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O Poeta-Teólogo

Revisitações literárias do imaginário bíblico em alguma poesia portuguesa do século XX

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Goncalo Placido Cordeiro

Este livro propõe a reconsideração do estado das relações entre a Bíblia e a literatura em torno de um pacto, de longa tradição, firmado entre poesia e teologia. A questão da dessemantização bíblica constitui foco de uma inquietação, ao verificar como a Bíblia tem sido sujeita à usura sistemática de uma lógica interpretativa, de acantonamento teológico, que de algum modo encapsulou o objecto bíblico e o exauriu. A proposta aqui apresentada investe na análise da obra de quatro poetas portugueses do século XX de modo a interrogar neles os efeitos da solicitação interpretativa do texto bíblico, elevado à categoria de matéria literária por excelência. Os diferentes modos de revisitação de uma tradição literária, religiosa e cultural serão tomados como manifestações de um fazer poético sensível às potencialidades de significação da herança bíblica, a que tanto Ruy Belo, Daniel Faria, Tolentino Mendonça, como Miguel Torga se encontram vinculados, entroncando assim numa linhagem poética que aqui se declina em torno dos eixos paradigmáticos do sagrado e do profano, da mística, da hermenêutica e da heterodoxia.

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IV. CONTRA-LIVRO, CONTRA MUNDUM. O CASO DE MIGUEL TORGA

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Uma das utopias distintivas do enciclopedismo alemão é a ideia hegeliana de que o livro ideal e absoluto comportaria dentro de si o seu contra-livro. Novalis buscara no seu idealismo mágico uma fórmula romântica da totalidade do conhecimento livresco na súmula bíblica (cf. Blumenberg 2007:276). Este desejo é passível de tomar múltiplas formas. Ao longo deste livro sobre as revisitações do imaginário bíblico, em que fui explorando formas possíveis de aliança entre poesia e teologia, encontrámos formulações diversas dessa categoria ancestral, na linha de uma tradição forjada ao longo dos séculos, que é o poeta-teólogo. As suas metamorfoses declinam-se sob a forma pactos diversos: entre o sagrado e o profano (Ruy Belo), entre poesia e mística (Daniel Faria) e entre poesia e hermenêutica (Tolentino Mendonça). No entanto, é preciso reconhecer a existência de outras formas de revisitação do intertexto bíblico, nomeadamente das vozes poéticas que encenam a recusa da herança bíblica e que de algum modo se assumem como contestarias desta aliança entre poesia e teologia. Creio que é um tal posicionamento crítico que encontramos na poesia de Miguel Torga, que Eduardo Lourenço identifica como a expressão mais significativa de uma linha de contestação religiosa na literatura portuguesa, pontuada pela obra de Antero de Quental, Guerra Junqueiro ou Aquilino Ribeiro. É precisamente deste desacordo que trata este capítulo, colocado no lugar de...

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