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O Poeta-Teólogo

Revisitações literárias do imaginário bíblico em alguma poesia portuguesa do século XX

by Goncalo Placido Cordeiro (Author)
Monographs 234 Pages
Series: Mondes de langue portugaise, Volume 1

Table Of Content

  • Cobertura
  • Título
  • Copyright
  • Sobre o autor
  • Sobre o livro
  • Este eBook pode ser citado
  • ÍNDICE
  • I. NOVAS E VELHAS ALIANÇAS
  • 1.1. Um pacto de ressignificação
  • 1.2. A Bíblia, a crítica e a literatura comparada
  • 1.3. A Bíblia e a literatura em Portugal
  • II. POESIA E TEOLOGIA
  • 2.1. Fronteiras e relações
  • 2.2. Poesia de origem divina
  • 2.3. Histórias da interpretação
  • 2.4. O elo alegórico
  • 2.5. O poeta-teólogo e as metamorfoses do discurso teologal
  • III. O POETA-TEÓLOGO E SUAS DECLINAÇÕES: RUY BELO, DANIEL FARIA E TOLENTINO MENDONÇA
  • 3.1. HOMO MENSURA DEI. A dimensão sacro-profana em Ruy Belo
  • 3.1.1. O lugar teológico. Ou que importa tudo isso?
  • 3.1.2. O grande caudal bíblico
  • 3.1.3. Silêncio, ausência e morte: o rosto oculto de Deus
  • 3.1.4. Vencer o divino, sonhar o humano
  • 3.1.5. A medida do homem: habitar a terra e o poema
  • 3.2. O AVESSO DO EXPLICAR. Poesia e mística em Daniel Faria
  • 3.2.1. Incidências do discurso poético
  • 3.2.2. Iniciação ao verbo absoluto
  • 3.2.3. A dobra poética
  • 3.2.4. O poeta e a unção
  • 3.2.5. Eixo do mundo
  • 3.2.6. Em torno do centro: pedras, escadas, árvores, casas
  • 3.2.7. O tronco intertestamentário
  • 3.3. LER NO ESCURO. Poesia e hermenêutica em Tolentino Mendonça
  • 3.3.1. A noite abre meus olhos
  • 3.3.2. A palavra nocturna
  • 3.3.3. Regressar ao princípio
  • 3.3.4. Uma retórica da visão
  • 3.3.5. Do olhar turvo
  • 3.3.6. O círculo do ilegível
  • 3.3.7. Uma poética da revelação
  • 3.3.8. Palavra transfigurada e palavra sacral
  • IV. CONTRA-LIVRO, CONTRA MUNDUM. O CASO DE MIGUEL TORGA
  • BIBLIOGRAFIA

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I.
NOVAS E VELHAS ALIANÇAS

1.1. Um pacto de ressignificação

Este livro parte da constatação de que a Bíblia é o fundamento de uma mundividência simultaneamente teológica e literária, cuja dupla condição muitos dos seus leitores têm dificuldade em reconhecer. Estabelecer um pacto de ressignificação como forma de ir ao encontro do texto bíblico é o meu modo de dar expressão a algumas das inquietações epistemológicas que estão na origem deste livro. Ao evocar a noção de pacto neste contexto, faço-me valer da sua proximidade de outras figuras do imaginário bíblico como a aliança estabelecida entre Deus e os homens ou da própria estrutura do livro que se perfaz do Novo e Antigo Testamentos, designação que quer em hebraico (beríth) quer em grego (diathéke) está em todo o caso mais próxima da ideia de pacto do que da de legado.1 Apesar de a questão do legado memorial não poder ser arredada de um texto com a dimensão monumental da Bíblia, a minha proposta procura sobretudo ir ao encontro de um contrato de leitura que de algum modo recupera um pilar central da teoria do comparatismo, o tertium quid da construção do sentido, que opera a transformação do texto lido e do leitor pela experiência da leitura. De modo similar, a ideia de aliança permite estabelecer um acordo ou negociação entre duas ou ←9 | 10→mais partes, na procura de um compromisso a que cada uma delas se encontra vinculada. No argumento que sustenta este livro, o pacto em causa é o movimento dialéctico entre formas distintas de perspectivar o objecto bíblico, a saber, poesia e teologia. O ponto angular em que estes dois olhares se cruzam será, na proposta que aqui se apresenta, a figura do poeta-teólogo.

A palavra de abertura deste volume tem ainda de considerar o problema do horizonte de expectativas dos leitores2 cuja esfera de acção e pensamento possa ser tocada pela Bíblia. Ora, o espaço de reflexão que aqui se abre em torno do texto bíblico, bem como das suas implicações religiosas e literárias, procura desenconcontrar-se das possíveis noções de espera3 que são amiúde desencadeadas pela palavra ‘Bíblia’. Se, como adianta Jauss,

uma obra não se apresenta nunca, nem mesmo no momento em que aparece, como uma absoluta novidade, num vácuo de informação, predispondo antes o seu público para uma forma bem determinada de recepção, através de informações, sinais mais ou menos manifestos, indícios familiares ou referências implícitas (1993:66),

então este movimento de desencontro procurará o distanciamento necessário à renovação do olhar sobre um objecto tão enriquecido quanto desgastado por uma história secular de sucessivas sobreposições interpretativas, a fim de conceber o potencial de geração de leituras outras que a Bíblia continua a ser capaz de suscitar. O postulado jaussiano, situado no campo do que pode ser a ante-recepção de um texto pelos seus leitores, implica por outro lado a consideração da dimensão sígnica da Bíblia, aquilo que sobre ela tem sido convencionado em termos de “informações”, “sinais”, “indícios” e “referências”: ao tomarmos a Bíblia como signo, compreendêmo-la num referente concreto (variável em ←10 | 11→determinados contextos, e.g. católico, protestante4), num significante (a palavra em si, a par de outras formas terminológicas) e num significado a que se associam redes complexas de sentidos que se interpenetram e, muitas vezes, sobrepõem. Por esta via, em pleno campo saussuriano, se introduz o conceito operacional de ruptura, de óbvias ressonâncias babélicas (Steiner 1998), que alimenta esta reflexão e cuja exploração torna possível a abordagem da Bíblia através do olhar da literatura, numa linha de pensamento que à espera vem opor o desencontro de que falava.

A questão teórica da ruptura do signo bíblico tem consequências profundas no campo da interpretação e do reconhecimento significativo, na medida em que instaura um vector de disseminação textual, que passa pela dessemantização de um significado e pela ressemantização dos significantes. Começaria por destacar, com Maria Leonor Buescu, que

perdida para sempre a unidade primitiva da ‘língua do paraíso’ e com ela a relação ‘natural’ e necessária entre o signo e o referente, uma via parece ter-se conservado ainda aberta à possibilidade, senão de recuperar, pelo menos de evidenciar e conhecer (ou re-conhecer) a relação inicial: a etimologia. (1985:70)

É de lembrar, já que o convite à dimensão babélica do livro se justifica pela metonimização óbvia das relações entre o património bíblico e a etimologia linguística, que a palavra ‘Bíblia’ provém do grego biblia, um substantivo plural que significa ‘os livros’ e cuja acepção se deixou cunhar pela história de uma das mais famosas traduções do texto bíblico – a Septuaginta ou Tradução dos Setenta.5 Este grupo de textos (designação que ←11 | 12→não pode excluir uma forte componente de oratura6) manteve a marca da pluralidade nas suas possíveis designações em hebraico: miqra (proclamação pública), tanakh (Pentateuco, profetas, escritos), katuv (escritos), para nomear apenas algumas.7

Basta atentar na diferença entre palavra proclamada, palavra escrita e palavra traduzida, que compõem as diversas fases da evolução do texto bíblico, para problematizar uma eventual ideia unívoca de Bíblia, que foi afinal representando coisas diferentes ao longo da sua história. Pode, no entanto, dizer-se que o seu denominador comum é o de uma natureza antológica onde reside um potencial de biblioteca, de colecção de livros ←12 | 13→e, por conseguinte, de cânone, de um reduto de leituras obrigatórias, determinadas por um determinado conceito de auctoritas (de onde estão naturalmente excluídos os apócrifos8). Dizia Novalis, sobre a matriz primordial do livro, que “la Bible ne serait rien d’autre qu’un concept spécifique du genre livre” (apud Blumenberg 2007:276) e, com isso, enunciava o seu potencial produtivo e de metamorfose literária, ou seja, a dimensão plurimorfológica que, desde o início, assiste ao texto bíblico na sua capacidade de permanência e de sobrevivência às leituras.

Argumentar a questão da ruptura do signo bíblico é também considerar a sua possibilidade de dessemantização, o seu desgaste, a sedimentação e a fermentação de sentidos, em camadas que substituem ou complementam outros níveis de matéria bíblica. Pensar sobre o significado do texto bíblico não pode deixar de ter incidência sobre o modo como lemos a palavra texto, que em Roland Barthes era oposta às noções fixistas de obra ou objecto: é preciso entendê-lo num horizonte temporal que não exclua o presente da leitura e que possa acolher também os seus leitores por meio de uma consciência crítica tanto da densidade histórica do objecto como do exercício que qualquer revisitação interpretativa representa. É este o ponto em que o acto de leitura se desdobra num gesto de reflexividade analítica e produção enunciativa, em que interpretar significa comprometer-se, participar num diálogo entre sujeitos, onde a voz do texto e a voz do leitor se interdefinem. Nesta relação hermenêutica, texto e leitor tomam parte como sujeitos de compreensão activa, colaborando naquela que é a dimensão histórica do próprio texto, da sua contínua refeitura (o círculo hermenêutico de Schleiermacher, Dilthey, Heidegger e Gadamer) e, por conseguinte, da nossa própria construção enquanto entes leitores. No fundo, trata-se da elaboração da própria rede da memória cultural que não podemos deixar de pressupor no acto de ler, ponto relativamente ao qual não andaremos muito longe de Rosenberg quando afirma, ao referir-se também à Bíblia, que

←13 | 14→these works generated a cultural legacy, [and] the cultural experience they embody and the literary modes they employ are familiar to modern Western reader partly because this reader has learned to read, to some extent, with his eyes. (1984:31)

Está subjacente às palavras de Rosenberg o princípio fundamental de que na nossa leitura está implicada não apenas uma memória individual, mas a que resulta de uma experiência de leitura partilhada, de um legado genético cultural que enforma o corpo colectivo de cada indivíduo e a sua identidade de leitor. Quantas vezes aquilo que aceitamos como memória não é um produto convencionado (e, também nessa medida, sígnico), resultando de uma elaboração colectiva sobre objectos e experiências pessoais? Revisitar a Bíblia e o seu legado literário, no exercício que aqui se propõe, passará então por um convite a lidarmos com as nossas representações mentais do texto, as nossas memórias bíblicas, o quid bíblico que ainda foi capaz de permanecer na zona de penumbra da memória, já depois de o termos esquecido.9 Esta pode ser matéria sensível, cuja aproximação pode ocorrer numa área de conflito (num espectro que pode ir do figurado ao literal10), porque está em causa um texto que tem sido utilizado e apropriado por diversas instâncias de leitura e interpretação. Refiro-me à tutela com que a religião, a tradição ou a história das ideias, dos preconceitos e dos estereótipos, tem subordinado modos de pensar e agir em torno do livro e da ideia de Bíblia, bem como às disputas disciplinares relativamente a divergências epistemológicas e ←14 | 15→discursivas bem distintas entre si (sejam elas teológicas, históricas, filológicas ou literárias).

Uma tal rede de relações, tão plural nos seus modos de perspectivação da matéria bíblica, faz com que evocar, ler e pensar um livro como a Bíblia implique uma confrontação com as dinâmicas da suspeita e da suspeição. Se o vector da suspeita incorpora uma reacção exógena que paira sobre o trabalho do crítico e sobre as suas intenções, já o da suspeição representa a estratégia crítica de que o investigador tem de se munir endogenamente. Cada um destes vectores corresponde a duas comunidades de leitores: uma, ciosa da sua estabilidade, de uma doxa comum (conjunto de ideias, crenças e afectos) em relação ao que lê e sabe sobre a Bíblia; outra, que investe no questionamento da textualidade bíblica, dando a origem ao que poderia designar-se um fluxo de desestabilização de leituras.11 Ambas as instâncias do olhar se alimentam de uma desconfiança cujos efeitos ora se opõem ora favorecem a mudança. Enquanto a desconfiança metodológica do investigador se reveste do carácter da experimentação e do método, procurando esterilizar variáveis externas ou afectivas na busca de uma depurada (e não pura, porque não inocente) contemplação da natureza do objecto, os olhares que sobre o seu trabalho repousam, por sua vez, podem alimentar uma desconfiança defensiva (quando não ofensiva), no que diz respeito à abordagem de um monumento patrimonializado e a que, por essa razão, assiste um sentimento de pertença e propriedade em relação ao qual nem sempre se está disposto a fazer concessões.12←15 | 16→

Partir desta constatação é fundamental para reflectir sobre o que aqui se entende por problema de ressignificação bíblica, que pode ser endereçável a partir de fórmulas distintas daquelas que aqui sugiro. Convocar aquilo a que Roland Barthes em “De l’œuvre au texte” (1984), ensaio clássico no âmbito dos estudos literários, se refere por meio do conceito de deslizamento epistemológico pode ser uma delas. O que em Barthes vale como deslizamento interdisciplinar pode opor-se, de certo modo, ao corte e à ruptura (pela relativização dos pontos de referência), mas sem nunca deixar de ser, na leitura que aqui faço, uma forma de inquietude intelectual que aposta numa recusa do estatismo e num convite ao movimento, a que preside a dinâmica da descentralização, que para Barthes provinha da confluência profícua dos saberes disciplinares. Com a deslocação de um centro, as margens de um dado sistema tenderão a reorganizar-se sob o padrão de relações emergente, o que no dizer de Barthes “produit l’exigence d’un objet nouveau” (1984:69). Isto é tão válido quer falemos de paradigma (filosofia, epistemologia), de campo (física), como de gestalt (psicologia) ou da teoria dos polissistemas de Even-Zohar (1990).

Aquilo que está subjacente ao que Barthes designa como deslizamento pode ser iluminado pelo conceito que Lotman, em Universe of the Mind: A Semiotic Theory of Culture (1990), formula a propósito de fronteira e que constitui, como bem sublinha Helena Buescu, um “gesto fundador de ordenação cosmológica, pelo qual se distingue o ‘dentro’ e o ‘fora’ da semiosfera, mas pelo qual se postula o reconhecimento da capacidade de trânsito […] entre esse dentro e fora” (Buescu 2001:265). Tanto ruptura, como transgressão ou deslizamento apontam para a distância que permeia o espaço entre as coisas e o nome que lhes damos, para uma não-coincidência entre as palavras e as coisas (Foucault), mas fazem-no segundo o modo como nos dispomos a atravessar esse mesmo espaço – rompendo, transgredindo, deslizando: todas elas se apresentam como formas de travessia. É exactamente este o ponto que Barthes formula a partir do conceito de texto, a que voltaremos.

Mantém-se por isso a questão: continua a Bíblia a indexar-se ao corpo textual que pretende designar ou ter-se-á tornado uma fronteira longínqua que impede o acesso ao seu próprio referente, uma espécie de rasura de si própria? Nesse caso, a ruptura do signo poderá constituir o problema em si mas também a superação mesma dessa “relação natural” irrecuperável, como lhe chamou Maria Leonor Buescu, entre signo e referente. Em virtude da tensão ocasionada pela ruptura, o título que ←16 | 17→serve de máscara (nas suas valências, também bakthinianas13, de ocultação e revelação) a uma obra pode desprender-se dela, deixando-a aberta à releitura; e assim, na linha de Lotman e de Guillén, a fronteira que isola e separa converte-se em ponto de passagem.

Details

Pages
234
ISBN (PDF)
9782807615717
ISBN (ePUB)
9782807615724
ISBN (MOBI)
9782807615731
ISBN (Book)
9782807614208
Language
Portugues
Publication date
2021 (July)
Published
Bruxelles, Berlin, Bern, New York, Oxford, Warszawa, Wien, 2021. 234 pp.

Biographical notes

Goncalo Placido Cordeiro (Author)

Gonçalo Cordeiro é maître de conférences na Universidade Paris Nanterre, tendo ensinado na Universidade de Estrasburgo, na Universidade Nacional de Timor-Leste e na Universidade de Macau. Completou um doutoramento em Literatura Comparada pela Universidade de Lisboa, sendo membro integrado do Centre de Recherches du Monde LUSophone (CRILUS) e colaborador do Centro de Estudos Comparatistas da Universidade de Lisboa. Os seus interesses de investigação abrangem as relações entre discurso religioso e a literatura portuguesa, metamorfoses da memória clássica e bíblica, o intercâmbio este/oeste na crítica comparatista.

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