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A circulação literária e cultural

by Jose Luis Jobim (Volume editor)
Edited Collection VIII, 374 Pages
Series: Brazilian Studies, Volume 2

Summary

Uma questão importante para os estudos literários é a circulação de obras além de seu lugar de origem. Muitos outros aspectos devem ser levados em consideração também, como a posição assimétrica dos autores e de suas obras na circulação internacional, condicionada pela posição relativa de línguas e culturas em um mercado global. Este volume estuda a circulação literária e cultural e inclui ensaios que exploram este tópico tanto em estudos de caso, analisando obras e autores de diversas literaturas e culturas, quanto em discussões sobre questões teóricas referentes à circulação e a tudo que ela implica: temporalidade, lugar, método, objetos materiais e conceitos.

Table Of Contents

  • Cobertura
  • Título
  • Copyright
  • Sobre o autor
  • Sobre o livro
  • Este eBook pode ser citado
  • Sumário
  • Introdução: para uma nova perspectiva no estudo da circulação literária e cultural (José Luís Jobim)
  • 1 Intempestividade, reconhecimento e respeito na obra de Gonçalo Tavares (Helena Carvalhão Buescu)
  • 2 A circulação cultural e a idade das culturas em Witold Gombrowicz (Olga Kempinska)
  • 3 Circulação como princípio constitutivo (Fabio Akcelrud Durão)
  • 4 Literaturas para um imaginário global: a circulação da literatura digital em espanhol (Begoña Regueiro / Amelia Sanz / Miriam Llamas)
  • 5 O e-book em espanhol: um objeto global em circulação (Laura Sánchez Gómez)
  • 6 Revisitando a transculturação na América Latina: a questão do realismo maravilhoso (Eduardo F. Coutinho)
  • 7 J. J. Slauerhoff, literatura holandesa e literatura-mundo (Theo D’haen)
  • 8 Quando a América se torna pela primeira vez latina (Paulo Moreira)
  • 9 Literatura comparada e circulação literária: reflexões sobre um percurso crítico (Benjamin Abdala Junior)
  • 10 Considerações sobre processos de circulação literaria: a matriz cultural indígena na matriz cultural brasileira (Fábio Almeida de Carvalho)
  • 11 “Tupy or not tupy that is the question.” O vazio e a questão da circulação literária e cultural na Amazônia: pensando uma literatura “sem caráter” (Roberto Mibielli)
  • 12 A sobranceria no ensaio luso-brasileiro de interpretação nacional (Robert Patrick Newcomb)
  • 13 Circulação de ideias na crítica literária do século XIX, entre a França e o Brasil: o papel dos viajantes (Maria Elizabeth Chaves de Mello)
  • 14 Enciclopédia Brasileira, política de línguas e circulação de ideias de democratização da cultura: Mário de Andrade (1939) e Eurialo Canabrava (1957) (Bethania Mariani)
  • 15 Machado de Assis: o teatro do mundo (Kenneth David Jackson)
  • 16 À procura de uma terra da felicidade: a Utopia e seus insatisfeitos (Zhang Longxi)
  • 17 O canibalismo como apropriação cultural: de Caliban ao Manifesto Antropófago (José Luís Jobim)
  • Sobre os autores
  • Índice
  • Obras publicadas na série

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JOSÉ LUÍS JOBIM

Introdução

Para uma nova perspectiva no estudo da circulação literária e cultural

Este volume estuda a circulação literária e cultural e inclui ensaios que exploram este tópico tanto em estudos de caso, analisando obras e autores de diversas literaturas e culturas, quanto em discussões sobre questões teóricas referentes à circulação e a tudo que ela implica: temporalidade, lugar, método, objetos materiais e conceitos.

Mesmo quando a circulação ocorre em lugares em que há um contexto análogo de obras circulando, junto com parâmetros para julgamentos de valor e modelos para produção de outras obras, pode haver diferenças de algum modo derivadas da temporalidade e da espacialidade. Mas isso nem sempre é percebido, pois hoje em dia circula com intensidade uma descrição dos fenômenos a que se chamou de globalização ou mundialização, e que pressupõe um tempo presente e um alcance espacial ilimitados, construídos a partir da metáfora da World Wide Web. Trata-se de elemento consubstancial ao sentido da ordem capitalista transnacional que configuraria nossas ações no cotidiano, homogeneizaria atribuições de valores e, de alguma maneira, também condenaria o passado e todos os particularismos comunitários a uma espécie de limbo. Esse tempo presente é saturado de sentidos que também excluem novos sentidos, que não possam ou não queiram agregar-se à ordem hegemônica, e sua contrapartida é a disseminação de uma consciência de que aquilo que se apresenta como descrição é uma interpretação, pois o que se descreve é o tempo interpretado em um presente no qual a anterioridade de outros tempos ganha sentido, ainda que seja o do desaparecimento daquela anterioridade.

Na elaboração do conhecimento histórico, frequentemente representa-se o que passou como sendo parte de uma cadeia de continuidade que chegou até o momento atual, ou se elaboram as razões pelas quais a herança ← 1 | 2 → do passado foi abandonada ou desapareceu agora, mas com a percepção de que aquilo que surgiu, depois do desaparecimento do que foi, só pode ser adequadamente compreendido a partir de uma ausência presente.

Helena Buescu, no que diz respeito à temporalidade, nos lembra que a evolução histórica e a circulação literária ocorrem também em velocidades temporais diferenciadas. Trazendo à baila o argumento de Claudio Guillén, Buescu chama nossa atenção para a diferença em velocidade e dinamismo entre: a) fenômenos de longa duração, como os gêneros literários (cuja ampla circulação e durabilidade podem gerar uma percepção de que são “universais”); b) fenômenos de média duração, como os chamados períodos literários; e c) fenômenos de curta duração, como as vanguardas do início do século XX. Buescu está mais interessada, entretanto, no que Claudio Guillén chama de durações intermitentes, que englobam fenômenos em diferentes contextos históricos, gerando uma espécie de repetição diferenciada:

A sua capacidade de intermitência torna-se assim um fato histórico que implica uma especial forma de historicidade: interessa não apenas aquilo que um fenômeno é, mas também o modo como se relaciona com outras suas ocorrências históricas, e por isso os elos que com elas mantém.

Para Buescu, esses elos podem oscilar entre combinatórias diferenciadas, quer para a continuidade quer para a ruptura, implicando também as relações entre objetos literários, em diferentes temporalidades, e não apenas na consideração de cada um, dentro da temporalidade original em que foi produzido. Daí a conclusão da autora:

E tudo isto significa também algo mais, que quero aqui sublinhar, pelas consequências que tem no que respeita ao carácter histórico da literatura: é que não podemos nunca considerar um fenómeno literário (ou cultural) como definitivamente enclausurado no passado, porque pela sua intermitência ele pode reaparecer, repetido e entretanto novo, num contexto historicamente imprevisível. E esse seu surgimento vai afectar, de forma indelével, a história passada (e presente, e futura) desse fenómeno. O não-encapsulamento do passado no passado faz parte do carácter histórico da literatura e rege, em meu entender, os modos pelos quais ela se manifesta.

Para Buescu, o pensamento sobre a circulação literária não pode ignorar as ausências provisórias ou definitivas de obras que podem ressurgir ou ← 2 | 3 → desaparecer para sempre, como a de Lucrécio, desaparecida até inícios do século XV, ou o segundo livro da Poética de Aristóteles, aparentemente perdido para sempre, pois “a circulação literária é feita não apenas daquilo que manifestamente circula mas, também, daquilo que circula deficientemente ou, mesmo, é impedido (por diversos motivos) de circular.”

A própria posição do autor ou do leitor é algo a ser levado em conta, quando esse leitor/autor sabe que vem depois de um fenômeno literário anterior, e dele se reapropria para dar-lhe um sentido que necessariamente é diferente de antes, mas sem deixar de se referir àquela anterioridade. Por isso, Buescu aponta para o desafio interpretativo de fazer confluírem o passado e o presente:

Não podemos ler apenas a partir de “hoje” (embora sempre o façamos): temos também de reconhecer que estamos perante um outro modo de ler que, através da consciência do carácter intempestivo da matéria literária, a identifica como tendo chegado fora do seu tempo. Ler no ponto em que “passado” e “presente” se encontram, ler compreendendo que só a circulação literária pode permitir que convirjam e, entretanto, se mantenham diferenciados, torna-se deste modo um desafio hermenêutico que é, simultaneamente, um desafio histórico.

Também se podem atribuir características à temporalidade, como foi o caso de Witold Gombrowicz (1904–1969), escritor polonês radicado na Argentina, analisado por Olga Kempinska a partir de um quadro mais abrangente em que, a partir da década de 30 do século passado, a questão do tempo e da idade assumiu um significado de peso na teoria de cultura. Segundo Kempinska, Gombrowicz usou o conceito de imaturidade para opor-se, em vários níveis, ao que considerava maturidade. Em nível de literatura e cultura nacionais, o autor polonês considerava que haveria culturas “maduras”, nas quais a “forma” consolidada em tempos de longa duração se imporia e que possuiriam a força de circular impositivamente esta versão consolidada de “forma” nas culturas “imaturas” (como a polonesa ou a argentina). Por isso, Kempinska argumenta:

A cultura francesa é aos olhos do escritor o paradigma da cultura “madura”, pois é reconhecida por outras culturas enquanto o ponto de comparação e enquanto o modelo de imitação: “Aquela França, que ao longo dos séculos tornou-se o complexo internacional. Isso até pede uma análise” (Gombrowicz 1997a: 436). O fato ← 3 | 4 → de possuir uma “forma” e de poder impô-la a outros – e, nesse sentido, Borges é para Gombrowicz o escritor argentino mais maduro – é descrito, com viva antipatia, em termos de idade humana: “Eu conhecia há tempos as origens escondidas da minha parisfobia, eu sabia que essa cidade toca meu lado mais sensível, a idade, o problema da idade, e é certo que se eu estava de mal com Paris é porque se tratava de uma cidade ‘de mais de quarenta’” (Gombrowicz 1997b: 260). Ao invés vez de se fechar em uma falsa maturidade, Gombrowicz procura assumir sua inevitável imaturidade, tanto no sentido individual quanto cultural: “Se vocês execram a imaturidade, é porque vocês a têm dentro de si – mas, no meu caso, a imaturidade polonesa regula toda minha relação com a cultura” (Gombrowicz 1997a: 60).

Segundo Kempinska, Gombrowicz considera que a cultura “madura” significa também um fechamento dentro de um conjunto de saberes e discursos, sobretudo culturais, potencialmente limitador, entre outras coisas, porque significa pagar tributo a uma “forma” temporalmente distante, fechando a experiência estética: “[…] a maturidade, tal como compreendida por Gombrowicz, é também inseparável do erro e, assim, sendo uma ilusão não reconhecida enquanto tal, ela se aproxima paradoxalmente de seu contrário, da imaturidade.” Isso significaria que, nos âmbitos culturais em que predomina a imaturidade, ou seja, em que o peso da herança do passado é menor, e a “forma” é menos cristalizada e, portanto, mais fraca, seria também mais fácil esquivar-se à identificação com aquela herança, tanto no contexto individual quanto no domínio da estética, oferecendo resistência à circulação dela, nos seus termos originais.

Quando se fala da circulação de obras literárias e de outros bens culturais (filmes, músicas, pinturas, etc.) nem sempre também se presta atenção aos fatores envolvidos nesse processo. Mesmo quando o valor maior ou menor de uma obra lhe é conferido pelo fato de circular além de seu local de origem, são poucos os críticos que admitem o fato de que a circulação de uma obra além do seu lugar de origem depende não apenas de um suposto valor intrínseco dela, que seria “reconhecido” nos outros lugares onde ela circulou, mas também de uma série de outros fatores, como: a importância ou não do tema da obra para os seus novos lugares de inserção; a proximidade ou distância – real ou imaginada – entre o lugar de origem e o de reinserção; os interesses vigentes no lugar de reapropriação da obra, segundo os quais ela pode ser considerada relevante ou não; os obstáculos ← 4 | 5 → ou facilidades oferecidos à análise cultural comparativa dos sistemas literários e culturais locais, regionais, nacionais e internacionais, com suas respectivas hierarquias e práticas, etc.

Existem agentes político-econômicos cuja atuação e alcance é local, regional, ou mundial, e cuja presença ou ausência na circulação literária e cultural pode ser determinante. Esses agentes, compreensivelmente, trabalham sempre a favor de seus interesses, buscando contemplá-los através de estratégias variadas em ambientes em que oportunidades e limites estão presentes.

No caso dos agentes cujo âmbito de atuação é mundial, uma das práticas mais eficazes para aumentar o seu poder é aprovar normas globais que os beneficiem, em fóruns também globais onde podem fazer valer a sua força. No entanto, nem sempre o resultado lhes é favorável, no campo da literatura e da cultura, especialmente quando entram em jogo propostas cuja própria formulação enfatiza a contemplação de aspectos econômicos em assuntos cuja importância se considera ser maior ou mais especial. Um bom exemplo disto foi a proposta de se colocar todos os chamados “bens culturais” (livros, músicas, filmes, etc.) como meros itens na pauta internacional de comércio.

Como se sabe, na primeira década do século XXI, o governo norte-americano jogou todo o peso de sua influência para que, em fóruns internacionais, se julgassem os bens culturais da mesma forma que todos os outros bens que eram objeto de negociação entre países. Argumentava que, se os bens culturais podem ser comprados e vendidos, como todos os outros, então deveriam ser tratados de maneira igual, porque todos teriam o mesmo caráter de mercadoria no comércio internacional e deveriam ser regidos pelas mesmas regras que regem as compras e vendas das outras mercadorias. E que regras seriam essas?

A mais importante é que não deveria haver, por parte dos estados nacionais, nenhum tipo de regalia ou atenção especial dos respectivos governos ou sociedades, e se deveriam produzir e circular bens culturais do mesmo modo que outros produtos. Por exemplo, um filme norte-americano não deveria receber nenhum tipo de regalia, incentivo financeiro ou fiscal do governo dos EUA, e deveria não só ter entrada livre em todos os outros mercados nacionais, como ter concorrentes nesses mercados que também ← 5 | 6 → não recebessem nada do Estado em que se inserissem. Isso supostamente significaria a igualdade internacional de oportunidades para todos os produtores culturais e a liberdade para circulação das mercadorias que produzissem, sem a “interferência” governamental. Claro, seguindo de modo estrito este ponto de vista, a questão dos bens culturais teria de ser decidida exclusivamente pela Organização Mundial do Comércio (Jobim 2012).

O ponto de vista contrário a esse foi inicialmente defendido pelo Canadá e pela França, e partia do pressuposto de que bens culturais, embora tenham também características de mercadoria, não poderiam ser tratados da mesma maneira que cadeiras, pneus ou pregos. Por quê? Porque nos bens culturais concentram-se elementos importantes para o sentido da vida humana como um todo e para as diversas comunidades humanas em suas particularidades.

Além disso, a argumentação a favor da igualdade entre bens culturais e outros produtos, embora sustentada por um discurso que propunha igualdades formais, seria consolidadora de desigualdades reais, já que, de fato, a ideia de que todo o mundo tem ou deve ter as mesmas condições para a produção e consumo de bens culturais esbarra com a realidade de que produtores culturais em países que possuem mais recursos têm mais poder. Se determinados países contam com um “mercado” maior e mais rico para seus “bens culturais”, isto implica também maior facilidade para o financiamento e a divulgação destes bens não somente dentro de suas fronteiras nacionais, mas também fora. Esta facilidade permite também que o modo de ser e estar no mundo das populações destes países mais privilegiados circule mais amplamente em outros países.

O argumento dos que defendiam a “exceção cultural” à regra geral de circulação de mercadorias era o de que pode ser justificável alguma forma de intervenção que, entre outras coisas, procure tornar menos desiguais as oportunidades de produção e circulação de “bens culturais”. Afinal, se os bens culturais estivessem apenas submetidos às hegemonias e predominâncias que marcam as relações comerciais de “mercado”, isto geraria uma série de problemas. Claro, problemas não para as nações com maior poder econômico, que inundam o mercado de nações menos privilegiadas, com filmes, música, livros que configuram os sentidos dominantes naquelas ← 6 | 7 → nações poderosas, deixando de lado outros sentidos que seriam relevantes para comunidades nacionais menos privilegiadas.

De todo modo, a lógica vigente na proposta de colocar os bens culturais no âmbito da Organização Mundial do Comércio corresponde à hipótese levantada por Fabio Akcelrud Durão de que, em um ambiente plenamente regido pelo princípio de troca, circulação e mercadorização tendem a se equivaler, e a afetar as concepções de obra como entidade autônoma e autocontida:

Antes de [a circulação da literatura] tornar-se um tipo de abordagem, uma lente nova para lidar com o literário, ela pertencia ao setor de vendas das editoras, era o objetivo das estratégias de marketing. Quando muito, proporcionava dados para o historiador, ao oferecer um panorama extrínseco à experiência literária, uma visada que não diferenciava tanto romances de refrigerantes, e que permanecia estranha àquilo que em última instância justificaria a existência da literatura como sem função, algo inútil (cf. Durão 2008b). Não que a preocupação comercial e o descaso em relação à forma tenham desaparecido do horizonte; pelo contrário, é óbvio, estão mais fortes do que nunca e índices circulatórios permanecem instrumentos fundamentais para a indústria da cultura. A novidade, no entanto, veio com a possibilidade de a circulação, assim como a noção de leitura mencionada acima, poder reivindicar um caráter em alguma medida constitutivo do objeto. É como se ela se tornasse, mais do que uma mera via de acesso, um novo vetor de organização textual a ser acrescido ao rol dos tradicionais, como o tempo, o espaço, a caracterização dos personagens, ou o foco narrativo.

Se for considerada dentro do sistema econômico global em que se insere, no qual alterações no valor monetário podem derivar mais de citações em colunas da moda, postagens no Facebook, menções feitas por celebridades do que da própria articulação formal da obra, então merece uma atenção especial a hipótese de Durão, de que a facilidade ou aceleração da circulação de obras pela sua inserção no circuito contemporâneo da indústria cultural pode significar exatamente que “as obras literárias ambiciosas, aquelas que desejam existir como singularidades, terão que desenvolver estratégias de defesa contra sua própria circulabilidade”. Para Durão, a circulação é uma categoria imanente às obras literárias, ao invés de um adendo ou anexo, algo que ocorreria a posteriori, pois, como força constituinte, permite a reconceitualização de elementos literários corriqueiros, oferece a possibilidade ← 7 | 8 → de uma reconfiguração da história literária, e fornece um novo palco para a descrição do drama da literatura na contemporaneidade.

Como esse novo palco, agora, também é digital, uma série de outras questões surgem. Para Regueiro, Sanz e Llamas, embora possam existir intenções de neutralizar as diferenças culturais para avançar até uma ordem supostamente global ou um conhecimento cultural que possa se converter em tecido conectivo de comunidades globais – incluindo tentativas de se estabelecer uma cultura digital, ou cibercultura, que esteja acima e ultrapasse outras restrições culturais, de modo que seja compreensível a todos e se compartilhe através do meio digital –, há uma série de questões que devem ser levadas em consideração, como: a complexidade experimental de muitos textos de um certo cânon de literatura digital, que pode ser vista como causa ou consequência da distribuição reduzida dos mesmos (e da impossibilidade de sua globalização ao modo dos best-sellers); a tendência a globalizar-se sempre no sentido hipercolonial; a diversidade linguística real, que oferece resistência à padronização, seja pelo uso do inglês como nova língua franca global, seja pela utilização de um espanhol “neutro”; a existência de obras que incorporam internamente diversas traduções do mesmo texto, de forma que a tradução como ato criativo passa a fazer parte da obra.

Biographical notes

Jose Luis Jobim (Volume editor)

José Luís Jobim é Professor de Literatura e Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Estudos de Literatura da Universidade Federal Fluminense. Foi Presidente da Associação Brasileira de Literatura Comparada (ABRALIC) e escreveu dezesseis livros e setenta e três artigos em periódicos brasileiros e internacionais ao longo das três décadas de sua carreira. Suas publicações recentes sobre circulação literária e cultural incluem O diálogo Europa–Brasil na obra de Machado de Assis / Le dialogue Europe–Brésil dans l´oeuvre de Machado de Assis (Paris/Niterói: EDUFF, 2016) e «From Europe to Latin America», Journal of World Literature, vol. 1 (2016). Foi também visiting scholar em várias universidades estrangeiras, como Stanford University e a Universidad de la República (Uruguai).

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