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Queering Paradigms IVa

Insurgências «queer» ao Sul do equador

by Sara Elizabeth Lewis (Volume editor) Rodrigo Borba (Volume editor) Branca Falabella Fabrício (Volume editor) Diana de Souza Pinto (Volume editor)
Edited Collection X, 298 Pages
Series: Queering Paradigms, Volume 4a

Summary

Queering Paradigms IVa: Insurgências queer ao Sul do equador, junto com o volume Queering Paradigms IV: South-North Dialogues on Queer Epistemologies, Embodiments and Activisms (Lewis et al. 2014), divulga de forma multilíngue pesquisas apresentadas no 4° Congresso Internacional Queering Paradigms (QP4), sediado no Rio de Janeiro, Brasil. Ambos os volumes compartilham o objetivo de analisar o status quo e os desafios para o futuro dos Estudos Queer a partir de uma perspectiva inter/multidisciplinar, concentrando-se sobre as relações entre os eixos Sul-Norte. O presente livro oferece capítulos escritos em português e espanhol, línguas subalternas na academia global, visando a privilegiar vozes e conhecimentos do Sul. Os trabalhos reunidos neste volume insurgem contra a colonização epistemológica dos corpos que habitam o Sul global e apontam para os problemas que surgem quando a(s) Teoria(s) Queer do Norte são aplicadas sem adaptação a outros contextos. Além de violências epistemológicas, a falta de atenção ao que acontece ao sul do equador pode levar a uma paralização do debate queer. O convite que esses capítulos fazem é um desafio a olhar para onde não se costuma olhar e ouvir as vozes que não se costuma ouvir, de forma a devolver ao queer seu potencial de contestação.
Queering Paradigms IVa: Insurgências queer ao Sul do equador, junto con el tomo Queering Paradigms IV: South-North Dialogues on Queer Epistemologies, Embodiments and Activisms (Lewis et al. 2014), difunde de forma multilingüe algunas de las investigaciones presentadas en el 4º Congreso Internacional Queering Paradigms (QP4), en Río de Janeiro, Brasil. Ambos tomos comparten el objetivo de analizar el estado actual y los desafíos para el futuro de los Estudios Queer desde una perspectiva inter/multidisciplinaria, concentrándose sobre las relaciones entre el eje Sur-Norte. El presente libro ofrece capítulos escritos en portugués y español, lenguas subalternas en la academia global, con la pretensión de privilegiar voces y conocimientos del Sur. Los trabajos reunidos en este tomo se insurgen contra la colonización epistemológica de los cuerpos que habitan el Sur global y apuntan a los problemas que surgen cuando la(s) Teoría(s) Queer del Norte son aplicadas sin adaptación a otros contextos. Además de las violencias epistemológicas, la falta de atención a lo que acontece al sur del Ecuador puede llevar a una paralización del debate queer. La propuesta de estos capítulos es un desafío a mirar para dónde no se suele mirar y a escuchar las voces que no se suelen escuchar, para devolverle al queer su potencial de contestación.

Table Of Content

  • Capa
  • Título
  • Copyright
  • Sobre o autor/o editor
  • Sobre o livro
  • Este eBook pode ser citado
  • Sumário
  • Prefácio
  • Referências
  • Introdução: Cu-irizando desde o Sul (Elizabeth Sara Lewis / Rodrigo Borba / Branca Falabella Fabrício / Diana de Souza Pinto)
  • Referências
  • Primeira parte: Cu-irizando epistemologias e regimes de verdade
  • Nuestro sexo, nuestra propaganda y la presidenta, o nuestro culo es público y revolucionario (Alípio DeSousa Filho)
  • Referencias
  • A invenção da transexualidade: discursos, práticas e modos de subjetividades (Maria de Fatima Lima Santos)
  • Apresentação
  • Os dispositivos
  • A invenção das transexualidades
  • Saberes trans e subversões da norma
  • Possibilidades
  • Referências
  • Quem pode ser queer: por modos de pensar masculinidades à deriva (Rafael Aragão)
  • Introdução
  • Ficções normais
  • Homens estranhos
  • Referências
  • Ao Sul da Teoria: notas sobre Teoria Queer e a geopolítica do conhecimento (Richard Miskolci / Larissa Pelúcio)
  • A cor do queer, ou a superação do mito do excepcionalismo norte-americano
  • Cutucando o queer
  • Referências
  • Teorias contra-hegemônicas: discutindo produção de conhecimento a partir de uma pesquisa sobre discursos de autoajuda em rede (Lara Roberta Rodrigues Facioli)
  • Relacionamentos puros, impuros e teoria social
  • Testosterona, serotonina e teoria social
  • Considerações finais
  • Referências
  • Cuirizar los derechos sexuales (Mabel Alicia Campagnoli)
  • Introducción
  • Biopolíticas
  • Dispositivos de poder
  • Modos de la soberanía
  • Nivel micro: alianza, sexualidad y género
  • Nivel macro: Estado, nacimiento y “habeas corpus”
  • Legislación argentina
  • Ley de Identidad de Género
  • Despenalización del aborto
  • Los derechos sexuales se cuirizan
  • Referencias
  • Segunda parte: Cu-irizando relações sociais e práticas de resistência
  • Queerizando las normas familiares: el caso de la ley de matrimonio igualitario en Argentina (Caterina Rea)
  • Introducción
  • Discursos de la igualdad y críticas queer
  • Matrimonio igualitario y proceso democrático
  • Paradoja del pedido por matrimonio e importancia del discurso igualitario
  • Conclusión
  • Referencias
  • Deseo y expropiación: discutiendo representaciones de la pasión sexual (Alberto E. F. Canseco)
  • Butler y Hegel: Extravíos del reconocimiento
  • J. Butler vs J. Benjamin: el Otro del Otro
  • Pasión sexual
  • Representaciones de la pasión sexual
  • Plan B (2009): Entre miradas y silencios
  • Les amours imaginaires (2010): de cámaras lentas y coqueteos cruzados
  • Viudas (2011): imágenes superpuestas y la (ir)representabilidad de una tríada que no fue
  • Consideraciones finales
  • Referencias
  • Películas
  • A figuração da amizade e a tensão homoerótica em contos de Mário de Andrade (Paulo R. Moura da Silva)
  • Introdução
  • Procedimentos narrativos na construção da ambiguidade, da elipse e do recalque
  • Considerações finais
  • Referências
  • Alguns entrelaçamentos sobre corporalidades, estética camp e ficcionalizações de si (Aureliano Lopes)
  • Um corpo que camp
  • Nasce uma estrela camp
  • A artificialidade de si
  • Referências
  • Machorras y areperas en espacios públicos en Colombia (Andrea Juliana Enciso)
  • Introducción
  • Colombia: tierra del silencio femenino
  • “Mi cuerpo es mi campo de batalla”: género, imágenes y ultra-representación del cuerpo femenino lésbico
  • Serguei LTDA: “tengo una identidad dislocada”
  • ¿Alguien dijo lesbiana? Ángela Robles y el placer en los insultos lésbicos
  • Conclusión: machorras y camioneras: el orgullo de la Otredad
  • Referencias
  • Imágenes
  • A desconstrução do gênero e da sexualidade a partir de uma análise do espetáculo teatral Agreste (Sophia Padilha Menezes)
  • Introdução
  • Chegue, que a peça vai começar!
  • Oxente!!! Cadê a trouxa?
  • Cruel … a natureza é!
  • Referências
  • Considerações abstratas para a adoção de um terrorismo queer concreto (Thiago Álvares Feital)
  • Introdução
  • Por um terror concreto
  • O corpo como artefato
  • O corpo como forma e o gênero como significado
  • Considerações jurídicas sobre os corpos
  • Espaço e lugar: do corpo à cidade
  • Apontamentos jurídicos sobre o espaço
  • Conclusão
  • Referências
  • Sobre xs autorxs
  • Índice remissivo
  • Obras publicadas na série

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Prefácio

A rede acadêmico-política Queering Paradigms (QP, doravante), seu congresso internacional e série de livros emergiram como uma resposta de engajamento global às materializações locais das artimanhas heteronormativas, nomeadamente a recusa em reconhecer a diferença e a consequente desumanização de sujeitos vistos como “diferentes” (Butler [2004] 2006). O projeto QP foi fundado em 2008 pelx professorx Bee Scherer com o objetivo de minar normatividades e os processos de exclusão e hierarquização que as acompanham e são por elas reproduzidas.

Hetero- e homonormatividades têm sido o principal foco de crítica da rede Queering Paradigms. O congresso QP1 foi realizado na Canterbury Christ Church University em 2009. QP2, sua segunda encarnação, foi realizado em 2010 na Queensland University of Technology, Austrália e contribuiu significativamente para debates de políticas públicas. Em 2011, no campus de Oneonta da State University of New York, EUA, o QP3 reuniu uma ampla gama de ativistas e pesquisadorxs queer de diferentes afiliações disciplinares e localidades geográficas. Porém, nesses três congressos, representantes da América do Norte e da Europa excediam numericamente representantes do Sul global. Tal trajetória salientou outra normatividade a ser implacavelmente combatida: o projeto QP, embora sem intenção, se tornava vítima da norte-normatividade. Com o conceito de norte-normatividade queremos enfatizar as dinâmicas geográficas desiguais de produção e circulação de teorias queer (e que, infelizmente, não se restringem a elas).

O QP4, realizado no Rio de Janeiro, Brasil, em 2012, foi nossa primeira tentativa de contestar a lógica dessa armadilha epistemológica. Tal empreitada foi fortalecida com a realização do QP5 em Quito, no Equador, no ano de 2014. Em ambos os eventos, a presença de pesquisadorxs e ativistas latinoamericanxs foi forte. No que se refere ao QP4, que deu origem ao díptico de livros cujo objetivo é intensificar o diálogo Norte-Sul nas teorizações e ← vii | viii → ativismos queer, embora a presença de representantes do Norte global tenha sido ainda bastante forte, xs participantes do hemisfério sul tiveram grande visibilidade. A qualidade das redes construídas durante o QP4 sublinhou o fato de que pesquisadorxs do Sul têm ativamente incorporado teorizações feitas no e para o Norte global; o oposto, no entanto, não acontecia (e ainda não acontece). Raramente pesquisadorxs do Norte global citavam ou reconheciam a efervescência queer da academia abaixo da linha do equador. Tal discrepância está ligada ao que identificamos no primeiro volume do díptico – intitulado Queering Paradigms: South-North dialogues on queer epistemologies, embodiments and activisms – como norte-normatividade: o Norte global é onde as teorias são produzidas para exportação; o Sul é o lugar para onde essas teorias viajam verticalmente. O Norte é o sujeito do conhecimento; o Sul é ainda seu objeto.

Este livro, segundo volume do díptico cujo objetivo é minar essa geopolítica do conhecimento, vem para mostrar que o Sul é, sim!, sujeito da/na academia e tem produzido conhecimento de qualidade com potencial político para mudança social. Orgulhamo-nos de publicar o primeiro livro da série QP totalmente em línguas não hegemônicas para circulação de conhecimento queer: português e espanhol. O primeiro volume da dupla foi publicado em 2014 em inglês. Os trabalhos desses volumes foram apresentados durante o QP4 no Rio de Janeiro.

Para finalizar, a equipe editorial gostaria de agradecer as seguintes pessoas que nos ajudaram a realizar esse projeto. Obrigado ao nosso time de pareceristas: Alípio DeSousa Filho, Leandro Colling, Richard Miskolci, Larissa Pelúcio, Fátima Lima, Joana Plaza Pinto, Mario Lugarinho e Maria Amelia Viteri e x editorx da série QP, Bee Scherer. Somos imensamente gratxs à equipe da Peter Lang, em especial Lucy Melville. Sem o apoio de algumas instituições brasileiras esse volume não seria possível. Assim, agradecemos ao Programa Interdisciplinar de Pós-Graduação em Linguística Aplicada, da Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), ao Programa de Pós-Graduação em Memória Social da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), à Associação Brasileira de Linguística Aplicada (ALAB), à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior ← viii | ix → (CAPES) e à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ).

Referências

Butler, J. [2004] 2006. Deshacer el género. Trad. de Patrícia Soley-Beltran. Barcelona: Paidós.

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ELIZABETH SARA LEWIS, RODRIGO BORBA, BRANCA FALABELLA FABRÍCIO E DIANA DE SOUZA PINTO

Introdução: Cu-irizando desde o Sul

Queering Paradigms IVa: Insurgências queer ao Sul do equador, junto com o volume Queering Paradigms IV: South-North Dialogues on Queer Epistemologies, Embodiments and Activisms (Lewis et al. 2014), divulga de forma multilíngue pesquisas apresentadas no 4° Congresso Internacional Queering Paradigms (QP4) que foi sediado no Rio de Janeiro, Brasil, em julho de 2012. Ambos os volumes compartilham o objetivo de analisar o status quo e os desafios para o futuro dos Estudos Queer a partir de uma perspectiva ampla e inter/multidisciplinar, concentrando-se sobre as relações entre os eixos Sul-Norte. O primeiro volume do díptico, publicado em inglês, enfrenta este desafio a partir da justaposição de abordagens epistemológicas e geográficas diversas a fim de criar uma crítica pós-colonial da produção e circulação de conhecimento e ativismo queer entre o Norte global e o Sul global.

Seguindo Ramón Grosfoguel (2008), observamos que a circulação deste conhecimento tende a ser unidirecional e vertical: do Norte para o Sul. As teorias e os conceitos do Norte viajam para o Sul, onde são adotados de bom grado, mas raramente adaptados de forma crítica com vistas a atender especificidades locais. O caminho oposto, contudo, não é percorrido. Em outros termos, as teorias e os conceitos produzidos no Sul raramente são reconhecidos por pesquisadorxs do Norte. Nessa dinâmica desigual de circulação do conhecimento, o Sul se mantém como objeto – um lugar a ser estudado – em vez de sujeito – um lugar que produz seus próprios conhecimentos situados e legítimos. Propusemos o termo North-normativity (Borba et al. 2014), ou “norte-normatividade”, para descrever este processo que reforça geografias e políticas desiguais e coloniais de conhecimento.

Nesse cenário de desequilíbrios epistemológicos, o quarto volume da série tomou para si o objetivo de estabelecer diálogos entre o Sul e o Norte ← 1 | 2 → que não seguissem os caminhos já bastante esburacados da norte-normatividade: os diálogos que propomos naquele volume traçavam trajetórias horizontais. O presente volume, por sua vez, oferece capítulos escritos em português e espanhol, línguas subalternas na academia (queer) global, e, com isso, visa a complementar a empreitada epistemológica que iniciamos anteriormente, qual seja, privilegiar vozes e conhecimentos do Sul. Dessa forma, este livro traz para o mapa de produção de conhecimento insurgências queer gestadas abaixo do equador.

No campo de estudos sobre sexualidades (tanto antes quanto após o surgimento das teorias queer), a zona situada abaixo da linha do equador sempre foi a morada de seres exóticos, com peles coloridas e práticas sexuais extravagantes a serem escrutinados sob as lentes supostamente neutras dx antropólogx (ver, por exemplo, Mead [1935] 2000; Herdt 1999; Kulick [1998] 2008; Parker 2001). Nessa tradição de estudos, o sexo e o gênero dxs “nativxs” são analisados (e exotificados) a partir de conceitos (e olhos e ouvidos) estrangeiros, brancos, anglófonos, de classe média etc. etc. etc. que pouco ou nada falam sobre as condições materiais que afligem e constituem sua existência cultural. A ex-centricidade das lentes analíticas (Bhabha 1998) acaba por (re)produzir a excentricidade dos objetos de estudo. Nesse cenário, os trabalhos reunidos neste volume insurgem contra tal colonização epistemológica dos corpos que habitam o Sul global. Essa insurgência devolve a voz axs “nativxs” para que falem de si por si a partir de suas vivências e, assim, enfrenta a excentricização de suas experiências.

Antes de apresentar as insurgências dos trabalhos que constituem este volume, é importante considerar as diferenças entre a emergência dos estudos de gênero e sexualidade e da Teoria Queer na América do Sul e a emergência desses estudos e teorias no Norte global. O termo “queer theory” foi cunhado pela feminista italiana Teresa de Lauretis em um congresso que organizou na Califórnia em 1990. De Lauretis publicou o termo pela primeira vez em um número especial da revista Differences: A Journal of Feminist Cultural Studies intitulado “Queer Theory: Lesbian and Gay Sexualities” (1991). Assim, a palavra queer emprestou seu nome a uma corrente teórica que emergiu no início dos anos 90, através de uma relação circular entre o trabalho acadêmico de teóricxs do Norte global como de Lauretis, Judith Butler, Eve Kosofsky Sedgwick e Steven Seidman, que foram ← 2 | 3 → influenciadxs pelas obras de Michel Foucault, pelo pós-estruturalismo, pela desconstrução derridiana, pela teoria feminista e pelos estudos LGBT e o ativismo de movimentos políticos como Queer Nation e Act Up, que se apropriaram do trabalho teórico dessxs autorxs. Assim, é difícil identificar uma cronologia linear da emergência das Teorias Queer, pois têm origens e influências múltiplas, idas e vindas que imbricam trabalho acadêmico, ativismo político, arte etc.

Na academia estadunidense, um fator importante no desenvolvimento da Teoria Queer foi a contestação à institucionalização dos women’s studies (estudos das mulheres) e dos gay and lesbian studies (estudos gays e lésbicos). A América Latina tem uma larga história própria de estudos sobre gênero e sexualidades, mas esses não se institucionalizaram da mesma forma do que nos Estados Unidos; portanto, não houve a mesma necessidade de contestação realizada pela Teoria Queer no Norte (Viteri, Serrano e Vidal-Ortiz 2011: 51). Em vez de passar por uma genealogia que começava com os estudos das mulheres, depois abordava os estudos gays e lésbicos e finalmente chegava à Teoria Queer, que questionava as duas vertentes anteriores, como foi o caso nos Estados Unidos, as trajetórias latino-americanas tendem a falar do sujeito gay ao mesmo tempo que questionam a estabilidade da categoria “gay” e os sistemas normativos (ibid.: 55). Nas palavras de nossxs colegas hispanohablantes María Amelia Viteri, José Fernando Serrano e Salvador Vidal-Ortiz, as produções latino-americanas tendem a “introduz[ir] o queer em um campo que não tinha as separações presentes na academia norteamericana; portanto, foi possível que elas plantassem o queer como ‘algo’ diferente, mas não necessariamente em oposição ‘àquilo’ que já existia” (ibid., tradução nossa, grifos nossos).

No Brasil, o país que sediou o 4° Congresso Internacional Queering Paradigms, o aparecimento dos Estudos Queer aconteceu exclusivamente no âmbito acadêmico e não nos movimentos sociais (Pelúcio 2014), e é frequentemente atribuído a Guacira Lopes Louro, com a publicação do artigo “Teoria Queer: uma política pós-identitária para a Educação”, em 2001. A importância desse artigo para a divulgação da Teoria Queer no Brasil é inegável; porém, as primeiras indicações “documentadas” da recepção da Teoria Queer estadunidense no país apareceram já na década de 1990, como aponta Fernando José Benetti na sua genealogia dos estudos queer no Brasil (2013). ← 3 | 4 →

Como observa Benetti, em 1995, Karla Adriana Martins Bessa publicou uma resenha do livro Gender Trouble nos Cadernos Pagu, observando em nota de rodapé que a ideia de divulgar o livro veio do Grupo de Estudos de Gênero Pagu da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Esse grupo já vinha lendo as obras de Butler. A primeira tradução dessa autora para o português brasileiro também surgiu nos Cadernos Pagu, com a publicação do ensaio “Fundamentos Contingentes: o Feminismo e a questão do ‘pós-modernismo’” em 1998 (a obra canônica Gender Trouble ou Problemas de gênero só foi traduzida em 2003). Marko Synésio Alves Monteiro, um estudante da UNICAMP influenciado pelo Grupo de Estudos Pagu, na sua dissertação em Antropologia intitulada “Masculinidade em revista: um estudo da VIP, Exame, Sui Generis e Homens”, defendida em 2000, inclui uma apresentação bem elaborada da Teoria Queer. Adicionalmente, ao final dos anos 90, professorxs como Tânia Navarro Swain, Mário César Lugarinho e Denilson Lopes, após terem entrado em contato com a Teoria Queer durante estágios no exterior (Canadá, Portugal e Estados Unidos, respectivamente), começaram a publicar textos mencionando explicitamente a Teoria Queer ou visivelmente influenciados por ela. Em suma, percebe-se que há uma emergência da Teoria Queer no Brasil antes da publicação do famoso artigo de Lopes Louro em 2001, e que aconteceu no âmbito de uma maturidade intelectual que já vinha se formando desde o início dos anos 90 em diversos grupos de estudos e publicações (Benetti 2013).

Ao destacar esta narrativa alternativa sobre como a Teoria Queer chegou e começou a se espalhar pelo Brasil, não queremos minimizar a importância do trabalho de Guacira Lopes Louro na divulgação da Teoria Queer estadunidense e o começo de formulações brasileiras da teoria. Enquanto nos Estados Unidos a Teoria Queer inicialmente foi mais acolhida nos estudos literários e estudos culturais, no Brasil ela foi fortemente recebida na área da Educação, através do trabalho de teóricxs como Louro e Tomaz Tadeus da Silva. Neste campo, foram propostas “Pedagogias queer” e “Currículos queer”, assim como críticas aos termos “diversidade”, “diferença” e “multiculturalismo”. Tais pedagogias e currículos não se limitam a denunciar o sexismo, homofobia, transfobia etc.; trabalham com xs alunxs para desconstruir os processos através dos quais alguns sujeitos são normalizados e outros marginalizados, para tornar evidente a heteronormatividade e ← 4 | 5 → heterossexismo, e para demonstrar o quanto é necessária a constante reiteração das normas sociais regulatórias a fim de garantir nossa percepção do que supostamente é “normal”, “natural” e “legítimo” (Louro 2004). Em outras palavras, várias apropriações brasileiras da Teoria Queer exploraram como “[e]m uma perspectiva queer, a educação pode evitar, ou pelo menos contribuir, para que todos, quaisquer que sejam as suas decisões sobre as suas relações amorosas e sexuais, não adotem irrefletidamente preconceitos por meio da adesão a modelos comportamentais” (Miskolci 2012: 43).

Uma das questões levantadas mais recentemente por teóricxs brasileirxs e latino-americanxs em relação à recepção e ao uso da Teoria Queer em América Latina é o problema do fluxo vertical e unilateral entre o Norte e o Sul. Como destacamos no quarto volume da série Queering Paradigms, a Teoria Queer, como tantas outras teorias e conceitos, tende a sair do Norte e ser adotada, mas não adaptada, no Sul (Borba et al. 2014). Ao mesmo tempo, a maioria das teorias produzidas no Sul não é adotada ou adaptada no Norte (Grosfoguel 2008, 2012). O Sul geralmente permanece o objeto de estudos enquanto o Norte é o sujeito (Souza Santos 1995). O Norte tende a ser o lugar de produção de teorias, e o Sul visto como o lugar de importação dessas teorias. Este fluxo unidirecional ignora a riqueza das produções locais do Sul, que frequentemente favorecem abordagens interseccionais que apontam para a imbricação de marginalizações de classe, raça, gênero, sexualidade, religião etc.

Com o objetivo de frisar a riqueza e a originalidade das Teoria(s) Queer do Sul, o presente livro é dividido em duas partes que procuram “cu-irizar” temas diversos a partir de vozes que falam do e sobre o Sul global. Embora as grafias “queerificar” e “queerizar” sejam mais comuns em português e espanhol, e existem tentativas de traduzir o conceito, como “estranhar” e “rarificar”, escolhemos o verbo “cu-irizar” para sublinhar a importância das produções locais, imbricando dois conceitos: o do verbo “cuirizar” em espanhol e o da “Teoria Cu” (Pelúcio 2014). “Cuirizar”, sem hífen, é um termo usado frequentemente em países hispano-falantes não como uma simples maneira de “espanholizar” a palavra anglófona “queer”, mas para romper com o discurso colonial angloamericano e destacar a deslocalização geopolítica (ver Campagnoli, este volume). Adicionalmente, indo além de uma simples tentativa de traduzir a palavra “queer” para o português, ← 5 | 6 → a proposta de uma “Teoria Cu” desenvolvida pela antropóloga brasileira Larissa Pelúcio (2014) no quarto volume da série Queering Paradigms problematiza as formas nas quais temos localmente absorvido, discutido, adaptado e ressignificado as Teorias Queer do Norte. O termo “Teoria Cu” brinca com a ideia de que para o Norte, nós aqui do Sul (e nossas produções acadêmicas) frequentemente somos vistxs como sendo o “cu do mundo”, um local geográfico desprezado, como o cu anatômico. O cu é associado não somente a excremento, ofensas e palavrões, mas também a um tipo de sexo “transgressivo”; nas palavras da autora, o “cu excita na mesma medida em que repele, por isso é queer” (ibid.: 37). Ao dizer “cu-irizar” em vez de “queerificar”, “queerizar”, “estranhar”, “rarificar” etc., o presente volume procura sublinhar a originalidade e o valor das nossas produções e epistemologias locais, e seu potencial de des-norte-ar os estudos queer, sem esquecer o contexto pós-colonial de desigualdade geopolítica no qual nós, e nossas teorias, nos encontramos.

A primeira parte do presente volume, “Cu-irizando epistemologias e regimes de verdade”, agrega discussões que problematizam formas de conhecer e ver o mundo que são constrangidas por certas normatividades de gênero e sexualidade (e raça, classe, geografia etc.). Em seu conjunto, os artigos desta parte cu-irizam práticas de conhecimento e as dinâmicas de saber/poder que transformam certas vidas como mais dignas de serem vividas que outras.

Biographical notes

Sara Elizabeth Lewis (Volume editor) Rodrigo Borba (Volume editor) Branca Falabella Fabrício (Volume editor) Diana de Souza Pinto (Volume editor)

Elizabeth Sara Lewis é professora de Linguística, Língua Portuguesa, Produção Textual e Ensino na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO). Seus interesses de pesquisa incluem linguística queer, identidade, performatividade e desigualdade social. Rodrigo Borba é professor de Língua Inglesa e Linguística Aplicada na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Seus interesses de pesquisa incluem linguagem, discurso, gênero e sexualidade e linguística queer. Branca Falabella Fabrício é professora de Língua Inglesa e Linguística Aplicada na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Sua pesquisa cria interfaces entre letramentos queer, sociolinguística e trajetórias de textos na internet. Diana de Souza Pinto é pesquisadora e professora do Programa de Pós-graduação em Memória Social na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO). Sua pesquisa atual se concentra sobre o desenvolvimento de uma abordagem interdisciplinar ao estudo do discurso de pessoas internadas em hospitais psiquiátricos e prisões.

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