amorosa
  • De amore
  • 5 Escritos vernáculos misóginos da tardia Idade Média
  • Jean de Meun: Alegorização literária e satírica da misoginia
  • Le Roman de la Rose
  • Giovanni Boccaccio: Paroxismos misóginos do caráter da companhia feminina
  • Il Corbaccio
  • Jehan Le Fèvre: Misoginia e depreciação satírica do feminino matrimonial
  • Les Lamentations de Matheolus
  • Geoffrey Chaucer: Precarização misógina na detratação da fala feminina
  • The Wife of Bath’s Prologue
  • Índice

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Prefácio

Este livro, que ora se publica com o título de Introdução à misoginia medieval de Tertuliano a Chaucer: Estudo e leitura de textos fundamentais, representa a continuidade de outra publicação do autor, de formato semelhante, vinda a lume intitulada Mulher e misoginia na visão dos Padres da Igreja e do seu legado medieval: Estudo e leitura de textos fundamentais (Puc Goiás, Brasil, 2017). Nesse sentido, poder-se-á ser mesmo considerado um segundo volume, com a reprodução revista de certas partes daquele primeiro livro acrescidas de capítulos inéditos com vários autores novos.

O presente livro é constituído por cinco capítulos, antecedidos por uma esclarecedora introdução. Nesta, são examinadas, em termos gerais, as fontes da difamação da mulher no mundo Antigo e no período medieval. Com relação às fontes da tradição misógina medieval, foi preocupação do autor proceder a um necessário recorte à vasta bibliografia sobre o assunto, a fim de se colocar em evidência obras de autores indispensáveis, como, do mundo Antigo, Aristóteles (384 – 322 a.C.), Ovídio (43 a.C. – 18 d.C.) e Juvenal (c. 60 – 130), que muito influenciaram a patrística, aqui representada por escritos de São Jerônimo (c. 347 – 420) e Santo Agostinho (c. 354 – 430), antecedidos por Tertuliano (c. 155 – 222), Santo Ambrósio (c. 339 – 397) e São João Crisóstomo (c. 344 – 407). Passando por Graciano (séc. XII – c.1160), chega-se a Abelardo (c. 1079 – 1142) e Heloísa ← ix | x → (c. 1101 – 1164), ao lado de outros autores, selecionados e arrolados de forma mais sintética, tais como, Godofredo de Estrasburgo (c. 1180 – 1210), o anonimo Ancrene Riwle (c. 1230) e Guido delle Colonne (c. 1210 – 1287).

Ainda como fontes dessa misoginia medieval foram selecionados autores da tradição satírica no latim medieval, tais como, Marbodo de Rennes (c. 1035 – 1123), Walter Map (c. 1140 – 1209) e André Capelão (c. 1150 – 1220). E, como contribuição das chamadas adaptações vernáculas na Idade Média tardia, foram escolhidos nomes fundamentais, como os de Jean de Meun (c. 1240 – 1305), Giovanni Boccaccio (c. 1313 – 1375), Jehan Le Fèvre (c. 1320 – 1380) e Geoffrey Chaucer (c. 1343 – 1400).

O capítulo 1 apresenta uma importante antologia comentada de trechos de obras de Aristóteles e de seus seguidores no que tange à depreciação do feminino, como Santo Isidoro de Sevilha (c. 560 – 636), Santo Anselmo (c. 1033 – 1109) e São Tomás de Aquino (c. 1225 – 1274). Aí se demonstra a influência das ideias pseudocientíficas do filósofo e dos seus discípulos, relativas à natureza e à função do corpo e do caráter femininos, nos escritos desses importantes autores cristãos. Destaca-se a função de auctoritas desse famoso sábio grego, usada para endossar as preconceituosas predisposições do androcentrismo judaico-cristão relativas à inferioridade e imperfeição da mulher, desde o Gênesis considerada a responsável pela entrada do Mal e do pecado no mundo.

O capítulo 2 verticaliza reflexões sobre a visão misógina dos Padres da Igreja, destacando-se de Santo Ambrósio (c. 339 – 397), a visão misógina do casamento e da imperfeição feminina; de São João Crisóstomo (c. 344 – 407), a admoestação misógina contra a fala feminina; de São Jerônimo (c. 347 – 420), a apologia teológica da virgindade e do celibato; e de Santo Agostinho (c. 354 – 430), a tradição e a renovação no pensamento misógino medieval. Antecedidos por Tertuliano (c. 155 – 222), deste são sublinhadas as lições teológicas sobre a aparência feminina, combatendo-se-lhe a vaidade e a sedução em prol da ascese espiritual.

No capítulo 3, é tratada a herança da misoginia dos Padres da Igreja, destacando-se o importante papel de Graciano (séc. XII – c. 1160) na incorporação da misoginia no cânone eclesiástico; de Abelardo (c. 1079 – 1142) e Heloísa (c. 1101 – 1164) na internalização da misoginia no ideário afetivo; de Godofredo de Estrasburgo (c. 1180 – 1210) na masculinização misógina do feminino no trato amoroso; da obra anônima Ancrene Riwle [Guia para anacoretas] (c. 1230) na reclusão religiosa feminina e no preceituarismo misógino; e de Guido delle Colonne (c. 1210 – 1287) na reconstrução misógina da épica histórica antiga.

No capítulo 4, para o exame da perpetuação da misoginia na tradição satírica medieval, foram selecionados os satiristas Marbodo de Rennes (c. 1035 – 1123) e sua ← x | xi → perspectiva misógina e detratação do meretrício, Walter Map (c. 1140 – 1209) e sua dissuasão misógina do matrimônio masculino e André Capelão (c. 1150 – 1220) e sua misoginia satírica na cortesania amorosa.

O capítulo 5, e último do livro, propõe tratar de uma seleção de escritos vernáculos disseminadores da misoginia na tardia Idade Média. Para tanto foram contemplados os mais significativos autores e enfoques dessa tradição, quais sejam, Jean de Meun (c. 1240 – 1305), com a alegorização literária e satírica da misoginia; Giovanni Boccaccio (c. 1313 – 1375), com os paroxismos misóginos do caráter da companhia feminina; Jehan Le Fèvre (c. 1320 – 1380), com a misoginia e a depreciação satírica do feminino matrimonial; e Geoffrey Chaucer (c. 1343 – 1400), com a precarização misógina na detratação da fala feminina.

Enfim, através de todo esse percurso antológico, criteriosamente seletivo de autores e obras de diversas origens e gêneros literários, tem-se uma eficiente amostragem não só da ideologia patrística acerca da mulher, mas também da perpetuação do seu legado e da sua revitalização, desde a tradição satírica no latim medieval até a sua disseminação nos escritos vernáculos da tardia Idade Média.

Dois esclarecimentos de caráter técnico-metodológico merecem ser especialmente feitos nesse breve prefácio. O primeiro deles trata-se da consideração dada neste livro aos nomes próprios que aparecem nos textos dos autores estudados. Relativamente a eles, procurou-se manter a grafia do nome da forma como aparece na fonte utilizada, quando se tratou de nomes de referência secundária. Para os nomes de importância e referência mais destacada, buscou-se a sua ortografia em português, de preferência a de uso mais adotado. O segundo deles refere-se à sistemática da referência parentética da localização de passagens ou citações das fontes consultadas. Nesse particular optou-se pelo método de apenas indicar, conforme o caso, o livro, capítulo, seção, ou demais segmentos, em que a passagem e a citação se encontram.

Certamente que este livro, assim como o que lhe antecede, conforme se explicou no início deste prefácio, elaborado de forma não só de interesse acadêmico, mas também didático, muito contribuirá para os estudiosos das questões de Gênero, da Idade Média, da Religião, entre outras. Autoriza-o ainda como recomendação a incansável pesquisa que o denota. O seu autor tem, com o correr dos anos, voltado a sua atenção sobretudo para a questão das relações entre literatura, história e imaginário, bem como do discurso do Gênero no contexto da literatura medieval, especificamente no que tange ao simbolismo animal dos bestiários e à literatura misógina da Idade Média.

Ainda merece ser feita uma observação de caráter metodológico acerca do feitio de antologia comentada adotada para apresentação dos textos, qual seja, o ← xi | xii → entendimento de que esse tipo de coletânea crítico-analítica possui a importante função de mapear as variadas marcas e nuances do discurso misógino medieval, que por natureza tem uma anatomia e função enredadas nos termos da sua formação relativamente carente de história interna mas sobejada de procedimentos referenciais de alta complexidade intertextual.

O autor, professor aposentado da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Goiás, e docente voluntário do seu Programa de Pós-Graduação em Letras e Linguística, tem disseminado as suas lições através da docência e da orientação de nova geração de pesquisadores, os quais certamente serão os primeiros leitores desta obra, mas não os únicos, dada a abrangência de estudiosos que dela poderão se beneficiar. E, como objetivo final, tem-se como realmente claro que, para além da instrução que pode proporcionar, a proposta principal da presente publicação é de valor indubitavelmente ético, de combate aos preconceitos, à misoginia que tão duramente malsãos e perversos, ainda nos dias atuais, atingem as pessoas e a nossa sociedade.

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Agradecimentos

Introdução à misoginia medieval de Tertuliano a Chaucer: Estudo e leitura de textos fundamentais é o profícuo resultado de um longo período de pesquisa, de docência e de vida acadêmica. O seu conteúdo, primeiramente investigado e estudado como matéria de cursos ministrados em nível de pós-graduação, em trabalhos divulgados em anais de congressos, e em artigos publicados no Brasil e no exterior, finalmente resulta em alcançar a sua organização final ora apresentada em forma de livro. É também a culminação de um extenso tempo de animado diálogo e de valiosas reflexões sobre os assuntos nele tratados. Nesse sentido, o livro é uma tessitura de muitas vozes, disposições e circunstâncias que, sem dúvida alguma, representam não só a sua dívida intelectual e institucional para com os seus interlocutores, mas também o seu apoio afetivo e espiritual recebido.

É no bojo dessas considerações que quero deixar aqui expressos os meus reconhecidos agradecimentos àqueles que me granjearam de simpatia, gentileza e de sabedoria, que não me pouparam o seu interesse e o seu encorajamento, qua­lidades somente encontradas em verdadeiras relações de amizade e de confiança.

A começar por citar os nomes daqueles a quem quero mencionar como pessoas que definitivamente contribuíram para que o livro se concretizasse, inicio os meus agradecimentos à professora Maria do Amparo Tavares Maleval que, com inestimável e competente interlocução acadêmica e científica, orientou a ← xiii | xiv → minha pesquisa de pós-doutorado na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (2013–2014), momento decisivo para que um primeiro estudo, em forma de livro intitulado Mulher e misoginia na visão dos Padres da Igreja e do seu legado medieval: Estudo e leitura de textos fundamentais, pudesse chegar a bom termo e com sucesso. É dessa primeira publicação que o presente livro representa a sua continuidade crítico-analítica, temática e antológica acerca da literatura misógina, desde a patrística e o seu legado medieval até as adaptações vernáculas da tardia idade média.

Non plus ultra agradeço ainda ao professor Márcio Ricardo Coelho Muniz que, com incondicional zelo acadêmico e descortino de pesquisa se predispôs a supervisionar-me em estágio de pós-doutorado na Universidade Federal da Bahia, valiosamente lendo o meu projeto de pesquisa ligado ao assunto que ora traz a público a presente publicação.

Agradeço também às valiosas interlocuções de colegas e alunos, e a todos aqueles que, no meu convívio diário, mesmo às vezes sem as propriedades de um discurso acadêmico e científico, muito me apoiaram emocional e espiritualmente, dando-me a segurança afetiva necessária ao domínio e ao fazer de que todo trabalho e produção intelectual necessitam. Da mesma forma estendo os meus reconhecidos agradecimentos à Universidade Federal de Goiás que, por meio das suas Pró-Reitorias de Pesquisa e de Pós-Graduação, e do Programa de Pós-Graduação em Letras e Linguística, ofereceu o seu apoio institucional.

Pedro Carlos Louzada Fonseca

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Introdução: Fontes da difamação da mulher no mundo Antigo e no período medieval

Sem a intenção de se reproduzir aqui uma litania da desgraça sobre o que se tem mal falado da mulher no período medieval, a presente introdução começa com os pronunciamentos misóginos escritos nesse período, quer por pessoas ligadas à prática da vida religiosa, quer por outras responsáveis por escritos do gênero secular. E esse começo assim se propõe orientar por uma razão que pode ser constatada como óbvia, o fato de que, em todo o período medieval, a seu próprio modo de feitio caracteristicamente patriarcal, pode-se constatar a presença de uma maior quantidade de textos de natureza misógina do que de textos simpatizantes e defensores da mulher.

Apesar do risco da generalização, pode-se mesmo cogitar se uma das disposições mentais deveras onipresente nessa misoginia medieval não foi exatamente aquela que encontrou certo deleite tendencioso e ideológico em tabular a mulher como resvalada a uma realidade animalizada, sendo aqui lembrada para com ela se consorciar—desde o episódio bíblico genésico, ou mesmo para com ela se consubstanciar posteriormente no imaginário masculino—a presença da figura da serpente ou de outra criatura tão quanto ou mais venenosa. Além dessa característica estrategicamente naturalizadora, a tradição dessa misoginia tinha outras preferidas, as quais eram lembradas a partir de um inventário fabuloso das mais malsãs e perversas características femininas. ← 1 | 2 →

Da imensa quantidade de atributos, moral e religiosamente denegridores da natureza e do caráter da mulher, não faltavam, via de regra no seu retrato, traços de uma pessoa de inveterada compulsão para o ciúme e para a inveja, defeitos esses acompanhados de perto pela terrível intemperança de uma fala normalmente abrasiva e virulenta. Não menos ainda a mulher era normalmente criticada por ser uma intolerável criatura costumeiramente compulsiva, egoísta, consumista, frívola, dissimulada e imbecil para o conhecimento e entendimento das coisas superiores, isto é, que exigiam maior competência intelectual e espiritual.

Do grande número de textos misóginos medievais—que chegam a se repetir ad nauseam nos seus obsessivos e comuns pontos de censura e condenação do modo e do ser da mulher—é consenso, mais ou menos geral, entre os estudiosos do assunto, considerar que os escritos de Theophrastus (c. 371 – 287 a.C.), de São Jerônimo (c. 347 – 420) e de Walter Map (c. 1140 – 1209) constituem referência clássica. O que todos eles têm em comum é uma severa indisposição contra o casamento, chegando a constituir mesmo numa espécie de prédica, arrazoadamente teológica no caso de São Jerônimo, antimatrimonialista.

O antimatrimonial e influente, entretanto, mais conhecido de nome, Liber de nuptiis [Livro do casamento], de Theophrastus, foi, com invocada autoridade, citado e apropriado por São Jerônimo em Adversus Jovinianum [Contra Joviniano] (c. 393) (Jerome 1892, 779–907). Nesse livro, o santo convincentemente dissuade os verdadeiros cristãos do casamento (Delhaye 1951, 65–86; Schmitt 1971, 259–263).

A obra de São Jerônimo chegou mesmo a motivar grandes obras pró-celibato como, por exemplo, a Theologia christiana [Teologia cristã] (c. 1124), de Pedro Abelardo (ABELÁRD 1969), e o Policraticus [Policrático] (c. 1159), de John of Salisbury (1909). Walter Map não fica atrás, nessa lista misógina, com a não menos virulenta e antimatrimonial Dissuasio Valerii ad Ruffinum philosophum nec uxorem ducat [Dissuasão de Valerius ao filósofo Ruffinus para não tomar uma esposa] (c. 1180) (Map 1983, 287–313). Em relação à busca desse tema da infe­licidade do casamento na própria Bíblia, é de se considerar que, ao lado de outros livros que tratam do assunto, embora de forma menos virulenta, o Eclesiástico ganha dianteira principalmente por seu tom de composição que o caracteriza como um dos livros de sabedoria mais tristes da Sagrada Escritura (Richard de Bury 1960, 42–44; Pratt 1962, 5–27).

Além de outras coisas relacionadas ao tema central do casamento, o que fica claro nesse pequeno elenco prototípico, escolhido para se iniciar a consideração dos fundamentos da literatura antimatrimonialista, é a ideia, glosada por tantas obras misóginas posteriores, de a vida doméstica de casado ser uma verdadeira ← 2 | 3 → desgraça, enquanto que o celibato deveria ser considerado como uma condição de excelências morais, intelectuais e espirituais a serem buscadas pelos homens de princípio e de crença. Em termos políticos, fica bastante óbvio o fato de que todo esse posicionamento ideológico nada mais servia do que para dar continuidade e perpetuar o monopólio masculino da cultura literária relativamente à expressão do estado civil ideal dos homens, das mulheres piedosas e devotas à vida cristã.

Embora seja consenso, mais ou menos geral, considerar principalmente a obra de São Jerônimo, apesar das suas peculiaridades temáticas, como fundamental para o estudo da misoginia medieval, entretanto, ao se considerar seriamente outros tantos textos misóginos como os de São Jerônimo e mesmo outros do passado, a primeira reflexão possivelmente a surgir na discussão desse assunto é se essa misoginia, tal qual se conhece como realidade no pensamento e na cultura da Idade Média ocidental, constitui uma história, ou melhor, forma uma tradição. E, sendo esse o caso, uma segunda reflexão necessariamente vem a surgir, ligada à necessidade de se investigar quais textos poderiam ser considerados como fundadores dessa misoginia medieval ocidental, ou seja, passagens consideradas obrigatórias para a fixação das suas principais proposições e modus operandi.

Apesar de o assunto ser muito vasto, mesmo assim, quando são investigadas as raízes dessa misoginia medieval, uma original passagem obrigatória se faz sentir regressivamente em direção à antiga lei judaica e ao crepúsculo da cultura grega. Nesse último caso, é sabido o quanto Hesíodo (c. 750 – 650 a.C.) já responsabilizara a mulher pela maldita praga do mal introduzida no mundo (Allen 1985, 14–15). Ainda nesse sentido de busca de raízes antigas influentes em muitas atitudes e julgamentos de cultores da misoginia medieval, encontram-se casos de solução de continuidade cronológica, pois é sabido que Ovídio (43 a.C. – 18 d.C.), cujos antecessores misóginos foram temporariamente perdidos de vista no período medieval, por felicidade, ou por outra explicação histórica, teve o seu nome legado como referência obrigatória na longa lista de antigas e tradicionais sátiras contra a mulher.

Details

Pages
XIV, 298
ISBN (PDF)
9781433170522
ISBN (ePUB)
9781433170539
ISBN (MOBI)
9781433170546
ISBN (Softcover)
9781433170515
ISBN (Hardcover)
9781433170508
Language
Portugues
Publication date
2020 (January)
Published
New York, Bern, Berlin, Bruxelles, Oxford, Wien, 2020. XIV, 298 p.

Biographical notes

Pedro Carlos Louzada Fonseca (Author)

Pedro Carlos Louzada Fonseca é professor aposentado da Faculdade de Letras e docente voluntário permanente do Programa de Pós-Graduação em Letras e Linguística da Universidade Federal de Goiás (Brasil). Ph.D. em Línguas e Literaturas Românicas pela University of New Mexico (USA), realizou estágios de pós-doutorado na Universidade Aberta de Lisboa e na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Tem desenvolvido pesquisas e publicado inúmeros artigos em revistas especializadas no Brasil e no exterior. Ele é o autor de Mulher e misoginia na visão dos Padres da Igreja e do seu legado medieval: Estudo e leitura de textos fundamentais (2017).

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