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O Poeta-Teólogo

Revisitações literárias do imaginário bíblico em alguma poesia portuguesa do século XX

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Goncalo Placido Cordeiro

Este livro propõe a reconsideração do estado das relações entre a Bíblia e a literatura em torno de um pacto, de longa tradição, firmado entre poesia e teologia. A questão da dessemantização bíblica constitui foco de uma inquietação, ao verificar como a Bíblia tem sido sujeita à usura sistemática de uma lógica interpretativa, de acantonamento teológico, que de algum modo encapsulou o objecto bíblico e o exauriu. A proposta aqui apresentada investe na análise da obra de quatro poetas portugueses do século XX de modo a interrogar neles os efeitos da solicitação interpretativa do texto bíblico, elevado à categoria de matéria literária por excelência. Os diferentes modos de revisitação de uma tradição literária, religiosa e cultural serão tomados como manifestações de um fazer poético sensível às potencialidades de significação da herança bíblica, a que tanto Ruy Belo, Daniel Faria, Tolentino Mendonça, como Miguel Torga se encontram vinculados, entroncando assim numa linhagem poética que aqui se declina em torno dos eixos paradigmáticos do sagrado e do profano, da mística, da hermenêutica e da heterodoxia.

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I. NOVAS E VELHAS ALIANÇAS

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Este livro parte da constatação de que a Bíblia é o fundamento de uma mundividência simultaneamente teológica e literária, cuja dupla condição muitos dos seus leitores têm dificuldade em reconhecer. Estabelecer um pacto de ressignificação como forma de ir ao encontro do texto bíblico é o meu modo de dar expressão a algumas das inquietações epistemológicas que estão na origem deste livro. Ao evocar a noção de pacto neste contexto, faço-me valer da sua proximidade de outras figuras do imaginário bíblico como a aliança estabelecida entre Deus e os homens ou da própria estrutura do livro que se perfaz do Novo e Antigo Testamentos, designação que quer em hebraico (beríth) quer em grego (diathéke) está em todo o caso mais próxima da ideia de pacto do que da de legado.1 Apesar de a questão do legado memorial não poder ser arredada de um texto com a dimensão monumental da Bíblia, a minha proposta procura sobretudo ir ao encontro de um contrato de leitura que de algum modo recupera um pilar central da teoria do comparatismo, o tertium quid da construção do sentido, que opera a transformação do texto lido e do leitor pela experiência da leitura. De modo similar, a ideia de aliança permite estabelecer um acordo ou negociação entre duas ou ←9 | 10→mais partes, na procura de um...

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