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Escritoras portuguesas no tempo da Ditadura Militar e do Estado Novo

by José Manuel da Costa Esteves (Volume editor) Iabel Henriques de Jesus (Volume editor) Teresa Sousa de Almeida (Volume editor)
©2023 Edited Collection 218 Pages
Series: Mondes de langue portugaise, Volume 3

Summary

Este livro analisa as condicionantes da produção literária das mulheres, durante
as quase cinco décadas do regime autoritário português, de 1926 a 1974, e os
mecanismos de invisibilidade que caraterizaram, muitas vezes, a receção das
suas obras. Ao problematizarem o contexto sociopolítico da Ditadura Militar e do
Estado Novo, estes estudos procuram compreender as motivações que levaram
um grande número de autoras a escrever, as suas estratégias de publicação, a
marginalização de que foram alvo, sem esquecer o papel da crítica literária e a
questão do cânone.
A obra tem como objetivo estudar estas escritoras, quase sempre esquecidas pela
instituição literária, e integrá-las no património literário português, procurando,
assim, torná-las visíveis, ao destacar também o papel determinante que
desempenharam na sociedade do seu tempo. Neste sentido, contribui para a
elaboração da História das Mulheres, em Portugal.

Table Of Contents

  • Cobertura
  • Título
  • Copyright
  • Sobre o autor
  • Sobre o livro
  • Este eBook pode ser citado
  • ÍNDICE
  • INTRODUÇÃO
  • I RESISTÊNCIAS
  • IRENE LISBOA, A “DESAFIADORA DE TODAS AS ORDENS ESTABELECIDAS” (Sara Marina BARBOSA)
  • OS ÚLTIMOS DIAS DO FASCISMO PORTUGUÊS: MARIA ARCHER CONTRA A CENSURA SALAZARISTA (Armanda MANGUITO-BOUZY)
  • ILSE LIEBLICH LOSA (1913–2006): DE EXILADA À OPOSIÇÃO ANTIFASCISTA SOB CÉUS ESTRANHOS (João ESTEVES)
  • (RE)VER A MADONA DE NATÁLIA CORREIA: A LIBERDADE SEXUAL FEMININA NÃO CENSURADA (Vivian LEME FURLAN)
  • MEMÓRIA, CABO VERDE E A DITADURA: A ESCRITA INTER/DITA DE ORLANDA AMARÍLIS (Joana PASSOS)
  • II MEDIAÇÃO E RELAÇÕES (INTER)CULTURAIS
  • A GRANDE ALIANÇA DE ANA DE CASTRO OSÓRIO (Patrícia ANZINI)
  • NATÉRCIA FREIRE E O SUPLEMENTO LITERÁRIO ARTES E LETRAS (Elizabeth OLEGÁRIO)
  • “ONDE ESTÁ O MENINO JESUS?”, PERGUNTA NATÁLIA CORREIA (Antonio Augusto NERY)
  • MARIA LAMAS E ALICE VIEIRA EM DIÁLOGO (Renata FLAIBAN ZANETE)
  • III ESCRITORAS SILENCIADAS
  • UM QUARTO PARA VER O MUNDO: ERRÂNCIA DA MEMÓRIA E NOMADISMO INTERIOR EM TERRA DE NOD, DE JUDITH NAVARRO (Gonçalo CORDEIRO)
  • A ESCRITORA MARIA CECÍLIA CORREIA (1919–1993) E A SUA OBRA (Eleonor CASTILHO)
  • NATÁLIA NUNES: O ESTRANHO CASO DA SUA INVISIBILIDADE (Teresa SOUSA DE ALMEIDA)
  • ANÚNCIO DE CASAMENTO E OUTRAS NOVELAS DE PATRÍCIA JOYCE: O ANÚNCIO DE UMA OBRA (José Manuel DA COSTA ESTEVES)
  • IV NOVOS CAMINHOS
  • FERNANDA BOTELHO, XERAZADE DOS ANOS 60 (Agnès LEVÉCOT)
  • MAINA MENDES DE MARIA VELHO DA COSTA: UM PACTO CHAMADO MULHER (Isabel HENRIQUES DE JESUS)
  • A MORTE DA MÃE DE MARIA ISABEL BARRENO, UMA ARMA DE DESORGANIZAÇÃO TOTAL (Marina BERTRAND)
  • MARIA GABRIELA LLANSOL: O “CORP’A’SCREVER” ENTRE AS DOBRAS DO ESPAÇO (Ana PAIXÃO)
  • Obras publicadas na série

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INTRODUÇÃO

Este livro reúne contribuições apresentadas no Colóquio “Ver/Rever a escrita de mulheres (1926–1974)”, realizado em Lisboa, a 5 e 6 de março de 2020, e na Jornada de Estudos “Voir/Revoir l’écritures des femmes (1926–1974) au Portugal”, que decorreu em Paris, a 5 de outubro do mesmo ano. Estes dois encontros integram-se no projeto “Escritoras de língua portuguesa no tempo da Ditadura Militar e do Estado Novo em Portugal, África, Ásia e países de emigração”, financiado pela Fundação Calouste Gulbenkian, que reúne investigadores e investigadoras do Instituto de Estudos de Literatura e Tradição (IELT), de Faces de Eva. Estudos sobre a Mulher/Centro Interdisciplinar de Ciências Sociais (CICS.NOVA), da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, bem como do Centre de Recherches Interdisciplinaires sur le Monde Lusophone (CRILUS), Unité de recherche Études Romanes, da Universidade Paris Nanterre.

Se excluirmos o caso das autoras canónicas, poder-se-á dizer que existem poucas obras que, de uma forma global, analisem a produção literária das escritoras portuguesas durante a Ditadura Militar e o Estado Novo. Hilary Owen e Cláudia Pazos Alonso (2011), no seu livro Antigone’s Daughters? – Gender, Genealogy, and the Politics of Authorship in 20th-Century Portuguese Women’s Writing escrevem: “[…] the formal position of women writers in relation to the national cultural memory that is inscribed in literary histories, canons, and institutional critical practices has remained largely that of an isolated minority” (Owen e Alonso 2011: 13). A obra analisa o caso de seis mulheres escritoras já consagradas pelo cânone da literatura portuguesa – Florbela Espanca, Irene Lisboa, Agustina Bessa Luís, Natália Correia, Hélia Correia e Lídia Jorge. Ali se chama a atenção para a necessidade urgente de um projeto que possa recuperar um conjunto de mulheres esquecidas pela instituição literária: “it should be emphasized that this is not a project devoted to archaelogical retrieval of lost women’s work although we fully acknowledge the political urgency of such project in the wider field of feminist literary studies in Portugal” (ibidem: 14).

Na década de 80, os estudos de Isabel Allegro de Magalhães foram pioneiros, ao porem em destaque a escrita feminina, assunto que pouco ←11 | 12→preocupava a comunidade científica portuguesa. O desconhecimento da obra destas autoras contribuiu para que se tenha feito uma análise incompleta da sua produção, o que é patente na larga maioria das histórias da literatura e dos dicionários literários, como nota Chatarina Edfeltd, no seu livro publicado em 2006, Uma história na História: representações da autoria feminina na história da literatura portuguesa do século XX.

Ana Paula Ferreira (2000) tentou recuperar as mulheres que escreveram nos anos 1940, encontrando uma explicação para o seu silenciamento posterior. As suas obras afastam-se dos dois movimentos dominantes na época, ou seja, dos escritores da Presença e do neorrealismo, sendo identificadas numa categoria – literatura feminina – que terá estado na origem da sua marginalização. Resgatou nomes importantes, alguns dos quais completamente esquecidos, ao incluir contos de Irene Lisboa, Lília da Fonseca, Natércia Freire, Raquel Bastos, Patrícia Joyce, Matilde Rosa Araújo, Maria Archer, Heloísa Cid e Manuela Porto. Elaborou também uma lista de vinte e seis autoras com obras de ficção publicadas na década de 40, incluindo notas biobibliográficas de grande utilidade. No entanto, não há estudos semelhantes para as outras décadas do século XX.

Paula Morão, que editou a obra completa de Irene Lisboa (entre os anos 1991 e de 1999) e a quem se devem trabalhos muito importantes sobre as escritoras desta época, publicou um artigo, no qual evidencia um conjunto muito significativo de nomes a exigir um estudo aprofundado, num volume intitulado Femmes oubliées dans les arts et les lettres au Portugal (2016), que representa um esforço importante de recuperação das mulheres esquecidas pela instituição literária e artística portuguesa.

Partindo deste estado da arte, o projeto “Escritoras língua portuguesa no tempo da Ditadura Militar e do Estado Novo em Portugal, África, Ásia e países de emigração” visa integrar a escrita produzida por mulheres dentro do património português, uma vez que tradicionalmente o cânone da literatura portuguesa é essencialmente masculino, mesmo no que diz respeito ao século XX. Para que este objetivo mais vasto se cumpra, propõe-se catalogar e analisar a produção literária das autoras que publicaram nesta época, elaborando uma base de dados online, de acesso livre. Esta pesquisa constitui uma componente estruturante, desencadeadora de um trabalho mais vasto que está, em parte, por realizar sobre as condições de produção literária das mulheres no período em análise. De igual forma, tentar-se-á estudar, caso a caso, as razões da fraca ou nula visibilidade posterior destas autoras.

←12 | 13→A base de dados1 pressupõe a elaboração de uma lista, tão exaustiva quanto possível, das escritoras que tenham publicado livros de prosa, poesia e teatro, incluindo diários, memórias, biografias e autobiografias, recorrendo a fontes diversas. Foi criada uma ficha individual para cada autora identificada, com diferentes campos que incluem dados biográficos, bibliográficos, e outros elementos de contextualização da sua obra e da forma como se inseriu no campo literário, recorrendo a especialistas e membros da equipa de investigação. Foram também elencadas as traduções existentes, determinando o grau de internacionalização atingido. Um campo específico chama a atenção para as sociabilidades, uma vez que, com exceção de alguns casos concretos, não se sabe como estas escritoras se relacionaram entre si e com os vários grupos que se afirmaram nas décadas estudadas. O projeto tem permitido revelar redes desconhecidas.

Os resultados têm sido surpreendentes, não só em relação ao número de autoras encontradas, como também no que concerne a sua produção literária, por vezes, muito extensa. Detetaram-se várias situações: houve autoras que, depois de terem publicado uma ou duas obras, em geral com uma fraca receção, desistiram e deixaram de escrever, independentemente da qualidade que demonstraram, como se tivesse deixado de valer a pena continuar, por vários motivos, muitos deles de ordem pessoal e familiar. Há carreiras truncadas. Outras escritoras continuaram sempre a publicar, com críticas favoráveis, paternalistas ou demolidoras, numa época em que as mulheres estavam, em geral, arredadas das revistas e das páginas literárias dos jornais, situação que começou a melhorar, a partir sobretudo da década de 60, do século XX. Normalmente, e como se verá, a larga maioria da crítica era feita por homens, embora houvesse exceções. Muitas vezes, as obras das mulheres tinham um destaque menor, nem sempre sendo recenseadas.

Com a realização destes dois encontros do projeto, a equipa procurou alargar o âmbito da sua investigação e descobrir novos caminhos. Sara Marina Barbosa abre a primeira parte deste livro, intitulada “Resistências”, com um artigo sobre Irene Lisboa (1892–1958), em que analisa a repressão de que esta escritora foi vítima, por parte do Estado Novo. Apesar de censurada, reprimida e impedida praticamente de dar aulas, nunca desistiu de escrever nem de participar politicamente enquanto ←13 | 14→cidadã ativa. Centrando-se em Os Últimos Dias do fascismo português, de Maria Archer (1899–1982), Armanda Manguito-Bouzy analisa a luta desta autora contra a censura, bem como o seu exílio no Brasil, onde publicou o livro em questão, que conta o processo de Henrique Galvão. Teve livros proibidos, a sua casa foi invadida pela PIDE e os jornais conservadores não a pouparam. João Esteves apresenta-nos uma face menos conhecida de Ilse Lieblich Losa (1913–2006), judia, fugida do nazismo. Instalada em Portugal, lutou contra o regime de Salazar, apesar da experiência aterradora por que tinha passado. Vigiada pelas várias polícias políticas do Estado Novo, aderiu à Delegação do Porto da Associação Feminina pela Paz, bem como à Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto.

Vivian Leme Furlan analisa a obra A Madona, de Natália Correia (1923–1993), mostrando a sua luta em prol da liberdade sexual da mulher, desconstruindo, com coragem e desassombro, o estereótipo feminino do Estado Novo, que via a mulher como um ser puro, ingénuo e maternal. Por outro lado, a autora mostra como esta escritora cria um novo discurso, inovando também a nível da estrutura narrativa que utiliza no seu livro.

Recuperar as autoras africanas de língua portuguesa é o objetivo do artigo de Joana Passos, que analisa a obra de Orlanda Amarílis (1924–2014), escritora cabo-verdiana que viveu a maior da vida em Lisboa e denunciou, nas suas obras, o regime colonial, chamando a atenção para a pobreza da população e para o ambiente corrupto da administração local.

A segunda parte deste livro, intitulada “Mediação e relações (inter)culturais”, inicia-se com um artigo de Patrícia Anzini, que analisa a forma como Ana de Castro Osório (1872–1935) construiu redes de sociabilidade entre Portugal e o Brasil, desconstruindo o projeto transatlântico desta pioneira. Elizabeth Olegário estuda o caso particular da escritora Natércia Freire (1920–2004) que, entre 1954 e 1974, dirigiu o suplemento literário Artes e letras, do Diário de notícias, numa altura em que a crítica literária era predominantemente masculina, dando voz a inúmeras escritoras cujos livros eram recenseados e cujos artigos eram publicados. Antonio Augusto Nery foca um aspeto particular da obra de Natália Correia – o seu interesse pela cultura e religiosidade popular –, através da leitura do conto “Onde está o Menino Jesus?”, que subverte a conceção do catolicismo, proposta pelo Estado Novo. Finalmente, Renata Flaiban Zanete estuda a influência de Maria Lamas (1893–1983) ←14 | 15→sobre Alice Vieira, que encontrou em Paris, quando esta, grande mediadora cultural, se encontrava exilada.

Details

Pages
218
Year
2023
ISBN (PDF)
9782875744791
ISBN (ePUB)
9782875744807
ISBN (Softcover)
9782875744784
DOI
10.3726/b20557
Language
Portuguese
Publication date
2023 (April)
Published
Bruxelles, Berlin, Bern, New York, Oxford, Warszawa, Wien, 2023. 218 pp.

Biographical notes

José Manuel da Costa Esteves (Volume editor) Iabel Henriques de Jesus (Volume editor) Teresa Sousa de Almeida (Volume editor)

José Manuel da Costa Esteves é responsável pela Cátedra Lindley Cintra do Camões - IP na Université Paris Nanterre onde integra o grupo de investigação CRILUS e do qual é diretor-adjunto. É membro da Associação Portuguesa dos Críticos Literários, do Conselho Editorial das revistas Colóquio Letras, Faces de Eva. Estudos sobre a Mulher, Convergência Lusíada e Cahiers du Crepal. Os seus interesses de investigação abrangem a didática das línguas, das políticas linguísticas e culturais e da literatura portuguesa moderna e contemporânea. Isabel Henriques de Jesus é diretora do grupo de investigação Faces de Eva. Estudos sobre a Mulher e da revista científica com o mesmo nome. É coordenadoraadjunta do projeto “Escritoras de língua portuguesa no tempo da Ditadura Militar e do Estado Novo em Portugal, África, Ásia e países de emigração”. Os seus interesses de investigação centram-se na literatura portuguesa de autoria feminina e nos estudos feministas e de género. Teresa Sousa de Almeida é Professora Associada reformada da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, da Universidade Nova de Lisboa e investigadora do IELT. Tem-se dedicado ao estudo da literatura portuguesa e francesa do século XVIII. Dirigiu dois projetos sobre a escrita de mulheres, anterior ao século XX, financiados pela FCT. Tem escrito sobre as obras de Luís Cardoso, Maria Teresa Horta, Mário de Carvalho, Natália Nunes e Nuno Júdice. Neste momento, dirige o grupo de investigação “Escritoras de língua portuguesa no tempo da Ditadura Militar e do Estado Novo em Portugal, África, Ásia e países de emigração”.

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